Era ela e eu, mais uma vez, vendo as palavras flutuarem ao sair das nossas bocas. Mesmo assim, ainda era indescritível, o modo como cada palavra, cada junção era significativa e cada vez mais eu me sentia envolvido por uma aura branca, sentia a calma do momento e me aproximava mentalmente dela com cada olhar daquelas íris castanho-escuro que em certos momentos ficavam claras – e achava mágico este momento-e fitava aqueles lábios, nem carnudos nem finos, aureamente calculados e perfeitos para se encaixar nos meus, além de mostrarem aquele tom avermelhado que me deixava louco... Amava tudo nela, amava olhar para ela, reparar nas minusciosidades... Apenas amava reparar tudo nela, da raiz a ponta do cabelo – e como eu adorava aquele degradê que a deixava com uma cara tão viva!-, do rabo de olho até as pupilas, enfim, da cabeça aos pés. Simplesmente tudo nela me atraia, e nem falei do corpo dela, onde eu me divertia... Costumava chamar de "meu parque de diversões" enquanto olhava com aquela cara safada e forçava um sorriso maior que o do coringa, ela ria disso toda vez.
Mas então fui me afastando dela, me perdi em meio as minhas palavras, me perdi dentro de mim, me perdi dentro dela... Ainda hoje, me lembrei de cada detalhe, eu ainda consigo descrever, mesmo estando tão bêbado, ainda consigo falar da forte personalidade que ela tinha, da ternura que estava contida nos seus beijos cada vez que ela vinha me acordar antes de sair para o trabalho. Agora, com nada sou acordado, com nada estou... Sem beijos, sem carinhos, sem tudo estou. O pior nem é isso, hoje eu faria mais ou menos 5 anos ao lado dela, e eu planejava que esse fosse o nosso primeiro dia de noivado... Mas agora tudo que sobrou foi a merda dessas lembranças, que continuam a me machucar, me lembrando diariamente que ela não está mais aqui e quando penso ter deixado tudo para trás... Lá voltam as memorias dela em minha mente!
Passei hoje em nossa antiga morada, lembrando-me dos locais onde fazíamos sexo, da vez na escada, na cozinha, no quarto e até na sala com as janelas abertas... Lembro das brincadeiras e até das nossas brigas imaturas... Mas lá no fundo, ainda continuávamos a brigar só pra ter um motivo, um por que pra conversarmos e termos motivos para falar sobre o que já fizemos um pelo outro, rir disso tudo... ou somente para fazer sexo de novo.
Aguentei, por pouco não chorei no dia que nós brigamos sério – pela primeira vez e única que fizemos isso-, e nessa briga eu te vi pela primeira vez destruída, de início pensei ser brincadeira e assim levei adiante, mas ai veio o momento em que meu mundo desabou, olhei para a escada e vi as suas malas quase na porta, então percebi que você estava indo embora, quando dei por mim, já estava no chão com os olhos cheios, brilhando, e pequenos fios de lagrimas jorrando calmamente pelo canto dos olhos. Você simplesmente me olhou, viu o meu rosto, a minha agonia e saiu sem que nada fosse dito, sem que qualquer explicação fosse dada sem que nenhum som saísse de sua boca e chegasse aos meus ouvidos.
Passado esses anos, eu ainda não consegui perceber ou chegar perto de entender o motivo daquela atitude, daquelas palavras e nem o que elas escondiam, será que realmente eu ouvi o que deveria ter ouvido? Entendi o que deveria ser entendido? Bom, nem perto cheguei de entender o motivo de sua partida, partida essa um tanto rude e seca. Talvez eu tenha sido um idiota infantil, que não evoluiu o bastante para segurar aquilo... para segurar aquela que era a mulher da minha vida, aquela que me deu 4 anos de uma vida boa e feliz, aquela que era você.
A minha idade já não importa, não mais... nem nunca mais importará, pois vivo o hoje sem nenhum rumo, talvez espere alguns anos assim até entrar em um asilo, morrendo de tedio, cercados por outros velhos como eu e passar o dia reclamando, até que a enfermeira venha me sedar ou que eu acabe contando o quão infortuno foi minha vida depois desses 4 anos ao seu lado terem sido destruídos... ou então antes disso, fico louco e acabo assim indo para um manicômio ou tento me matar me entupindo ate a goela de medicamentos com umas boas doses de Vodka.
Hoje acredito que tudo que eu perdi, seja para que as melhores coisas venham, ou pelo menos me iludo diariamente com isso. Talvez até saiba o que te levou a ficar longe de mim, de inúmeros outros fatores, admito que o principal causador disso tudo fui eu... Mas meu eu antigo. Meu passado.