Minha selva de pedra.
Eu não escolhi você, na verdade, foi você que me escolheu. Fiz uma lista de todas as coisas em que somos parecidos, advinha só, temos uma só. A diferença. Engraçado que de tudo pra termos em comum, escolhemos a diferença.
Remontei a lista algumas vezes, até tinha alguns itens no início, logo apaguei, acrescentei outros, mas, esses não podiam valer nada, já que foram adquiridos depois da mudança. Queria uma lista que fosse acima de tudo, realista. Que mostrasse os motivos que eu tinha lá atrás, quando assinei os papéis. Na época não assinei em cima de uma linha, assinei linhas de um futuro que apesar de imaginar, não tinha idéia do que viria depois. Mudei sem nem pensar direito, afinal os sonhos já compensavam os dilemas que estavam por vir.
Antes de escrever a lista me analisei por inteiro, as manias, hobbies, sonhos, costumes e pensamentos. Superficialmente, qualquer um consegue enxergar uma caiçara com cabelos cacheados, personalidade forte e senso de humor. Todas as coisas que fazem parte de mim, quando conhecidas, são remetidas a esse padrão. E quer saber, eu não ligo, na verdade eu até gosto.
Apesar de contar de forma superficial, eu me orgulho. Eu sou tão caiçara que aprendi a andar na praia. Meus cabelos são tão cacheados e volumosos, porque ficaram tanto tempo escondidos que hoje não vêem à hora de se mostrar. Minha personalidade é tão forte, que minha mãe diz que a primeira palavra que disse, foi “não”. Meu senso de humor ou espontaneidade é tão aparente porque encontrei nele uma maneira de esconder algumas lágrimas.
Se as minhas outras características te levem a crença de que sou só a “garota da praia” ou a “feliz o tempo todo”, eu agradeço. Mas, eu não sou só isso.
A garota da praia tem tantos sonhos grandes e sempre soube que precisaria abrir mão de algumas coisas. A cobrança para ser forte é diária, divido a luta da busca de um sonho com a luta espiritual, emocional e com a saudade.
Esse lugar me sufoca e errado está quem acha que é só por ser oposto visualmente, de onde fui criada. O que me dói é o outro, é enxergar alguém e perceber que as outras pessoas só vêem o seu reflexo. A dor alheia me entristece, mas, o que me mata é insensibilidade das pessoas.
Minha vulnerabilidade me diz que é tudo muito pesado, mas, na verdade quem deixa pesado são as pessoas. Eu preciso ser tão forte o tempo todo, que me culpo por ser fraca.
Esse lugar é uma selva, não pelos edifícios e rodovias, e sim, pelas raposas, serpentes e leões. Se você não se impuser você não é nada. Mas, como me impor em um lugar que o destaque é em cima da cabeça de alguém?
Eu ainda não sei lidar com essas coisas. Na nossa lista eu coloquei as coisas que você me deu, e eu não gosto de ver o resultado. Talvez, eu sempre seja só a garota da praia, mas, se isso quer dizer que sou diferente, tudo bem. Eu quero ser diferente.
Não me entenda mal São Paulo, eu te amo demais, sou grata a todas as experiências e amizades. O verdadeiro problema sou eu em você. Funcionamos como um relacionamento abusivo, onde sou privada de quem amo e de me sentir fraca.
Obrigada por me ensinar a ser forte, mas, hoje eu só quero ser fraca.