Prólogo
- Por que mesmo eu estou aqui?
O olhar que surgira no rosto de sua mãe expressava claramente a sua pouca vontade de discutir aquele assunto novamente, com sua filha mais nova. Daisy, no entanto, estava decidida a obter uma resposta satisfatória, porque se ela iria se submeter a uma longa – e interminável – tarde, num clube de polo, rodeada por gente estranha e rica, ela precisava ter ao menos uma boa razão para aquilo, porque não entrava na sua cabeça o motivo de ela estar ali, junto de seu irmão, sendo que o evento dizia respeito somente a Carl Hamilton, o novo namorado de sua mãe.
- Porque Carl gostaria de nos apresentar para sua família e amigos mais próximos... É o próximo passo do nosso relacionamento. – Respondera Lily Cooper, com pouca vontade. Claramente estava muito mais deslumbrada pela paisagem suburbana da estrada que os levaria ao clube de polo.
- Por próximo passo você diz... Ficarem noivos? – Quem falara aquilo era Nate Cooper, que durante todo o caminho parecera muito mais interessado em ignorar as duas mulheres que eram responsáveis por diversos traumas obtidos ao decorrer de sua vida. Para um garoto, crescer com duas influências femininas tão fortes sobre ele, às vezes era um pesadelo. Felizmente, ele não chegara a enlouquecer, embora tivesse ficado próximo.
- Sim. – Lily disse em meio a um suspiro.
Daisy teve que morder os lábios para não rir. O sarcasmo escorrendo de cada palavra pronunciada por seu irmão mais velho. Os dois trocaram um olhar cúmplice, quando viram o quão irritada ficara sua mãe, mesmo que não dissesse coisa alguma.
Aquela era sua vida... Parecia um belo fiasco, mas se fosse parar para um momento de honestidade, Daisy aproveitava-a muito. Ela gostava de sua vida simples e sem muitas frescuras. Nunca havia tido dinheiro para esbanjar e comprar Louboutin para as amigas, no entanto, tinha boas condições financeiras. Seu pai, apesar de não fazer muito do tipo presente, mandava uma mesada considerável, que a permitia se divertir e comprar suas roupas da moda e patrocinar suas baladas; havia frequentado e também concluído seus estudos, num bom colégio particular; havia passado numa boa faculdade para estudar Sociologia, mas decidira adiar sua ida e tirar um ano para si.
Vê? Apesar de ter um pai ausente e uma mãe que estava constantemente em busca do verdadeiro amor, Daisy Cooper não era uma revoltada, não era uma bêbada, não tinha qualquer passagem no terapeuta. Ela não era de mal com a vida por causa do divórcio de seus pais. Era uma garota comum, de 19 anos que vinha buscando viver intensamente, apenas pelo mero desejo de ter um monte de histórias para contar e se lembrar, na velhice. Clichê... Daisy Cooper era um clichê.
- Mãe... O que você disse mesmo que o Carl é? – Nate tornara a falar.
- Além de gordo? – Escapou de Daisy e então, com um olhar divertido trocado com Nate, ela riu e levou a mão, a boca. – Desculpa mãe.
Lily estava bufando e ao em vez de brigar ou qualquer coisa do tipo, optara por ignorar aos filhos. Era uma coisa que ela fazia muito, principalmente levando em consideração que ela era a mãe e muitas vezes simplesmente não parecia isso.
Talvez por ter sido mãe tão jovem – com a idade de Daisy – Lily nunca, realmente, havia tido a imagem de mãe. Aquela idealizada... Uma mulher de abraço aconchegante, risada calorosa e companheira. Muitas vezes, olhando-a, ela parecia mais uma tia, uma prima, quem sabe uma irmã mais velha! Ela se cuidava tanto, era tão vaidosa, que, ninguém dizia que ela já havia alcançado aos quarenta anos.
- Mas é sério... Eu estou confuso. Ele, afinal, é um Duque ou um Conde?
- Ele é um Visconde, Nathaniel. Agora, fique quieto. – Lily respondera tão seca quanto era de seu habitual, principalmente depois que suas ‘crianças’ deixaram de ser, realmente, crianças.
- Ela te chamou de Nathaniel. – Sussurrou Daisy.
- Eu sei. Eu tenho amor à vida. Eu vou me calar.
Novamente, lá estavam os dois trocando olhares divertidos e prendendo o riso. Daisy balançou a cabeça negativamente e achou melhor fazer o mesmo que a mãe, antes que Nate e ela desembestassem numa gargalhada sem sentido, porque aquilo era bem a cara dos dois.
Nate não era só seu irmão mais velho... Nate era sua dupla. Nate era o homem da casa, ou ao menos, a única figura masculina realmente presente em seu dia a dia. Não que ele fosse muito mais velho, ele era, na verdade, um ano mais velho apenas, no entanto, tendo uma mãe que sempre colocara em primeiro lugar na vida a idealização do ‘primeiro amor’ e com uma irmã mais nova em casa, pouco desejada pelo casal que estava pronto para se divorciar, ele não parecia ter só 20 anos. Ele parecia muito mais velho do que realmente era, muito embora, naqueles raros momentos – geralmente acompanhado de Daisy – ele se permitisse bancar o bobo.
- Vai demorar muito? Minha bunda está doendo... – Comentou Daisy baixinho, ainda hesitante se deveria incomodar sua mãe.
- Nós já estamos aqui. Chegamos... Pelo amor de Deus, comportem-se.
É claro que Lily iria pedir aquilo. Desde que Daisy conseguia se lembrar, todos os lances de Lily que não deram certo, a culpa havia, de alguma forma, caído sobre Nate e ela. Pronto! A culpa não era da imaturidade de Lily; a culpa não era de suas inseguranças e frustrações pessoais; a culpa não era de uma necessidade de autoafirmação; a culpa não era de Lily. A culpa era dos filhos. Porque homem nenhum quer cuidar dos filhos de outro; homem nenhum gosta de mãe solteira; homem nenhum gosta de crianças dependentes e pirracentas; homem nenhum gosta de adolescentes hormonais; homem nenhum gosta de filhos adultos. Havia um pouco de veracidade em cada uma daquelas coisas... No entanto, há homens e homens no mundo e o mundo é um lugar muito grande! E se Lily, bonitona daquele jeito, não havia conseguido nada até aquele dia, levava Daisy a crer que tinha algo de errado com ela. Mesmo que Lily não aceitasse.
- Sabe... Se não for esse o cara, eu acho que podemos desistir da Lily. – Murmurou Daisy, para Nate assim que o motorista particular de Carl, que havia sido cedido pelo mesmo, para busca-los e leva-los até ali, abriu a porta. Daisy não conseguia entender qual era o grande problema do namorado de sua mãe, ir com eles ou até mesmo, leva-los, mas aquele era o tipo de pergunta que ela não fazia para Carl. Ou melhor, ela não fazia pergunta alguma para o namorado de sua mãe.
Nate é quem sempre gostara de importuná-los, enche-los de perguntas e os provocar o tempo inteirinho. Ela não. Sempre manteve uma certa distância. Meramente educada; meramente cortês, apenas para não ser chamada de grossa pelas costas. Fechada sim, grossa não.
- Espera, você ainda não desistiu? – Replicou seu irmão, parecendo realmente impressionado. – Nossa, semana passada eu criei um perfil pra ela, nesses sites de encontros as escuras e de relacionamentos.
- Nate! – Lily ao que tudo indicava, havia escutado. Estancando no lugar, arrancando os óculos de sol do rosto, havia se virado, com as mãos na cintura e o encarando com raiva. – Que história é essa?
- Eu só estava querendo ajudar. – Sorriu o rapaz dando de ombros. – Você não consegue segurar um homem do seu lado por mais de três meses... Esses caras desse tipo de site, são menos enjoados, mãe. Talvez você tenha mais chance. Um professor de Oxford ficou interessado em você.
- Ah, por favor, de proletária já basta eu. Vamos entrando. – Disse Lily com amargura, enquanto colocava os óculos de volta no rosto e movimentando os quadris com discrição, se equilibrando elegantemente nos saltos, tornara a caminhar.
Revirando os olhos, Daisy balançou a cabeça negativamente, pensando em como aquilo era um exagero. Como se Lily nunca na vida não tivesse tido tudo. Talvez não uma conta com um monte de zeros à direita, mas definitivamente, as contas nunca atrasaram, o apartamento era deles, trocavam de carro a cada três anos e todo ano tirava férias. Do que ela podia reclamar? De ser uma solteirona batalhadora sim, mas de resto? Nada.
Lily já não estava nos pensamentos de Daisy, quando passara pela entrada do clube de polo que Carl havia os convidado para ir naquela tarde. Era de tirar o fôlego! Era incrível!
Nunca havia visitado um, tinha plena consciência de que provavelmente havia um monte como aquele e talvez melhores, mas se o Caverna – um pub – era o seu lugar favorito no mundo, então aquele, provavelmente, seria seu segundo.
O gramado era verde e vasto, muito bem cuidado além e tudo. O campo onde os oito jogadores iriam se posicionar para disputar uma partida, era rodeado por arquibancadas de madeira, mas não havia apenas a arquibancada. Haviam tendas com camarotes improvisados, onde muita fartura estava sendo servida. E outra coisa que impressionara Daisy bastante, era o número inesgotável de pessoas chiques, bem vestidas e ricas. Em geral madames, porque as garotas da sua idade, estavam tão simples quanto ela e seu irmão haviam optado, mas todos, sem dúvida todos, tinham uma taça na mão e a taça estava cheia.
- Parece meio surreal... Não parece? – Murmurou Nate. – Eu já conheci muita gente rica, mas caralho, aqui parece que pobreza não existe.
Pobreza não existe... A frase de seu irmão soou no fundo de sua mente. Muito embora tivesse optado por atrasar sua faculdade um ano – tendo a bênção apenas de Nate – a ideia de fazer Sociologia, lhe parecia muito sólida. A ideia de ser professora, de formar e abrir a cabeça das mentes de jovens – principalmente aquelas fechadas – lhe soava tentadora, lhe soava incrível! Não conseguia se ver no futuro fazendo algo diferente que se não, se envolver em causas nobres, se envolver com aquilo que pudesse inspirar as pessoas. Ser professora, havia sido a forma que ela havia encontrado, mais próxima e mais real daquilo. Tentara ter um blog certa vez, mas ninguém queria ler o porquê de ela ser totalmente a favor da Monarquia Parlamentar que era adotada por seu país – Inglaterra – e ser contra o Republicanismo, apesar de não achar que todos os países do mundo tem estrutura para serem monárquicos. Confuso, talvez por isso ninguém quisesse ler, ou talvez porque só ela gastava muito de seu tempo pensando naquilo.
- O que é que você está fazendo? – Nate indagou completamente aturdido com o que sua irmã estava fazendo. Apesar de ele sempre ser o primeiro a saber de tudo e principalmente de suas maiores frustrações pessoais, além de suas ideologias e teorias da vida, Nate não era o tipo de cara com sensibilidade para entender aquilo.
- O que é que você acha que estou fazendo? Tirando uma foto, seu mongoloide.
- Não me chame assim.
- Tem razão, desculpe, é uma ofensa...
- Exato.
-... Para os mongoloides, é claro.
Click. A imagem perfeita e congelada na tela de seu iPhone. Seus olhos brilhavam com a ideia de um possível trabalho que fosse fazer e pudesse usar uma foto sua, de um momento, de uma situação que ela mesma tivesse presenciado e então fazer a comparação, com a realidade que outras pessoas vivem. Pessoas que provavelmente nunca haviam segurado uma taça com aquela nas mãos e nem sequer sabiam qual era o sabor de uma água devidamente limpa e tratada, quem dirá de champanhe?
- Vocês dois! O que estão fazendo aí ainda? Vamos lá! Carl está me esperando e vocês aí de segredinhos... Ah francamente, essa é a primeira e a última vinda de vocês aqui. – Afobada e também ignorante como de costume, Lily apareceu, novamente tirando os óculos escuros do rosto.
- Calma aí mãe. – Reclamou Nate. – Você é muito nervosinha, sabia?
- Você não me viu nervosa ainda Nathaniel. E fique de olho na sua irmã ok? Não quero uma gracinha sequer. – Lily jogou os cachos ruivos para trás dos ombros e olhou feio para a caçula, que distraidamente, digitava sua teoria no bloco de notas do celular.
Gracinha... Daisy teve vontade de revirar os olhos, na cara de Lily. Como se ela fosse daquele tipo, como se ela fosse Nate.
Eles, no entanto, a seguiram. Ou melhor, Nate estava seguindo Lily e arrastando Daisy, tomando cuidado para verificar o gramado – embora não fosse necessário – para garantir que não houvesse nada que Daisy pudesse tropeçar, se esculhambar no chão e arruinar o futuro brilhante de Lily como Viscondessa.
- Lily-linda! – Carl bradara assim que eles alcançaram o lugar onde ele e sua família estavam.
Arregalando os olhos, Nate e Daisy prenderam o riso com muita dificuldade, trocando olhares desesperadores um tentando dizer ao outro para não estragar tudo, para deixarem a estrela de Lily brilhar naquela tarde e que, com um pouco de sorte, Sir Carl Hamilton, seria doido o suficiente para querer se casar com ela e assim, eles se livrariam do enorme problema de procurarem uma casa de repouso para ela no futuro e, além de tudo, se livrariam de uma bunda preguiçosa no apartamento. Se Carl e Lily dessem certo, as coisas só tendiam a melhorar, então, que ele a chamasse por apelidos ridículos o tanto que quisesse!
Apesar de Carl ter se provado um besta apaixonado por Lily, toda a família se mostrara bastante estruturada mentalmente. Todos eles eram bastante parecidos. De porte grande, porém, parrudos. Cara de poucos amigos, mas se levasse em conta que todos eles não pareciam aprovar muito Lily, estavam sendo até simpáticos – Daisy havia sorrido para um deles e ele havia virado a cara – então não se sentiam no direito de cobrar qualquer coisa. Principalmente quando ela não fazia a menor questão daquilo. Não importava! Daisy havia gostado dos Hamilton. Eles não eram bajuladores, não ficariam se esforçando para envolver Nate e ela no assunto. Eles simplesmente os deixariam ali, meramente esquecidos e portanto, evitariam qualquer sorriso falso, qualquer frase sarcástica de Nate e inconveniências.
- Eu não sei nem por onde começar, uma lista, de mil coisas melhores que eu poderia estar fazendo, mas que não posso, porque estou aqui. – Nate sussurrou.
- Eu ainda não sei o que estamos fazendo aqui hoje... Honestamente. – Murmurou Daisy, enquanto tentava se dividir entre Angry Birds e dar atenção a Nathaniel.
- Bajulação. – Disse o mais velho, revirando os olhos. – Você tem uma caneta ou um lápis aí?
- Pra...?
- Fins meramente... Desimportantes.
- Na minha bolsa, mas só se você me contar pra quê você quer uma caneta ou um lápis já que é tão desimportante...
- Não é desimportante. Pra matar tempo eu vou fazer a planta da futura sala de cinema que eu vou ter no subsolo da minha casa.
Daisy franziu o cenho. Um: Porque seu irmão era louco. Dois: Porque ele realmente estava levando aquilo a sério. Três: Por que, quem diabos, afinal, tinha uma sala de cinema em casa?
- Carl, meu amigo, como está?
E ali estava a resposta.
Daisy novamente estava surpresa com o poder que aquele homem emanava, mesmo que estivesse usando calças apertadas de montaria. Assim que Sua Alteza Real, Príncipe Wales alcançara a tenda que a família Hamilton havia se instalado, todos se ergueram, educadamente, curvando-se numa discreta e respeitosa reverência. Automaticamente e muito mais desajeitados do que qualquer um que estava ali, os Cooper também fizeram uma.
Sua Alteza Real, no entanto, não parecia muito interessado em bajulações. Ele estava na verdade com um grande sorriso no rosto, enquanto apertava a mão de Carl, conversando com bastante empolgação, nem parecendo ser um homem tão velho quanto realmente era. O Príncipe, então, foi apresentado a Lily, por Calr, que estava mais branca do que era possível.
Daisy não pôde deixar de se sentir um pouco boba com aquela presença. Lá estava ela, fazendo papel de boba. Com a boca semiaberta, perdendo no Angry Birds que ainda rodava em seu celular, além de totalmente interessada em cada movimento e cada palavra que saía do futuro Rei de seu país.
Ele sim provavelmente tinha uma sala de cinema no subsolo de casa... Ou em qualquer outro dos muitos cômodos disponíveis.
- As orelhas dele são grandes mesmo. – Sussurrou Nate.
- Shhh, quieto. – Arregalou os olhos, para o mesmo.
- Que é? Só estou comentando... Ei, sou só eu ou aquela sobrinha do Carl não para de olhar pra mim?
- Ela está realmente olhando, agora fica quieto.
Provavelmente Daisy teria se sentido mais desconfortável se percebesse todos a vontade ao redor do Príncipe Wales e seu irmão e ela, tivessem sido os únicos tímidos e desconhecidos, no entanto, os Hamilton num geral, não pareciam próximos de Charles. Carl sim, Carl sempre! Ele apertara a mão do Príncipe, conversaram como irmãos, riram e zombaram do time do outro. Carl brincara dizendo que jogaria o príncipe do cavalo e Charles dissera que um de seus garotos – Daisy pressupôs que fosse um de seus dois filhos – o jogariam no chão, antes que Carl sequer sonhasse em tocar em Charles.
Quando o Príncipe finalmente se afastara, era como se todos pudessem voltar a respirar novamente. Mais que depressa tornaram a se sentar e conversar em sussurros discretos, ao que era provável, sobre um dos homens mais famosos e poderosos do mundo que havia acabado de deixar a tenda. Era engraçado pensar que aquele senhor de cabelos brancos, mas de aparência saudável, com uma voz calma e profunda que passava muita serenidade, poderia acabar com a vida de cada um deles ali. Não seria ético, no entanto, ele poderia se quisesse.
- Não é engraçado que aquele é um dos homens mais poderosos da Grã-Bretanha e ele seja tão... – Começou.
- Simpático? – Completou Nate.
- É.
- É engraçado mesmo. Tipo assim, meu salário depende da boa vontade dele.
- Não. Seu salário não depende dele de forma alguma...
- Depende do sistema, e ele é o sistema...
- Não, ele não é o sistema, ele faz parte do sistema de seu país. Seu salário depende...
- Desisti de saber. Quer uma azeitona? – Nate a cortou.
Franzindo o nariz, ainda incerta, aceitou a azeitona e enquanto mastigava olhava ao redor. Ainda estava maravilhada com o lugar. Será que faria mal se ela fosse dar uma voltinha? Ver pessoas, escutar a conversa dos outros ‘sem querer’, afundar os saltos de suas botas no gramado... Parecia tentador.
- Eu acho que vou dar uma volta. – Ficou de pé.
- Eu acho que vou ficar por aqui mesmo. – Nate disse parecendo se sentir um pouco culpado por faze-la ir sozinha, muito embora, não o bastante para ter coragem de acompanha-la. A preguiça era um problema sério que Nathaniel James Cooper enfrentara a vida inteirinha.
- Ah, está tudo bem. Eu acho que prefiro ir sozinha.
‘Prefiro ir sozinha’.
Se Lily soubera de uma coisa, quando tivera seus filhos, era que eles ou seriam melhores amigos ou inimigos até o fim. Por sorte, os dois penderam para o lado fraternal e sempre estiveram cuidando um do outro, quando ela não pudera – ou não queria – o fazer. Eles compartilhavam muitas coisas entre si. Ambos eram muito passionais, tranquilos e inclinados intelectualmente. Nate mais para exatas e Daisy mais para humanas. No entanto, sempre, desde pequenos, ela havia conseguido identificar um fator no qual os dois nunca iriam entrar num acordo que era o espaço particular de cada um.
Daisy dera seu grito de independência mais cedo. Ela não chorava para tomar banho, dormir ou comer. Havia começado a falar bastante cedo, dormia sozinha mesmo nas noites chuvosas com direito a raios e trovões. Sempre preferira um pouco de distância. Se fosse para ser honesta, Lily havia se preocupado um pouco a princípio, pensando que poderia ser alguma sequela de um divórcio mal resolvido, no entanto, não. Daisy nunca dera indícios de ter qualquer problema pessoal. Ela era aquilo. Apesar de um pouco mais discreta e sempre manter uma barreira para que as pessoas não se aproximassem demais e tomassem dela seu espaço particular, Daisy sempre havia sido uma garota boa, gentil, sorridente, simpática e de fácil convivência.
Nate, já era diferente. Ele nunca fora do tipo de dar problema, mas adorava aprontar de vez em quando. Como primeiro filho, e levando em conta o fato de ser homem, foi muito mais mimado do que Daisy. Havia perdido a conta de quantas vezes Nate havia se enroscado nas cobertas entre ela e seu ex-marido; Nate sempre fora mais pirracento, mais difícil de lidar. Com ele, tudo tinha que ser feito através de uma chantagem ou troca. Ele tinha que sempre receber algo, para colaborar e fazer sua parte. Um pouco mais agitado, no entanto, era um bom garoto, do tipo que faz todas as escolhas certas e sem hesitar. Era seguro de si em tudo e vivia sua vida sem dar muita importância para o que pensariam dele.
Duas pessoas tão diferentes que por acaso haviam nascido num lar desequilibrado... Nate e Daisy eram os únicos pontos de equilíbrio, dentro daquela família azarada, – ao menos aos olhos de Lily – e talvez fosse por isso que ela ainda não tivera coragem de abandoná-los.
- Onde você pensa que vai? – Lily segurou o pulso de sua filha, antes que ela se afastasse.
- Só dar uma volta. Respirar ar puro... – Disse com um pouco de deboche apontando discretamente com a cabeça para um dos primos de Carl que fumava um charuto na cara de todos.
- Não vai aprontar nada.
- Eu nunca apronto.
- Eu só estou reforçando a ideia...
- Pois é, eu também. – Soltou-se do aperto e então deixou a tenda dos Hamilton.
Foi alívio instantâneo, mesmo que não houvesse nada de muito mais interessante. Caminhar por aquele gramado e observar as pessoas, tentando imaginar que tipo de vida cada uma daquelas pessoas levava, parecia muito melhor do que passar qualquer segundo a mais embaixo daquela tenda, morrendo de calor.
A temporada de polo estava apenas começando, então a razão pela qual o clube estava tão lotada era óbvia. Ficou um pouco surpresa com o número de pessoas da idade dela ali. Ela conseguia entender o motivo, contudo. Era um lugar agradável e lindo. Estavam todos esparramados na grama, sobre cobertores e rindo atoa.
Pensou em como poderia passar tranquilamente uma tarde ali, mas não seus amigos. Walt preferia as casas noturnas, onde tinha mais liberdade para estar com seu namorado; Bridget gostava de festas, eventos onde pudesse aparecer bastante; Lauren já preferia programas caseiros; Helen adorava ir a pubs sofisticados beber um bom vinho e escutar musica alternativa. Não era atoa que Helen era sua melhor amiga.
Ela sim saberia desfrutar daquilo com Daisy. Não porque também ficaria deslumbrada com o lugar e fazendo planos para seu futuro TCC – trabalho de conclusão de curso – tendo como base apenas uma fotografia tirada. Helen iria adorar aquilo ali porque ela adorava uma boa caretice... Comida boa; bebida boa; gente rica e bonita. Ela não era mesquinha e realmente não era filha de um Conde – como Carl – mas ainda assim, adorava fingir levar o tipo de vida que aquela gente levava.
- Gosta do que vê? – Surpreendeu-se de alguém estar puxando assunto com ela, e decidida a não perder a chance de ampliar sua pequena lista de afetos, Daisy ergueu o rosto, abrindo a boca para responder, mas nada saiu de sua boca.
Pensou que o mais próximo que chegaria de um Príncipe um dia, seria o que acontecera dez minutos atrás. O Príncipe Charles entrara na tenda e cumprimentara o homem que sua mãe queria fervorosamente como futuro marido, mas ao que parecia, o destino estava gostando de tirar uma com sua cara.
Ao lado dela, alto, forte, um sorriso arrebatador – e sem dúvidas, divertido, ao perceber que ela estava sem palavras – e com cabelos ruivos, estava o filho do Príncipe Charles. O rapaz que crescera sob holofotes; o caçula; o substituto; o príncipe playboy; aquele em que o traseiro nu havia sido visto pelo mundo todo. Príncipe Harry.
- Gosto bastante. É muito bonito aqui, eu nunca havia ido a um clube de polo antes. – Decidiu ser honesta e não bancar a boba, embora, envergonhadamente, tivesse que admitir estar meio abobada pelas circunstâncias.
- Eu não consigo lembrar de um dia da minha vida em que não incluísse esse clube ou mesmo o polo... Cresci nesse lugar, quase. – Comentara o Príncipe amigavelmente. – Ah e a propósito, eu sou Harry, é um prazer.
- Daisy Cooper. – Disse aceitando a mão que ele oferecera e se perguntando se deveria fazer uma mesura.
- Eu sabia que nunca havia lhe visto aqui. – Disse ele. – Você veio com seus pais?
- Ah não... A família do namorado da minha mãe. Eles queriam nos conhecer melhor e então nos convidaram. Os Hamilton...
- Ah sim, claro! Os Hamilton! Carl é bastante amigo do meu pai. Você o conhece? Carl Hamilton?
- É o cara doido o bastante que está cogitando se casar com minha mãe.
Lá estava. Uma risada controlada, mas sincera, que parecia muito mais elegante do que a de Walt ou a de seu irmão. Apesar do título, apesar de uma postura impecável e do vocábulo perfeito, o Príncipe Harry não parecia um esnobe, playboy, como a mídia adorava aponta-lo. Ele parecia um jovem rapaz comum. Atrás de um monte de diversão e vivendo o tanto que pudesse, claro, porém, ainda assim, comum.
- Tenho certeza que ela não ia gostar de escutar você falando essas coisas.
- Eu também tenho. É por isso que insisto em falar.
- Ah, os prazeres da vida... Provocar os pais. Bons tempos, os que eu tive. Eu punha meu pai louco na minha adolescência. – Harry contou, enquanto cruzou os braços sobre o peito. – Era sempre uma zoeira diferente.
Podia imaginar que sim. Maconha; fantasia de nazista; dançarinas; casas noturnas. Não conseguia encontrar nada de errado em nenhuma daquelas coisas, porque eram fases normais de um jovem passar, no entanto, Harry era um príncipe. É claro que a coisa era um pouco mais diferente quando se tratava dele.
- Aceita?
Harry estava acendendo a um cigarro, discretamente. Daisy percebeu então que provavelmente havia atingido uma linha invisível de espaço. Ele estava ali antes dela, obviamente, com objetivo de fumar. Não era atoa que estavam um pouco mais distante, perto das poucas árvores que haviam no clube.
- Eu já saí dessa fase. Eu já larguei o ensino médio. – Disse divertida.
- Oh... Está na faculdade? – De repente, ele parecia interessado. Com o cenho franzido e o cigarro nos lábios, tragando lentamente.
- Não. Um ano de descanso...
- É, eu usei essa desculpa também. – Harry riu. – Meu gap year foi o mais longo da minha família.
- Bah, não. – Acompanhou-o e revirou os olhos. – É só que tem um bocado de coisas que eu gostaria de fazer no momento. A faculdade pode esperar.
- A faculdade sempre pode esperar. De qualquer forma, o que você vai fazer esse ano?
- Eu estou com uma viagem marcada para a Índia. Vamos visitar algumas cidades. É um trabalho voluntário, sabe? É basicamente atendimento básico, e meus colegas e eu estaremos lá para ajudar a dar vacinas, servir sopões e distribuir vitaminas. Vamos visitar e estaremos hospedados em orfanatos desses determinados lugares. Não é muito tempo. É por duas semanas, apenas, mas eu acho que já é alguma coisa. – Disse um pouco constrangida por já ter, claramente, falado demais. – Eu estou ansiosa por essa viagem.
- Eu também estaria! Sabe,eu tenho, junto com um amigo, uma instituição de caridade, a Sentebale, fica no Lesotho, eu não sei se você conhece ou já ouviu falar...
- Sim, é claro que sim! – Acenou com firmeza. – Vem crescendo muito não é mesmo?
- Felizmente. – Harry parecia até um pouco aliviado, e surpreendentemente, o cigarro estava esquecido entre seus dois dedos. – Tem sido puxado, mas completamente recompensador. É o trabalho mais recompensador que eu poderia querer. Você tem feito isso há quanto tempo?
- Esse é o segundo ano consecutivo que estou indo. Já visitou a Índia? – Decidiu perguntar.
- Não, mas escutei muita coisa boa, apesar de tudo... – Daisy sabia bem o que ele queria dizer com tudo. Ele realmente queria dizer tudo.
Porque apesar de ser século XXI, havia vários lugares que pareciam ainda serem congelados no tempo. Há um ano atrás, Daisy havia feito a mesma viagem e nos doze dias de serviço, pegou-se surpresa ao descobrir que aprendera e visto muito mais do que em, talvez, um ano de vida. Havia aprendido sobre a cultura; sobre os costumes. Havia visto paisagens deslumbrantes que por pouco não foram ofuscadas diante de tantas perdas e devastações. Ficou satisfeita ao ver com seus próprios olhos que nem todas as mulheres orientais – apesar do que a mídia diz e do que muitas vezes você é ensinado no colégio – são submissas e vivem para agradar ao marido. Maior parte das que havia conhecido, já estavam com casamento – arranjado – marcado, nas partes rurais da Índia. Havia uma clara linha também dividindo o pobre do rico, mas aquilo, era esperado por Daisy porque era assim em qualquer lugar.
- Sim, apesar de tudo, há realmente muita coisa boa. – Concordou com ele.
Houve então um momento de silêncio. Um momento de silêncio no qual, Harry permanecera fumando e Daisy contemplando a visão que aquela área mais afastada fornecia. Nada muito formidável. O que chamava atenção no clube era o céu límpido de verão e a grama bem cuidada, mas dali, ela só conseguia ver um monte de carros, pessoas fumando escondidas e também, o Príncipe.
Se perguntou se talvez ele não estava incomodado com sua presença ali. Apesar de que ele claramente não precisava ter puxado assunto e muito facilmente, poderia ter pedido licença e ido para outro lugar, Daisy não pôde deixar de ficar inquieta. Não gostava que ultrapassassem seus limites, por isso não ultrapassava os de ninguém. Estava pronta para pedir licença e voltar para a tenda – ou procurar algum lugar longe da interação humana – quando Harry novamente quebrou o silêncio entre eles.
- Quantos anos você tem?
- 19. – Saiu automático.
- Você é bastante jovem... No entanto, parece saber o que quer. Parece saber das coisas. – Comentara. – É cabeça formada.
Corou. Não era a primeira vez que diziam aquilo a ela e apesar de estar plenamente consciente, não era como se aquilo não tivesse efeito sobre Daisy.
- Ah obrigada. Eu faço o que posso.
- Modéstia para quê, não é mesmo? – Provocou o Príncipe.
Ela riu, mas decidiu não estender. Decidiu, então, devolver a pergunta feita anteriormente.
- E você? Quantos anos, tem? Se é que posso perguntar...
- Você poderia jogar no Google. – Harry disse com cinismo. – Mas eu tenho 28 anos.
- Sabe... Estou parando pra pensar aqui, agora... – Franziu o cenho. – Eu nunca joguei seu nome no Google. Da sua antepassada sim, mas não o seu. Ou o do seu irmão.
- Isso faz de você uma em um milhão. É sério mesmo isso? – Harry franzira o cenho, curioso.
- Acho que sim. – Até ela, estava curiosa agora. – Eu sei que fiz um trabalho sobre a Rainha Victoria e também sobre sua avó, na época do Jubileu... No entanto, eu nunca ‘googlei’ você ou seu irmão.
- Mesmo com todo o lance de... – Ele riu e ficou de repente, sem graça. – Vegas?
- Oh não, não. Eu recebo o jornal em casa. Já estava de bom tamanho ter o vislumbre de seu Traseiro Real, por lá.
Ou ele era de riso fácil; ou era agradável para fingir que ela era engraçada; ou ela realmente era uma boba da corte. Harry estava rindo um bocado e aquela não era a primeira vez, no entanto, sua mão estava sobre seu ombro e ele estava se curvando de rir. Talvez de seu atrevimento. Talvez das circunstâncias. Quem sabia, afinal?
- É eu suponho que sim. Você viu no The Sun?
- Sim. Você sabe... Um monte de mulheres ficaram realmente invejadas.
- Das garotas que estavam comigo? – Harry gabou-se.
- Ugh, não. Do seu traseiro mesmo. As europeias não são conhecidas por suas curvas acentuadas, e traseiro empinado.
Novamente risadas, mas dessa vez muito mais contidas e comportadas. Apagando o cigarro, Harry então alongou a coluna, balançando a cabeça negativamente enquanto tentava se conter.
- Você é engraçada... – Comentou.
- É, me falaram isso antes.
Pegou-se fazendo uma coisa inimaginável. Estava... Admirando Príncipe Harry. O Príncipe Playboy. Estava dando uma bela analisada naquele homem beirando aos 1,9, mas que diferente da maioria de caras, muito altos como ele bem era, Harry tinha um corpo bem trabalhado. Músculos nos lugares certos. Ela conseguia ver pela camisa, ombros, braços e costas muito bem trabalhadas. A barriga não era cheia de gominhos, mas era firme e haviam pelos ruivos que começavam no umbigo e então sumiam no cós da calça. E a calça... Ah a calça que torneava aquelas pernas fortes e acentuavam bem demais um músculo da coxa. Deus... Aquilo sim era um homem de verdade.
- Eu espero te ver de novo, Daisy...
Perto demais. Ultrapassando toda e qualquer barreira que ela impunha de princípio, Harry havia se aproximado dela, sorrido e então arqueado as sobrancelhas convencido e significativamente. Emanando um cheiro de tabaco que ela ainda não estava completamente certa se era bom ou ruim; os olhos azul safira reluzindo uma malícia tentadora e um singelo encontrar de ombros quando ele passara por ela, indo direto para onde um grupo de sete homens – com ele, fecharia oito – acompanhados de cavalos de polo, estavam esperando.













