Dona Rose
Antes de mais nada, meu breve relacionamento com Dona Rose, também chamada por mim de Tia Rose. Eu não lembro direito quando a conheci, mas ela estava sarrando em mim em algum aniversário da Larissa. Eu já amei de imediato porque nenhuma das minhas avós tinha sequer dançado funk ou forró comigo como Dona Rose fez. Acho que nenhuma avó dança coisa alguma depois de certa idade, mas Rose dançava. Tia Rose deu encima de mim também. Disse que aguentava um novinho como eu. Dizia também que meu nome era Marcelo (Nome do meu amigo, neto dela), e isso desde o primeiro dia em que a conheci. Acho que depois de tanto tempo me reapresentando e ela dizendo “Não era Marcelo seu nome? Xará do meu neto” eu acabei dizendo um dia que “sim, isso mesmo”. Para ela, eu também era melhor amigo do Maurício (Irmão gêmeo de Marcelo). Isso porque toda vez que eu visitava a Larissa, Simone, ou alguém da família Mota, passava pela casa de Dona Rose. Aí ela levantava devagarinho do sofá e vinha me dar um beijo na bochecha. Pedia outro. Aí falava que Natasha (Uma poodle dela) não mordia, mas era safada. Falava das plantinhas, que tinha jogado água nelas e dizia que Maurício deveria estar em casa, mas dormindo. “Sobe lá meu filho” falava Rose. Depois de um tempo, o assunto era seu braço machucado, devido a um acidente com a escada. Dona Rose sempre tinha um assunto, seguido do “bom dia”, “boa tarde” e “boa noite”.
Hoje é 4 de outubro de 2020, e foi há mais ou menos 3 semanas que eu recebi notícias de que Dona Rose tinha caído num outro acidente. Não bem um acidente, mas o autor de tal coisa não estava (e por muito tempo) dentro de suas faculdades mentais. De fato, fiquei sabendo que nem sequer sabiam de seu transtorno, sua classificação, nem tratamento. Tampouco acompanhamento tinha, desde criança. Mas isso não vem ao caso agora. Dona Rose tinha quebrado o fêmur. Agora estava no hospital, e graças a este casal de amigos médicos da Simone, que vou chamar de Anjos, Dona Rose pôde ser atendida em um lugar melhor. Descobriu-se outros problemas porque a mesma estava vomitado um líquido escuro. Não darei mais detalhes, mas o fêmur já não era mais prioridade. Pela idade e estado de Dona Rose, eu queria dizer para a Simone se preparar, mas não sabia como. Ela mesma disse que a mãe talvez não voltasse, então me senti aliviado porque o sofrimento dela, embora tenha sido como foi no enterro, fora amenizado de certa forma ao não pegá-la desprevenida. Maturidade de luto, ou maturidade emocional. Fiquei feliz por isso em Simone, porque muitas pessoas não compreendem que às vezes entre ir embora e sofrer uma breve vida limitada e debilitada aqui, é de tamanha tristeza não poder aliviar a dor da existência precária. Muita gente aprende tarde demais. Outras nem sequer aprendem. Dona rose sofria de uma depressão severa que a deixava confusa e com perda de memória recente. Dito isto, às vezes ela não se lembrava dos seus irmãos que faleceram.
Dia 2 de outubro de 2020. Dayse, amiga da Simone e minha gerente, mandou seguidos “oi” em mensagem. Respondi e ela logo deu a notícia. Fiquei desolado. Não sabia nem como falar com Simone a respeito, mas tinha noção de que ela precisava de um espaço para a informação ser processada. O enterro seria no dia seguinte, em 3 de outubro.
Fui de carro com Dayse, e chegamos há 6 minutos de começar o enterro. Quando Simone viu Dayse, me partiu o coração. Ela chorava de uma forma que eu nunca tinha visto antes. Conheço Simone há 3 anos, e maior parte da minha vida em convivência, a pessoa com quem mais estive, foi com ela. De segunda a sábado. sete horas por dia, 6 dias na semana, Isso quando não a via todos os sete. Vi Simone chorar incontáveis vezes, mas nunca assim. Era a mais abalada, seguido de Maurício, que desmaiou depois. Por conta da pressão que baixou. O autor do acidente de Rose estava lá também, e chorava bastante. Cheguei a conversar com Simone a respeito, com medo de, se acontecesse o pior, ela botasse a culpa nele, mesmo este sendo psicologicamente debilitado. Meu medo era porque nem todos tem maturidade de enxergar o todo, principalmente na hora de sua dor ou raiva. Normalmente culpamos as pessoas quando as coisas dão errado. Mesmo que não tenha culpado, traçamos um caminho na mente para que faça sentido achar um culpado. “Se você não tivesse...” e coisas assim. Dona Rosa já tinha uma série de problemas dos quais Simone falava. No hospital, descobriu coisas mais severas. Será que ela teria ido antes se estivesse em casa? De fato, no hospital, segundo o diagnóstico de abertura ocular (Ela não estava abrindo os olhos) acredito que ela tenha deixado este mundo dormindo, como um anjinho. Em casa, ninguém sabe o que teria acontecido.
No velório, Dona Rose mesmo estava lá, deitada. Bem quieta, muito pálida. Ni, uma amiga da Simone que me deu carona para casa, me perguntou depois se ela parecia estar dormindo. Eu disse que sim, mas era mentira. Ninguém dormia de um jeito tão pálido. Do meu ponto de vista, as pessoas choravam pela casca, e Dona Rose mesmo já tinha partido para o pós vida que acreditava no dia anterior. Talvez ela estivesse ali vendo todos por uma última vez, com seu jeitinho meigo e simples. Possivelmente tive essa impressão por conta das minhas crenças pessoais, mas entendo que até o último minuto, quando se trata de um ente querido, a gente quer uma esperança de que talvez a pessoa levante bem dali, e seja tudo um grande engano.
Quando perdi minha bisavó, eu sabia que ela tinha que descansar. Ela mesma dizia, entre palavrões e outras coisas nefastas que não tinha muito tempo. “De que adianta ficar aqui? Nem ao banheiro eu consigo ir mais”. Ela sabia que ia embora, tão precisamente e certo que parecia saber também o dia exato. “Vou me embora” dizia ela, como se mandasse na própria morte. De fato, foi. Minha bisa era completamente sã, mas não enxergava mais como antes e usava fraldas. Será que ela escolheu? Será que alguém ou algo aparece a nós para nos orientar no pós vida? Só saberemos responder a essas perguntas quando for a nossa vez, então o único caminho para chegar até essa idade é vivento. Viva!












