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músicas que gritam minha adolescência
Que uma chuva de chamas
Eu odeio todos eles, odeio todos eles. São todos uns lixos inferiores, umas porcarias e mesmo assim sou obrigado a conviver com eles, amá-los de um jeito que só pode ser a revelia de mim mesmo. Meu sonho é que uma chuva de fogo recaia sobre o mundo, que todos morram. Eles não merecem nada de mim, devem todos morrer. Eu sempre fui melhor que eles, sempre fui capaz de ver a estupidez do que faziam. Mas eu tinha uma fraqueza, eu era uma criança num mundo em que eu nada podia fazer, em que me rebelar ou fugir significaria morrer. Em que eu caminharia sem rumo e ninguém viria atrás de mim, eu morreria de fome, de doença, ou seria morto e abusado por alguém. Eu precisava deles, mesmo os odiando, mesmo querendo todos eles mortos. Meso tendo nojo de todos eles. Foi essa a máscara que eu vesti, a da criança perfeita e afetuosa, capaz de dar tudo o que eles precisavam sem reclamar. Eu não fui bom nisso de cara, não, nem um pouco. Eu ainda sentia dor, sentia desconforto, eu não era forte o suficiente para fazer o que era necessário para sobreviver.
Foi assim que eu escolhi o melhor caminho, o que parecia trazer as melhores chances. Escolhi a irmã que parecia mais capaz, mais organizada e estável. A irmã que fazia tudo certo aos olhos da sociedade porque assim poderia aprender com ela, deixar que ela me introduzisse nesse mundo pretensamente seguro. Obviamente eu tomei a decisão errada. Mais uma vez a falta de experiência me comprometeu. Apostei todas as minhas fichas no lugar errado.
Felizmente há uma coisa nessa mundo chamada amor, ela faz com que pessoas verdadeiramente boas se sacrifiquem pelas outras. É claro que esse sacrifício sempre é proporcional ao tamanho do amor e dado o meu erro anterior não havia muito. Felizmente, o ato do meu nascimento foi suficiente para me dar margem de erro. Foi possível mudar de trajetória -- ainda que não desejasse me desvincular da aposta anterior -- e garantir bom sucesso, mesmo que tenha requerido algum sacrifício. Havia sempre um sensação ruim de morte, uma criatura nojenta e fedida, rastejando no canto da sala, tornando impossível esquecer do pecado original que cometi. Eu nasci uma abominação, um demônio, criatura cruel e virulenta, num mundo em que isso não seria tolerado. Em outro talvez, ou entra época, teriam me considerado forte e implacável, mas nesse, era apenas maligno. Deram-me a luz como a um anjo, despercebendo a criatura que se escondia na sombra no canto da sala limpa e branca da maternidade.
Me lembro do dia em que dei um tapa no rosto da minha mãe. Ela me aborreceu e me batia quando lhe era conveniente, portanto achei que fosse justo. Mas não, esse mundo não tolera que você se defenda se você for mais fraco. As coisas serão jogadas sobre você e não há o que fazer, enquanto você for fraco e dependente não há o que fazer. Em outra ocasião fui levado ao dentista porque tinha cáries que precisavam ser retiradas. Eu tive muito medo e sentia muita dor, aquele anestésico não tinha poder sobre mim, mas isso não impediu que continuassem em meio às minhas lágrimas e ao meu choro estridente. Os meus gritos atiçavam aquela odontopediatra.
Você poderia dizer que era necessário realizar aquele procedimento e daquele ponto em diante de fato era, mas e o que veio antes? A alimentação inadequada, o acesso à remédios doces como balas que ficavam ao meu alcance, o pequeno interesse em me ensinar a usar a escova dental. Onde foi que de fato eu que falhei? Quem me protegeu quando eu precisei, quando meu conhecimento era insuficiente? Mas sempre arquei com as consequências.
Podia escolher um presente de aniversário da minha irmã do meio que resolvera sua vida longe de nós, mas não tínhamos camas em casa, dormíamos no chão, eu e minha mãe, sobre cobertores, coube a mim pedir um cobertor novo de presente. E meu pedido foi atendido. Como é bom ser abençoado com as migalhas dos outros quando se tem fome. É realmente uma benção herdar os farrapos de outras pessoas e quando eles faltam ter que comprar as roupas mais feias e baratas. É realmente uma benção se odiar e odiar a própria aparência a cada segundo, se envergonhar de tudo sobre você, inclusive da incoerência que é ser deixado para trás por quem se devota tanto.
Eu me rebaixei tanto para nada. Eu destroí tanto do que tinha em mim para nada. No final, tudo falhou. Que grande benção, que grande alegria, ó como eu sorri, como eu escutei atentamente os problemas mais estúpidos, as menores picuínhas, burrice, estupidez, fraqueza. Como eu sorri mesmo que estivesse sentindo nojo. Como em minha mente estrangulei, cortei, arranquei os olhos com as minhas próprias mãos daqueles à quem escutava com a maior compaixão. Sim, por favor, se derrame sobre mim, mostre que confia em mim, mostre que ama como eu te faço sentir, derrame toda a sua redundância e pequenez sobre mim. Eu me delicio como uma nuvem de moscas sobre o estrume.
Eu odeio vocês, odeio todos vocês, eu venho odiando todos vocês por cada um dos dias de minha vida. Tanto e tanto ódio que várias vezes contemplei atraveesar uma faca pelo meu peito, mas o instinto de sobrevivência é a coisa mais poderosa que existe. Essa curiosidade doentia pelo amanhã, essa esperança de que as coisas sejam diferentes, quando todo o mundo é igual, quando todas as pessoas são pintadas com os mesmos tons de marrom e vermelho.
Não há nada que se salve, sua mente, sua dignidade. Em nome da sua saúde vão manipular seus orgãos sexuais e contar histórias terríveis, para no final te submeterem a cirúrgia e ai de você ser um mal-agradecido e reclamar, mais que dor física, o desdém e a humilhação vão te destruir. Mais tarde essa mesma humilhação vai vir de outras pessoas, adultos e crianças, elas se tornam tão ruins quanto as pessoas que as criam. Daí, toda a maldade e crueldade que eram tão abomináveis se tornam mais e mais comuns, basta saber o lugar e a hora certa quando se tem poder suficiente para ferir e se safar. Os mais bem-sucedidos nesse mundo são mestres nisso.
Agora me diga, um mundo desses não merece que uma chuva de chamas o incinere?
A história gira em torno do romance entre um típico jovem otaku e uma linda mulher.
Yamada Tsuyoshi, personagem central da história, é um típico otaku fissurado em animes e frequentador assíduo do famoso bairro Akihabara. Em um certo dia, Yamada salva uma bela mulher, Aoyama Saori, do assédio de um bêbado. Sua atitude de coragem causa espanto em todos, que pareciam indiferentes à situação.
Como forma de agradecimento, Saori manda-lhe um conjunto de xícaras da renomada marca Hermes. Inexperiente no campo amoroso, Yamada pede conselhos em fóruns de internet sobre como tentar conquistar Saori.