No tenebroso labirinto do Submundo, onde o tempo se arrastava em uma eternidade desprovida de luz, um frio premonitório subitamente percorreu a espinha de Aurora, enviando arrepios por todo seu corpo. A sensação súbita foi o primeiro indício de que algo se aproximava. Sem hesitar, sua mão instintivamente alcançou a adaga presa à cintura, a arma que, desde seu doloroso pouso, permanecia firme em sua forma e não havia retornado ao estado de pingente. Estando em um território tão desconhecido quanto ameaçador, sabia que baixar a guarda, mesmo por um instante, seria arriscar-se demais. Seus olhos, atentos e vigilantes, varreram o ambiente em busca de qualquer sinal de movimento. Avistou apenas o grupo de campistas a alguns metros de distância, mantendo-os sempre dentro de seu campo de visão.
Não muito tempo depois, suas narinas foram invadidas por um cheiro pungente, semelhante ao enxofre, que trouxe uma expressão de confusão ao seu rosto por sua estranha familiaridade. Havia se acostumado ao odor incômodo depois de perceber que encontrara uma companhia silenciosa e compreensiva enquanto vagava pelo território da floresta em busca de contemplação e fuga. Já fazia tanto tempo desde a última vez que o encontrara. Na verdade, desde o momento em que todo o acampamento se uniu para caçar o cão infernal que fora responsabilizado pela morte de um semideus. Embora fosse inevitável sentir certa apreensão, Aurora sempre teve uma convicção profunda de que aquela culpa não pertencia à criatura que a visitava sempre que ela precisava, quase como se houvesse uma ligação inexplicável que os conectasse no silêncio. Os olhos da criatura podiam arder como brasas, mas nunca pareciam ameaçadores para ela. Apesar de sua aparência aterradora, sempre foi mais um aliado do que uma ameaça, um guardião silencioso que ela muitas vezes acariciava e alimentava em segredo. Talvez ele já tivesse percebido, antes mesmo que ela própria se desse conta, que havia encontrado uma nova companhia para preencher seus momentos de solidão, por fim decidindo manter-se afastado.
De repente, no meio daquele vazio interminável, um som rasgou a taciturnidade: um rosnado gutural que fez Aurora colocar-se de pé com um salto, tomada por uma mistura de exaltação e alerta. Seus olhos se arregalaram enquanto tentava identificar a origem do som, até que uma sombra se destacou entre as rochas, movendo-se com a agilidade de uma criatura habituada à escuridão. As batidas do seu coração se aceleraram, não por medo, mas por uma esperança crescente. Da penumbra, então, emergiu um imponente cão infernal, com olhos vermelhos que brilhavam intensamente na escuridão. Aquele não era um monstro qualquer, e ela o reconheceu de imediato. Era o mesmo cão infernal que, nas horas de tranquilidade no acampamento, costumava patrulhar as bordas do campo ao seu lado. Aquele a quem havia carinhosamente apelidado de Blizzard.
Parando diante dela, o animal cravou o olhar intenso no seu, possibilitando um instante de conexão em meio ao caos que enfrentava. Não sabia se era o motivo da visita, mas sentia a esperança de retornar ao acampamento crescer dentro de si, iluminando seu semblante com um sorriso contido. Como era bom reencontrar o velho amigo! Sua presença, apesar de imponente, era estranhamente reconfortante. Foi então que Aurora percebeu algo preso nas mandíbulas do animal. Apertando os olhos para enxergar melhor, identificou uma mochila velha e surrada, mas ainda intacta. Com movimentos majestosos, o cão depositou a mochila aos seus pés, mantendo os olhos brilhantes fixos em sua figura, como se soubesse exatamente o que estava fazendo e firmando uma promessa de lealdade. Aquilo era tão inacreditável que um riso baixo, de pura admiração, escapou de seus lábios. Tremendo de alívio e surpresa, ela se ajoelhou para recolher a oferenda com imenso cuidado, como se estivesse recebendo um presente precioso. E era.
Sem perder tempo após cumprir sua missão, o cão infernal trotou de volta para o lugar de onde havia surgido, lançando apenas um último olhar rápido em sua direção antes de ser engolido novamente pelas sombras, desaparecendo de sua visão como uma névoa que se dissipa no ar. O coração de Aurora ainda batia acelerado com a emoção de revê-lo, mas ela sabia que não havia tempo a perder. Com a ansiedade crescendo, apressou-se em abrir o zíper da mochila, usando o queixo e a mão saudável para realizar o movimento preciso. Ao abrir, encontrou alguns mantimentos industrializados. Um sorriso impressionado curvou seus lábios enquanto balançava a cabeça em descrença. Era óbvio que o cão a havia encontrado com ajuda! Dirigindo o olhar para o ponto onde o avistara pela última vez, sussurrou com a esperança de que pudesse ouvi-la. ── Obrigada. ── A palavra simples carregava uma genuína e profunda gratidão. Embora ainda fosse um mistério a identidade de quem enviara a criatura até ela, sabendo que o cão não agiria daquela forma por instinto próprio, depositava sua confiança nele. Com isso em mente, voltou-se para os demais campistas, erguendo os mantimentos no ar com um discreto sorriso ainda nos lábios. ── Parece que agora temos o que comer. ── Anunciou, esperando que aquele pequeno gesto fosse suficiente para levantar um pouco os ânimos exauridos de todos, que ansiavam pela liberdade daquele lugar sombrio.
Com uma alça da mochila pendendo de um dos ombros, Aurora se aproximou com cautela da outra vítima das circunstâncias, hesitante, mas determinada a garantir que todos estavam se alimentando e se hidratando adequadamente. Já bastava seu ferimento e outras circunstâncias atenuantes para deixá-los em desvantagem naquela viagem compulsória até o reino de Hades. ── Ainda relutante em comer algo oferecido por Perséfone? ── Verificou com ela, deslizando a alça da mochila até que encontrasse sua mão, firmando-se suavemente entre seus dedos. Insistiria caso recebesse uma resposta negativa, mas torcia para que isso não fosse necessário, pois odiava testar a tolerância de quem já se encontrava à beira do limite. ── Não faço ideia do que pode ter acontecido pra você demonstrar tanta insegurança quanto a benevolência demonstrada no gesto. ── O sarcasmo carregava as palavras, assim como permeava o sorriso discreto nos lábios. Katrina tinha todo o direito e as justificativas para renegar a ajuda da deusa. ── Ainda tenho um pacote de bolacha intocado aqui. ── Ofereceu, demonstrando confiança na segurança garantida pelos produtos industrializados.
# ────── Com o pedido a ser feito e um agradecimento ensaiado ressoando em sua mente, Aurora se aproximou da primeira pessoa a lhe oferecer ajuda após sua queda. Na mão, segurava um pedaço rasgado de sua própria camiseta e alguns gravetos encontrados pelo chão. Sua expressão revelava uma mistura de apreensão por precisar recorrer a alguém em um momento tão desafiador. No fundo, sabia que a solicitação não visava somente o benefício próprio, mas também era uma preparação meticulosa para enfrentar as ameaças ocultas nas profundezas do submundo. ── Desculpa incomodar, mas pode me ajudar a imobilizar meu braço? ── Para evitar parecer indelicada, empregava uma incomum delicadeza no tom, como um sussurro etéreo que se dispersava na fria vastidão do abismo no qual se encontravam. ── Ficar com ele pendurado assim tem me atrapalhado aqui. ── Achou importante se justificar, lançando a ela um olhar suplicante. Aquela era uma tarefa que, com um pouco mais de tempo e esforço, poderia eventualmente realizar sozinha. No entanto, aproveitava a oportunidade para se aproximar da semideusa, transformando o pretexto em um momento de contato desejado.