Querida eu de 15 anos
A gente conseguiu os tão sonhados 50 quilos, é perfeito, leve, lindo... por um bom tempo. Depois a gente surtou, teve crises e comeu o mundo todo. Agora a gente tem 65, sinto muito por decepcionar você de novo.
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Querida eu de 15 anos
A gente conseguiu os tão sonhados 50 quilos, é perfeito, leve, lindo... por um bom tempo. Depois a gente surtou, teve crises e comeu o mundo todo. Agora a gente tem 65, sinto muito por decepcionar você de novo.
A verdade é que eu nunca quis viver um conto de fadas. Quando criança não planejei um casamento dos sonhos ou sequer cogitei dedicar anos em busca do grande amor da minha vida. Eu sonhava em ser grande. Queria que meu peito chegasse a doer de tanta felicidade e que eu tivesse tempo na terra o suficiente para ler todos os livros que estavam na minha estante - e todos os outros que eu ainda compraria e que ficariam anos fechados até serem folheados e sentirem meus dedos pela primeira vez. Sempre quis que lembrassem de mim pela minha alma, por conselhos que dei e pelas vezes que eu dediquei de mim mesma pelos outros. Sonhava que as pessoas lembrariam de mim por muitos anos, mesmo depois que eu partisse. Desejei por muito tempo ser um espelho, quando nem eu mesma conseguia me enxergar. Me perdi no meio desse processo. Parei de escrever, inclusive - apesar desse ter sido o principal fator na hora de escolher o que eu cursaria na faculdade. Ainda não quero um conto de fadas e também continuo não desejando uma vida moldada e padronizada pela sociedade. Mas no final do dia eu sempre, s e m p r e, vou estar em busca de momentos que me façam querer rasgar minha pele para acalmar minha alma, e minha mandíbula, que doem de tanta felicidade.
28.10.2023
Não te reconheço mais nos textos que escrevi enquanto estávamos juntos. Não te encontro mais. Não sei se algum dia, eu já soube exatamente quem tu era. Eu estava fingindo não enxergar ou tu que te escondia de mim? Sinceramente não sei a resposta pra essa pergunta até hoje, mesmo já fazendo um ano que não somos mais "nós". Ir embora foi a melhor decisão que eu já tomei na vida, mas ainda assim parte de mim queria que tu tivesse lutado mais por nós quando eu disse que, por mim e pela minha felicidade, eu não poderia mais continuar com o que quer que a gente fosse. Tu sequer tentou. Me perguntei mil vezes se eu estava sentindo sozinha e sinceramente eu não sei até hoje. Parte de mim diz que tu me amava como não foi com nenhuma outra, mas eu nunca consegui ter certeza absoluta disso. Sempre parecia que tua boca dizia uma coisa e que internamente era o oposto. Tu nunca me deu sequer uma segurança e foi esse o principal motivo de eu precisar ir embora. Tu sequer falava, na maior parte do tempo. Quanta coisa que eu precisava e tu me negou. Nunca olhei pra trás por ter ido embora, coloquei uma primeira e segui reto toda vida. Mas tu me machucou pra caralho. Tu me deixou dezenas de marcas que eu demorei muito pra entender. Eu demorei muito pra entender quem eu era, porque eu nem me reconhecia mais. E tu foi uma libertação porque depois de ti eu me conheci de verdade. E eu mudei. Pra melhor. Eu odeio admitir isso, mas eu precisava de ti. Eu precisava de um relacionamento merda disfarçado de bom pra finalmente perceber tudo que eu mereço. E nunca foi tu. Mas eu nunca vou conseguir te falar isso, porque tu nunca entendeu e acho que nunca vai. É bem difícil te odiar, mas eu queria porque facilitaria tudo. Eu não te amo a muito tempo e provavelmente nunca amei, porque eu criei uma versão tua que tu nunca foi comigo, só com os outros. Eu sinto o tempo inteiro que tu levou muito de mim embora. E até hoje eu não achei. E sinceramente, não sei sequer onde procurar.
16.10.2020/2021
Eu não colocava fé nenhuma na gente, mas tu me tirava do sério de um jeito que ninguém nunca conseguiu. Apostei em nós dois no dia em que, sentada no chão da cozinha e no meio de uma crise de ansiedade, tu segurou minha mão. Obrigada por aguentar meus demônios e enfrentar essa tempestade comigo.
Alice
Gostava da confiança que a mão dele segurava a dela, Gostava do brinco na orelha esquerda E amava a tatuagem no antebraço. Era louca pelo modo como a clavícula conseguia se encontrar com o pescoço, Como se fossem um só caminho. E talvez fossem. Falhou em tudo nessa vida. Menos em transbordar amor.
Alice
Um livro é composto de sentimentos, segredos, histórias, saudades, confissões... Tudo que precisamos é entrar em alguma livraria, biblioteca ou Sebo, encontrar algum perdido embaixo da cama ou até mesmo receber de presente. Retangulares, quadrados, eles costumam ter formas diversas, tamanhos variados, páginas "infinitas", cores distintas. Uma capa e um título é tudo que se precisa para atrair a atenção de uma jovem que passa pela vitrine de uma certa Saraiva na Rua dos Andradas no movimentado centrão de Porto Alegre. Livros costumam tirar a pressa que a gente tem, e é isso que este certo livro fez com esta certa jovem. Ela para, observa. Resolve entrar. Vagueia pela livraria até que encontra aquele retângulo cinza escuro com escritas azuis que estava na vitrine. Pega-o em mãos e o folheia. A vida fez ela ser apaixonada por livros e a fez virar especialistas neles. Lê a folha de rosto, dedicatória, sumário, prefácio, agradecimentos e para na introdução. Torna a fechar o livro e observa o que a capa pode significar. O título "O último beijo de Anne" a faz pensar em todos os livros que já teve em mãos, inventando uma história e tentando comparar com aquelas que já devorou por inteiro. Relê a sinopse, a biografia da autora, confere o número de páginas, 457 pra ser exata (ela sempre teve queda por livros que tem muitas páginas, eles pareciam mais completos), lê a última frase do livro, e então vai até o caixa para comprá-lo. Ela nunca se importou com os preços, bem pelo contrário, sempre teve prazer de tirar um pouquinho do seu salário para algo que seus pais consideram decente. Livros costumam ser bem caros. Podem variar de 25 á 60 reais. Aquele, em especial, lançamento do mês, estava sem desconto, 40 reais. Abriu a bolsa, pegou a carteira, pagou e pediu para fazer pacote de presente (sempre gostou da ideia de se dar presentes). Quando saiu da livraria, olhou os dois lados da rua, pensou na última frase do livro e continuou seu caminho. "A pressa Jace, ela costuma ser fatal. Deixar de tê-la não é possível, mas ignorá-la para algo bom é extraordinário.
Morena
Com o tempo percebemos que o amor surge sem querer e por quem menos imaginamos. No começo, não compreendemos. Então, o sufocamos dentro de nós mesmos. Até que, por fim, deixamos de ignorá-lo. E é exatamente nessa hora que ele transparece em tudo que fizemos. Um dia iremos acordar e acharemos que esse amor é ridículo e sem cabimento. Então, novamente, iremos sufocá-lo. Por fim, talvez, entendamos que sufocar um amor é inútil e aprenderemos uma coisa: o amor gosta de ser grande, e não deixa ninguém ser maior que ele. Nem o medo. E vai ser exatamente nessa hora, quando você estiver cansado de lutar por algo que considera sem cabimento, que ele vai te surpreender. O amor não brinca em serviço. Ame sem pedir nada em troca. O amor vai se encarregar disso sem você precisar pedir. E, não se esqueça, ele gosta de surpreender. Viu? Não perca a fé no amor, ele sabe o que faz, mesmo quando achamos que não.
Morena
Porque a gente não é nada sem amor, e quem diz ser, é menos ainda.
Bianca