"certos amores nunca morrem"
foi o que ela disse, sem saber que hoje estaria enterrando o nosso.

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"certos amores nunca morrem"
foi o que ela disse, sem saber que hoje estaria enterrando o nosso.
“but the heart wants what it wants”
Escuto essa música, e penso em nós. Estou em um processo, só não queria admitir isso pra você, talvez nem pra mim mesma. Não gosto de admitir as coisas. Mas admito agora que agi como idiota, agi como alguém sem coração e quis te ver no chão, pedindo por socorro, da mesma forma que eu me vi quando você virou as costas. Mas você também precisava de ajuda, e por eu nunca estar numa situação daquelas antes, não consegui te ajudar, não consegui me ajudar. Eu ferrei com tudo, com você, comigo, com a gente e com tudo que nós tínhamos planejado. Agora não sobrou nada de nós, nem mesmo uma história. Nem mesmo aquele sorriso no fim da frase que eu costumava esboçar ao dizer seu nome. Não consigo mais sorrir ao pensar em você, não em meus estados de sobriedade, pelo menos. Mas você ainda está aqui, mesmo que eu tente mudar isso indo atrás de outras pessoas, mesmo que eu goste de outra pessoa, mesmo que eu me obrigue a ficar com outras pessoas só para que esse gosto amargo saia dos meus lábios; esse gosto que quase chega a ser doce até eu me lembrar que tudo entre nós virou cinza. Eu me pergunto até hoje como foi que deixamos chegar a esse ponto; a um ponto em que não podemos sequer cruzar nossos olhares nas raras vezes em que temos a infelicidade de nos cruzar, porque quando te vejo, tudo que sinto é raiva... e a raiva significa que ainda há algo vivo aqui. Talvez seja esse amor doído que me faça ter tanta raiva, essa sensação de que tínhamos a vida inteira juntas pela frente, essa maldita sensação de que nossos sonhos e planos estão sendo jogados no lixo e de que tudo foi em vão porque nós nos perdemos em algum lugar dessa história bonita que construímos. Ouço essa música várias e várias vezes simplesmente porque não suporto mais ouvir nossas músicas e sentir saudade, essa saudade incômoda que aparece sempre que estou sozinha, ou sempre que me sinto sozinha, mesmo em meio a várias pessoas. Eu te devolvi nossa foto, nossas lembranças físicas, mas você ainda tá aqui, no meu quarto, em cada canto dessa casa, em cada centímetro dessa cama, em cada cigarro que eu fumo madrugada afora. Você está nos meus sonhos mais perturbadores, nos textos que não consigo finalizar, às vezes você está presente em todas as minhas horas de insônia e nas vezes em que reviro na cama e lembro de você ali... e aí eu quase consigo sentir seu cheiro novamente alastrando por todo meu corpo; quase consigo sentir seu toque: sempre tão sutil, como se eu fosse um cristal prestes a se quebrar. Eu me quebrei, e não é sua culpa. Me quebrei e não consegui ver como eu te deixei quebrada também. Fui egoísta pela primeira vez na minha vida e quis pensar em mim, e não era hora para isso. Era hora de olhar pra você com mais carinho, era hora de te pegar no colo e olhar pelo teu sono, como você fez diversas vezes por mim e eu não pude retribuir. E agora eu sigo, apenas desejando que você um dia não olhe para mim com tanta raiva, nojo, rancor... o que quer que seja esse olhar que você me dirige hoje em dia. Eu espero apenas que as coisas melhorem, tanto pra você quanto pra mim, e que os dias passem tão imperceptíveis para mim como tem sido, como se minha vida estivesse no modo automático porque se eu recobrar minha consciência sobre tudo, talvez eu surte e vá parar na sua casa no meio da madrugada; e tudo que eu não quero é me arrastar atrás de um amor falido como se tornou o nosso. Eu apenas espero a dor passar e o momento de reconstrução chegar, para você e para mim. Eu espero que minha cabeça entre no lugar, e que a sua cabeça esteja focada nas coisas que você gosta e que não te façam mal, como eu fiz. Eu espero ser feliz de novo um dia, como eu era com você e que você seja ainda mais feliz do que era comigo, mesmo que isso vá doer em mim em algum momento. Eu espero que um dia ver você não signifique mais nada para mim e que nós possamos fingir que foi só um sonho: um sonho bom. Eu espero que você encontre alguém que volte atrás por você, alguém que fique e entrelace os dedos nos seus e que fique, alguém que saiba ficar como eu nunca soube. Eu espero que um dia a lembrança sua não tenha tanto gosto de esquecimento. Eu espero que esse sentimento não me rasgue por inteiro enquanto tento sobreviver a ele.
só Deus sabe a sorte que eu tive em ler suas palavras e em conseguir respirar após alguns dias em completa apneia. ontem eu li suas cartas antigas, e foi como se alguém soprasse ar para dentro dos meus alvéolos colabados; lembrei de como aquele amor era grande demais para caber dentro dos nossos esforços em superar toda a nossa vida de mágoas e traumas e, no entanto, ele resistiu. não posso falar por você, mas digo por mim. eu te disse que colocaria o mundo abaixo antes de desistir de nós, e eu tenho feito isso. o que você talvez não tenha entendido é que agora eu passei a não desistir de mim também. eu queria que andar pela cidade me trouxesse uma sensação de vazio, queria sentir um grande e sólido nada, mas sabe como é, eu gosto de enxergar além. enxerguei você no banco da praça da liberdade, enxerguei voce na musica do cage the elephant que tocou em um bar em que estive. enxerguei você enquanto passava pela sua rua a caminho da praça do papa. enxergo você até mesmo nas decorações de natal que eu sei que você odeia. o pior é que eu não consigo disfarçar, e nem tento. eu gosto de sentir tudo com a devida intensidade, e ainda não estou pronta para sair desse luto, talvez porque quando eu sair eu comece a ter noção da real proporção que as coisas tomaram, e aí eu teria que fazer algo em relação a isso tudo: eu teria que te esquecer. eu tenho muito de você em mim, Katharina, mas cada vez que voce surge na minha cabeça é quase como se eu pudesse sentir os abalos sísmicos de Tóquio; é, como diz drummond, como a fé nos desesperados. eu me recuso a acreditar que tudo que aconteceu foi uma prova de que devemos nos afastar e desistir dessa história; meu lado clichê me faz pensar que as coisas acontecem por um motivo, e eu tô aprendendo que não preciso buscar uma explicação para nada mais. eu não preciso de desculpas e retratações, não é isso que eu procuro. eu sou movida pelo sentir, pelo querer, pelo amar. e tenho amado muito, puts! como eu amo tudo que me cerca, dos gases dissolvidos no céu aos grãos de terra sob meus pés. e eu te amo, de uma forma avassaladora, porque voce é o meu furacão. e eu me enganava quando pensava que queria um amor tranquilo, brisa fraca não faz nem cócegas. eu quero algo que me consuma e que me force a me encher novamente; eu quero algo que me tire do chão e me faça desacreditar desse meu medo de altura; eu quero algo que jogue todas as minhas certezas da janela do quinto andar; eu quero algo que faça meus neurônios se eletrizarem, meus pêlos se arrepiarem, meu corpo tremer, meus sentidos se confundirem. eu quero exatamente tudo o que só você pode me dar. e é por isso que, enquanto sigo minha vida e reencontro a Jamille que se perdeu, no que há de mais íntimo em mim, eu não posso nem vou deixar de te esperar. eu não desisto de mim, de você, de Clarice. eu não desisto do nosso amor.
mesmo quando meus olhos estão tristes demais pra um dia de sol, te vejo e me pego sorrindo, e você se afasta sem saber que toda sua luz bateu bem fundo no meu peito. não tive mais como perguntar sobre o seu dia, não pude ver qual o pijama da vez e não descobri se você ainda usa meias para andar pela casa. não revisitei nossas memórias, não quis entrar lá sem você. não ouvi nossas músicas, não reli nossos textos, não olhei nossas fotos. não te procurei em outros corpos, não te desenhei em outras camas, não senti seu cheiro em outros braços. me afastei, me reti em um mar só meu, mergulhada em culpa, ausência e saudade. aprendi a nadar sem você e hoje sou melhor do que você jamais poderia imaginar. não me afogo mais, aprendi a respirar com calma, aprendi mergulhar sem medo. não grito por socorro, não espero salvação - fico perto da areia, e ali espero até que a próxima onda atinja a base do meu corpo, levando a cada segundo que passa uma parte de mim que ainda te ama. não espero mais você, não espero mais nada de nós. e assim sigo, me jogando e naufragando novamente, até que a água me dilua por inteiro e não sobre mais nenhuma célula do meu corpo que ainda saiba gritar teu nome.
Psicalgia
the parking lights
as vezes eu queria que as coisas tivessem tomado outro rumo, queria que o que restou dessa historia não tivesse ainda um gostinho amargo, queria que correr pros seus braços no fim de um dia cansativo ainda fosse parte da minha rotina.
queria poder te olhar nos olhos, de perto, sem medo, do jeito que costumava fazer, no lugar onde costumávamos nos esconder, atrás das luzes dos carros; ali onde só cabia eu, você e aquele sentimento sem nome que começava a ficar apertado demais para suportar se manter em silêncio.
queria uma história mais branda, um clímax mais leve, um final mais feliz.
queria te sentir nos meus braços, queria lembrar o gosto dos seus lábios, queria percorrer de novo com as mãos as curvas do seu quadril.
queria um dia, um unico dia em que eu pudesse te viver de novo e respirar teu ar, respirar você enquanto meus pulmões não se afogam em tanta saudade nossa.
eu gostei de estar gostando, mesmo sem poder gostar.
eu gostava das curvas que fazia em torno do seu corpo, tentando fugir de mim pra me fundir a você
desejo que você não se sinta tão só,
como eu me sinto.
Eu olhei o mar pela primeira vez e parecia lindo, profundo, arrebatador. No começo ele era, as primeiras ondas tocaram minha pele ressecada e cansada e eu senti certo alívio. Um alívio sem explicação mas que eu não queria perder. Por ser tão bom, eu queria mais e fui em direção áquele turbilhão de água pra saber o que mais me reservava. Mergulhei e era escuro lá embaixo, mas a sensação de estar sendo invadida por todos meus poros era incrível. Por várias vezes durante o tempo em que estive nele, me senti sufocada e precisei subir a tona, respirar um ar. Até o momento em que o sal começou a me ferir, e minha boca se tornou amarga. A água começava a me puxar pro fundo, e eu sentia um desespero - a pior espécie de desespero que se pode imaginar. Mas eu insistia naquela felicidade clandestina, porque era obscuro e instigante, e isso era tudo que trazia um pouco de vida pra minha vida. Depois disso, não pude mais respirar. Veio uma onda que bateu direto no meu rosto, meus olhos não conseguiam mais se abrir; fui arrastada pro fundo. Minha dança com as ondas findou. Quando me dei conta de mim novamente, acordei na areia. Os pés secos. A pele ardendo. Um zumbido no ouvido. O mar tinha sumido e eu já não tinha tanta certeza se ele realmente existiu. Fui embora pra casa, não sei como. Deitei no sofá e só consegui pensar "ninguém entende o mar". Eu queria entender, mas acho que não devo nem consigo mais. Deixei de lado a água, e voltei pro fogo do meu cigarro aceso. Foi o que me restou dessa aventura que só aconteceu na minha cabeça.