Vulnerabilidade Mamãe disse que a depressão é hereditária, que as mulheres da família dela costumam ter. Disse também que se afasta dela, conclui um exercício diário de força e perseverança contra qualquer deslize. Procurei no Google se a depressão é realmente hereditária, e sim, ela é. Na verdade é uma "vulnerabilidade biológica". Ual. Cerca de um ano venho tratando sobre essa tal vulnerabilidade, tentando aceita-lá. Posso dizer uma coisa? Não tem sido fácil, escondo minhas cicatrizes com sorrisos há anos, estou habituada com isso. A diferença é que essa vulnerabilidade sempre foi grande, mas, não tanto quanto agora. De oito meses pra cá, ela vem se tornando insuportável. Tento apagá-la todos os dias, são vários os vícios que "amenizam", sejam eles digitais ou “ervas medicinais”. Cerca de um mês atrás, quando finalmente parecia ter encontrado um jeito de conviver com ela, sem vícios, algo tentou apagar meu esforço. Jogou no lixo tudo que pensava e me chamou de fraca. Foi difícil. Ainda é. Estou me recuperando, minha vulnerabilidade faz parte de mim. Ontem foi um dia especial, essa semana tem sido legal. Mas, essa noite foi amarga. O café preto sem açúcar foi à coisa mais doce dessa noite. Agora, olhando as pesquisas descubro que essa vulnerabilidade é herdada. Assim, como os meus olhos e o meu sorriso. Mama também tem e me contou em segredo. Apesar de ser um presente difícil, eu agradeço por ele. Enxergo a vida com tanta sensibilidade, às vezes linda e outras, tão triste. Confesso que às vezes o cinza é sufocante e totalmente torturante. Mama chama minha vulnerabilidade de "compaixão", não gosto desse termo. São coisas diferentes, sabe? Não tenho compaixão, não escolho ter. Minha vulnerabilidade foi herdada. Desde a bisá, índia que se apaixonou e lutou por um preto; de titia, que vem traçando uma enorme batalha com a depressão há alguns anos. E de mama, que encontra no seu silêncio espaço para ouvir e sentir o outro. Minha vulnerabilidade é herdada, ou melhor, ela nos foi dada com a promessa de que um dia iríamos entender o porquê de sermos tão expostas em um mundo cruel assim.
Priscila Barbosa










