Poderíamos ter morrido hoje. Distantes como as margens dum rio. E tristes. Bem, triste, ao menos eu. Saí de casa como que já de luto, vestida para olhar nos olhos da morte. De outra porta saístes também. Ora! Não é assim tão improvável, nós sabemos. Poderíamos ter morrido num cruzamento, de acidente ou de assalto. Morrer podem todos, absolutamente todos os que nasceram. Ao menos as crianças estariam a salvo. Mas nós, por que é que não havíamos de morrer no meio de uma segunda feira comum, atrapalhando o tráfego, feito naquela música do Chico. Mas sem nos amarmos, daquela vez, como se fosse a última. A polícia, os bombeiros, as famílias. Quem daria conta de que as margens já haviam se encontrado?
Ana Favorin












