Meu pai me escutava com a atenção de quem precisava recuperar algo perdido. Ouvia e acompanhava cada palavra, movimentando a boca de acordo com o que eu falava, mantendo o mesmo ritmo, como se tivesse que guardar aquele instante na memória, para, então, elaborar uma resposta qualquer. Talvez ele fizesse isso com a intenção de me dizer olha, agora estou aqui.
Depois que eu me mudei pra um quartinho no Centro, eu passei mais tempo dedicando lembranças ao meu pai. Talvez isso acontecesse pela estética daquele cômodo minúsculo, me pressionando para assuntos mais difíceis. O quarto tinha paredes de um azul já gasto pelo tempo e um cartão postal pregado com fita adesiva na parede. Um único cartão postal de uma cidade desconhecida, como um subterfúgio para aquelas paredes azuis que despelavam, que se cansavam cada dia mais, vivas. Meu pai repetindo em minha memória não se esqueça das coisas agora ausentes, é uma dor permanente e necessária.
A gente chega numa idade em que as lembranças te perseguem como um mar traiçoeiro. Era melhor, eu fui feliz, sinto sua falta. É preciso uma certa paranoia para lidar com isso sem se afogar, então, apesar de paredes azuis me acompanharem quase todos os dias, eu tento covardemente anestesiar qualquer indício de falta. Quando nas poucas vezes em que vejo meu pai e presto atenção no modo como ele ainda reage ao nosso diálogo, movimentando a boca e acompanhando minhas palavras, é como se eu dissesse que sinto saudades suas. Depois, aquele silêncio calmo entre duas pessoas que já não tem mais o que dizer, mas que estão confortáveis com isso.
Uma vez ele me explicou que existe um ponto em comum na vida de todo mundo, o momento preciso em que passamos a encarar ou abandonar as perdas que colecionamos até ali. E encarar ou abandonar são fatores que distinguem a universalidade desse momento, você escolhe se aquilo será um espólio ou um tesouro. Mas isso era meu pai falando, um homem que não colecionava fracassos, mas sim um repositório precioso de perdas. Esse é o momento decisivo na vida de alguém, quando você se dá conta de que algumas coisas simplesmente se foram, ele dizia, e não é preciso ler Proust para perceber. Não se esqueça das coisas agora ausentes, não se esqueça.