CLOSED.
A minha viagem a Istambul havia sido uma surpresa de minha mãe para comemorar o meu início de carreira. Era óbvio que os donos do projeto a queriam em meu lugar, mas a filha prodígio deveria servir para alguma coisa, então àquela época, eles foram muito sensíveis em não deixar eu perceber em seus olhares a frustração e a falta de fé em meus desenhos. A moda é uma inimiga cruel do tempo, e eu tinha pouco tempo para provar a eles que minhas criações podiam resistir às mudanças de gostos, tão típicas quanto as estações e ao mesmo tempo tão irregulares quanto o frio que fazia naquela cidade. Conversei com minha mãe sobre isso ao final de mais uma reunião, voltando para o Pera Palace a passos largos. Ela me disse que eu deveria persistir, que não poderia me ajudar ali se eu quisesse voar com as próprias asas. Quase devolvi com a verdade que eu estava voando com as asas dela porque ela havia escolhido elas para mim. Se fosse por mim, eu estaria presa ao chão, bem segura na terra. Tão segura que meus olhos não largavam do chão e hoje sei que se não fosse por isso, não teria visto aquela carta e nem mesmo aquela comoção nos corredores do hotel.
Eu abaixei para pegar o envelope e o virei entre os dedos, segurei a curiosidade de ler seu conteúdo por pouco mais de meio minuto. Entrei no quarto e abri. A leitura me fez me despedir de minha mãe com frases rápidas e vazias, ela não se importaria, não enquanto ficasse bem distante da informação de aquele hotel oferecia uma pequena diversão a seus hóspedes na forma de charadas.
Meu sorriso era evidente, mesmo que ninguém o pudesse ver. “Minha primeira chance”, foi o que pensei alto demais ao me sentar na cama depois de devorar cada linha como se fosse um filme. Um filme embaralhado, embaralhado e confuso. A primeira confusão que me recordo ter incomodado foi a encadernação marroquina. Uma Bíblia cristã com uma capa de detalhes de um país predominantemente islão? Não deveria ser nada… mas mais à frente na leitura, essa mesma Bíblia havia sumido. Estaria eu a pensar demais?
Não, não era um filme. Eram capítulos desordenados de um livro e eu precisava ler ele se quisesse me sentir viva novamente.
Eu estava cansada, sentindo a panturrilha doer e os dedos mindinhos arderem em atrito com o sapato, mas mesmo assim aproveitei os primeiros raios da manhã para sair do quarto e ir ao saguão principal. Havia uma dica no verso da carta sobre uma cartilha do hotel e eu havia visto muitas em uma mesa de centro. Mas a minha surpresa não foi maior quanto ver que muse já estava lá, lendo uma das cartilhas. Eu sorri, puxando uma para mim também. Eu não sabia o que perguntar, mas estava curiosa, levemente competitiva também.
— Estranho não? — questionei, olhando muse de soslaio, prestando atenção em que momento da leitura do folheto elu estava. — Não seria uma blasfêmia alguém servir a dois deuses em uma época onde só se pode adorar a um? — Era uma questão estranha demais, mas o bolo seco na garganta da pequena corrida ao descer as escadas precisava ser umedecido pelas minhas próprias divagações, mesmo que elas não fizessem muito sentido.













