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Agora que o ano tá finalmente acabando, só queria sumir no céu, pisar no sol e gritar pro universo sobre como tudo tem valido a pena, as acolhidas, pessoas novas, até mesmo as despedidas. Queria dizer sobre como estou bem, sobre como é bom estar bem. Queria tanto poder fazer com que cada pessoa, cada átomo desse mundo abrisse mão do mal do século, a tristeza, e fosse audaciosamente feliz. Queria, sobretudo, ter o poder de tirar a tristeza das pessoas com as mãos. Até mesmo daquelas que insistem dizer que são tristes por natureza, que estão bem assim, obrigado. Tô vivendo a ansiedade dos vestibulares, que me tiram o sono toda noite porque se trata apenas do meu futuro, nada mais. Queria que todos vivessem esse momento, que fossem pra faculdade, sofressem os trotes, saíssem de casa prum mundo totalmente desconhecido onde você é só e precisa encontrar apoio em ombros estranhos. Queria ter vivido amores possíveis, não só contos de fada cujos finais foram sempre tristes, alguém morria e não era eu. Queria não ter magoado algumas pessoas e as amado mais, como se realmente não houvesse amanhã, mas sempre há. Acontece que sempre vivi o hoje pensando no amanhã. Faço planos pra não me perder na vida. Finalmente grito que felicidade sempre foi rotina. Que venham meus tão esperados amanhãs.
Ig.
Se eu partir hoje, venha em silêncio e me dê o último abraço. Quero guardar no peito a memória de dias leves e calmos, não a última lágrima. Pegue minha mão, olhe no fundo dos meus olhos e dê aquela piscadela de ficar bem. Sinta as lembranças de nossas tempestades e verões no fluxo do nosso olhar. Permita despir-se por alguns segundos do siso a que sua alma sucumbe, deixando a razão de lado e se entregando ao coração. Arrependa-se do dia em que me conheceu e me deixou entrar mesmo sem bater na porta. Prometa a si mesmo que vai cuidar de si como eu cuidaria se pudesse agarrar seu pescoço e jamais partir. Mas uma hora a vida nos chama, criança, e é hora de partir. Por hora, dê cá meu último abraço pra eu guardar no melhor canto aqui dentro. No teu bolso deixo um bilhete. Só o abra quando já tiver ao alcance do destino. E jura pra mim não chorar, as feridas ardem mas o tempo já diagnostica e prevê, ano que vem tu olharás no espelho e verás que foi melhor assim. Leva contigo nosso cobertor xadrez anti-alérgico e a mania de deixar o quarto na penumbra só pra ver as estrelas de plástico coladas no teto não apagarem. De hoje em diante os outonos serão eternos, minha pele seca terá que se acostumar. Eu te perdi, eu sei, nós nos perdemos nas arestas com tantos vãos, buracos de almas, buracos pelo chão. Deixe-os para trás, são apenas estrelas, meu bem, referências obsoletas de um amor em constelação. E quando ficar triste lembre-se do dia que te vi pela primeira vez, das lágrimas, das mãos, dos olhos emocionados que repetiam sim e tornavam-se abraços tão demorados quanto a ilusão. Abre um sorriso e vai na certeza que o nosso amor jamais terá um fim. Na vida tudo são apenas recomeços.
Pretextar & Elisa Barllett
E aos poucos aprendemos a cobrar menos das pessoas, porque elas também têm osso e carne e sangue e erros. É quando entendemos que pra sermos inteiros basta sermos nós mesmos: de alma limpa, nua e vulnerável, sem receio do mundo. Vemos então que a beleza do ser humano não se encontra nas capas das revistas mais vendidas, nem nas atitudes que visam à ascensão social. Mas sob a maquiagem, nas palavras escritas erradas ou nem ditas, nos tropeços no meio da rua, nas solas dos pés. Quando deixamos de buscar uma inalcançável perfeição nos outros e em nós mesmos, enfim despimos o mais puro de nós e passamos a viver de fato, porque errar é o que dá sentido e beleza à vida, afinal. Que façamos dos deslizes as mãos de um artesão, que molda a argila várias vezes até criar o vaso sem defeitos. Não somos o barro de um solo fértil, e é por isso que olhos dos outros nos parecemos frágeis. Se cairmos no poço dos erros, lá nas profundezas, perceberemos que a única saída é para cima, na direção do infinito. Todo o brilho refletido no espelho é mera ilusão visual, pois a luz do homem se encontra por dentro, enraizada nas veias da razão e dos sentimentos. Erremos, por fim, com a certeza de que os nossos passos nos levarão à felicidade.
Clarividente e Pretextar.
Reflections of a Skyline - Parte do filme "Crave" de Sarah Kane.
Mãe, hoje não quero levantar da cama porque o mundo tá pesado e só quero um colo pra descansar. Meu quarto tá bagunçado e não pretendo arrumar nem as gavetas da cômoda, nem as daqui dentro. Descobri que tem uma alma aqui que sofre da falta de calma. Acho que isso tem a ver com amor, mas não sei o que significa ainda. Nunca ouvi muito da senhora sobre o amor, mas agora percebo a delicadeza desse sentimento nas mais belas palavras, também nas mais rudes e nos gestos mais simples do dia-a-dia. Acho que querer seu colo agora, por exemplo, deve ser querer ser amado ou querer amar, enfim. No entanto, tem o amor que consome, mãe. Aquele amor que dói agudo no peito e enosa a garganta. Aquele que eu jurava só existir em livros do romatismo e nos clássicos de Shakespeare. Tá doendo, mãe, mas vai passar. Deixa eu deitar no seu colo antes que o mundo desabe. As estrelas estão caindo do céu e não há mais tempo: a hora de amar é agora. Mas só quero um cochilo antes, só um cochilo, só um, só…
Igor Paulino.
Invernos colorem de preto e branco minhas primaveras desesperadas, cortando-me de frio e seca. Vejo os dias começarem e terminarem incessantemente e percebo meu estado de dormência, anestesia. As dores nem doem mais, nem incomodam, mas não me deixam. As alegrias passam como brisas que refrescam o sol das três da tarde. Ambos tão efêmeros quanto o minuto, quanto o dia, quanto o ano, quanto a vida. Olho para o céu todos os dias e me pergunto se vemos a mesma imagem, se o que vejo é seu choro nas estrelas que escorrem, morrem, ou se sou eu quem está morrendo. A vida me parece mais e mais um jogo de azar, daqueles caça-níqueis que ninguém nunca ganha e, ainda assim, sempre sobra um fio de esperança ansioso pela próxima partida, ilusão. Sigo como beija-flor buscando seu amargor em outras bocas. Percebo em cada vírgula mal colocada sua ausente presença, nosso descaso ao acaso e falta de dar tempo ao mau tempo. Sinto a eternidade em intensos espasmos de breves segundos. E neles cabem tantas coisas, meu bem…
Igor Paulino.
A solidão tem sido companhia nas manhãs tardes e noites desses dias estranhos. Desço a avenida da saudade num sábado à noite. Faz frio. Acho que vou cair no chão a qualquer momento, ou gritar de tanta dor. Estou só e tropeço em meus passos incertos. Sinto que vou escorrer pelo bueiro, como esgoto. Rumo ao acaso de mãos dadas à ausência. Ser só é minha sina, meu mantra. No fim da avenida, vejo um cemitério. É como se milhões de almas aplaudissem entusiasmadamente meu sufoco. É como se elas me convidassem para dançar. É como se eu quisesse ir. Mas não vou. Aos poucos as dores viram passado ou rotina. Memória. Com o tempo me acostumo à dor. Ela vem e me abraça. E é no abraço que encontro paz.
Igor P., Pretextar.