Quando me descobri negra - CRÍTICA
Em um país em que o presidente afirma que “racismo no Brasil é coisa rara”, um livro como Quando me descobri negra é extremamente necessário para apresentar a realidade de nossa sociedade que, mesmo tão miscigenada, é racista. A leitura é leve, porém aplica um peso na alma do leitor. Principalmente se este for, como eu, branco. De uma maneira poética e sentimental, o racismo é mostrado nos pequenos gestos, falas e exclusões que acontecem diariamente. Apesar de curtos, os relatos que compõem o livro Quando me descobri negra são tão densos e emocionantes que é possível fazer uma grande análise e crítica de cada um individualmente. Mas, como este blog é voltado ao tema infância, selecionei aqueles que se encaixavam nessa categoria para, a partir das escritas de Bianca Santana, refletirmos sobre alguns dos problemas que crianças negras passam na sociedade contemporânea.
Um assunto abordado mais de uma vez na obra e que é a temática do título do livro é a questão de crianças negras não se enxergarem como negras. No primeiro relato, intitulado de “Quando me descobri negra’, a autora afirma que demorou vinte anos para se entender como negra, mostrando que os termos “moreno” e “morena” são constantemente usados para classificar as pessoas negras de pele clara, que são comuns no Brasil devido à miscigenação. O uso desse termo acontece porque no nosso vocabulário, que é racista, as palavras “negro” e “negra” são associadas a coisas negativas. Assim, não é afirmado que uma criança é negra porque é, erroneamente, considerado uma ofensa, então ela é definida como “morena”. Porém, é de extrema importância que as pessoas negras saibam, desde a infância, sua identidade e sua origem. “Fui branqueada em casa, na escola, no cursinho e na faculdade. É como disse Francisco Weffort: o branqueamento apaga as glórias dos negros, a memória dos líderes que poderiam sugerir caminhos diferentes daquele da humilhação cotidiana, especialmente para os pobres.”, diz Bianca Silva ainda no primeiro relato de seu livro.
A importância de se entender como negra e orgulhar-se disso é mostrada ainda mais claramente no relato “Eu sou morena”, em que a autora conta a história de Lili, de cinco anos, a única negra dos quatro irmãos. A garota, mesmo com tão pouca idade, já percebeu que ser negro é visto como algo ruim e, por não ter encontrado sua identidade, devido às questões já ditas antes, ela mesma se branqueia, se afirmando como “morena” e enraizando o racismo em si. Em “A primeira crônica” é nos apresentado uma menina que não quer ser negra: “Teve uma vez, na terceira série, que a professora elogiou o bronzeado da Vivian quando ela voltou da praia. Sem ninguém perceber, coloquei meu braço perto do dela e comparei: a cor era a mesma. Que alívio! Era isso, então. Eu tomava muito sol.”. A garota discorre sobre não gostar do próprio cabelo, o classificando como “ruim”, contando que os meninos a chamavam de vassoura e afirmando que enquanto ela não tiver cabelo liso jamais será bonita. A meu ver, essa necessidade que meninas negras sentem de terem cabelo liso e de se parecerem o máximo possível com suas amigas brancas vem da falta de representatividade negra na mídia. Enquanto as crianças negras olharem para os modelos, personagens, apresentadores e celebridades e só encontrarem a beleza branca, a Nati da crônica “Desculpa, Nati” achará que faz “uma falta danada ter um cabelo que crescesse pra baixo, não pra cima”. Esta crônica ainda mostra que o racismo é inserido rapidamente nas crianças, quando Nati mostra que quer ter cabelo liso para poder ter amigos.
O relato intitulado “Alemão” é um dos mais pesados de todo o livro. Fala de Eduardo, um garoto negro de dez anos que vive em uma periferia. O texto abre caminho para refletirmos sobre a constante violência em que crianças periféricas (em sua extrema maioria, negras) estão expostas. O fim do relato (“Começava a se concentrar na pergunta que copiou da lousa quando viu o coturno do policial. Levantou a cabeça. A mãe ouviu o disparo.”) me lembrou da fala de Taís Araújo em seu TED de 2017, em que ela afirma que seu filho, negro, tem que evitar sair na rua de chinelo, sem camisa e mal vestido mesmo tendo apenas seis anos. O homem negro já é visto como infrator pela sociedade e pelos policiais desde sua infância. Mesmo quando ele só está, como Eduardo, fazendo a lição de casa.
Quando me descobri negra traz empatia, representatividade e realidade. É importante ser lido por pessoas negras, principalmente mulheres, porque levará identificação e a sensação de que não se está sozinho. E, ao branco, a leitura é obrigatória, pois faz com que a causa racial seja entendida, mostrando que o racismo não é só agredir fisicamente um negro, e leva à reflexão: Será que cometo atitudes racistas no meu dia a dia? Ao fim, a autora pede para esse leitor branco: Se já foi racista com uma preta ou um preto, tente não repetir.














