“Ainda não inventaram camisinha pra alma”
Tem buracos no fundo da alma, mas eles podem esperar para serem tradados depois da balada. Entrar em um cubículo abafado, com cheiro de suor e álcool, onde a música desnorteia seus tímpanos e impede de ouvir qualquer coisa a menos de 10 centímetros de distância do ouvido, a não ser a batida que vibra freneticamente as caixas de som, parece uma pílula de amnésia necessária.
Não dá pra escutar nada… Então chega mais perto, colam-se a boca e ouvido e isso é tentador. É carnal, excitante… Faz esquecer a dor da alma. A boca se descola do ouvindo pra colar na outra boca e as línguas se encontram em um movimento fugaz, acompanhando a dança de corpos grudados que se movem juntos de modo irrefreável. As mãos passeiam por corpos opostos de forma vulgar, o lugar é publico, mas todos estão afogados no efeito-anestesia gerado pelo mar de ações vazias e baixas, assim nada é percebido ou criticado. Entrar por aquela porta significa estar no mesmo barco em naufrágio, significa se tornar naufrago e, da mesma maneira que todos os presentes, procura a sobrevivência em uma ilha fictícia.
A garrafa de cerveja deixa tudo mais despojado… Quanto maior o número de garrafas vazias melhor, significa que todos estão à vontade, todos estão felizes e mais soltos. O pó branco na mesa permite alucinações abstratas e viciantes, mas tão verdadeiramente sujas como a nicotina dos cigarros fumados ao redor. A noite já passou e a madrugada surge, mas isso não indica o fim da festa. Se a noite é uma criança, a madrugada é uma adolescente rebelde e impulsiva.
O efeito da pílula-cubículo-batstaca está passando, mas a recusa de aceitar as feridas é ainda muito grande… Então a festa deve continuar em outro lugar. O corpo de mãos ainda sujas de pó branco e de garganta queimando de álcool assume o volante com direção ao motel mais próximo, onde a festa pode continuar em um outro cubículo, mas antes um racha para elevar a adrenalina. Alguns se perdem no caminho com o carro de cabeça para baixo ou em simulações de bate-bate com vítimas reais. Mas, como disse: alguns. A noite continua para outros e o percurso até o cubículo-acolchoado foi concluído. A braguilha e os botões começam a ser abertos o mais ferozmente possível, a classe e educação não se fazem mais presentes e o champagne é tomado no gargalo. A luz apagada torna tudo mais intenso e a única preocupação é a camisinha, mas isso se resolve em poucos segundos achando tal artefato no bolso da calça. Os corpos nus se encontram sob as cobertas, tudo se intensifica, mas nenhuma palavra é dita diretamente, apenas sons egocêntricos e individuais.
Sem nomes, telefones ou carona a noite acaba e apenas a ressaca fica como lembrança… Mais uma para o memorial do arrependimento, mais uma ferida na alma. A dor do vazio volta com força, cada vez mais intensa e massacrante. Surgem os questionamentos… Mas por que? Por que fazer isso quase toda noite? Por que se entregar assim a tudo? A noite anterior se mostra clara: promiscua, errada, suja, bêbada, falsa, morta… Um placebo contrabandeado, péssima qualidade! O certo agora é cuidar da alma…
O que os livros de auto ajuda diziam mesmo? Aceitar os erros, um passo de cada vez… Curar a alma leva tempo e nunca conta com amnésia… Perdoar não é esquecer. A vontade de mudar as coisas vem intensa e forte, mas se esvai rapidamente quando só se vive de alta intensidade. Quem não trata as feridas do espírito espera, inconscientemente, por uma camisinha para alma. Tão tolos… Descobrirão a cura do câncer, mas nunca serão capas de inventar tal coisa.
A alma é feita de sentimentos e escolhas, completamente humana… Só é curada com o que é feita e sem sofrimento as feridas não se fecham.
A noite caiu novamente, as boates estão abetas mais uma vez… Assim como as feridas da alma.
Virgínia Gomes














