Batom vermelho, pinta bem o olho, vestido justo, tem que ser curto, faz mais chapinha, salto agulha, olha, não olha, analisa o ambiente, não se alastra ainda, copo de cerveja, finge que não viu, banheiro, retoca o batom, vamos mais pro meio, se mostra um pouco mais, deixa ele chegar, não-seja-tão-direta-mas-não-conversa-muito, beijos, vamos lá fora, BINGO! Mais uma noite aproveitada com sucesso. Prazo de validade: uma semana, na mais otimista das deduções. Isso se não voltarem para a pista fingindo que não se conhecem. Pois não se conhecem, mesmo.
Fatal error.
Dizem que solteir@ que aproveita a vida é solteir@ que vai muito pra balada e beija muito na boca. Até aí, tudo bem. Eu só gostaria, de verdade, que esses jogos de desinteresse, esse demonstra-disfarça, esse "eu vim aqui pra achar alguém pra beijar/transar e estou procurando isso em todas as pessoas da festa, mas vamos disfarçar e fingir pessimamente que viemos aqui só para dançar, beber e se divertir", não constituíssem um modelinho de solteir@ que a gente parece que tem a obrigação de seguir. Tudo isso a fim de provar para não sei quem - talvez para outr@s solteir@s - que... Olha só! Estou aproveitando a vida.
Tô vendo. E, que me perdoe a turma dos contatinhos e esqueminhas, que - reza a lenda - se concretizam mais ou menos assim. Mas já tô de saco cheio disso.
Proibido sair de casa de havaiana ou sem batom. Proibido usar aquela blusinha mais velha, de estimação. Cabelo secando ao natural? Cruz credo. E vê se empina essa bunda pra caminhar. Cuidado com esse jeito estabanado de comer. De dançar. De falar. De viver. Solta esse cabelo. Ergue esses peitos pra foto. Tem que ter selfie no insta todo dia. Te maquia toda de manhã, sim. Não dorme no ônibus. Não dorme no ponto. Resumindo: não seja a versão original de você mesma, porque ela não conquista ninguém.
Temos sérios problemas. Eu não sou de plástico, e a vida não é tão pouco.
Eu quero sorrir, conversar, dividir café, chá, bolo, salgadinho de isopor, confidências, silêncios e risadas. Quero registrar momentos em imagens e palavras. Quero contar histórias. Foto retardada, whatsapp de madrugada, casar com personagem de livro, me sujar comendo chocolate. Quero dançar errado e não ver problema. Planos utópicos pro futuro. Tomar sorvete, caminhar, olhar o céu, o sol e a lua. Quero mais do que contato físico. Quero afinidades. Quero falar por horas e horas de sonhos, dúvidas, paranoias, preocupações, livros, filmes, séries, astrologia e receitas do Tasty Demais. Quero as coisas acontecendo naturalmente, sem forçar a barra porque a festa só dura uma madrugada. Quero coisas inesperadas. Risos soltos e esquisitos. Quero poder rir do próprio desastre que eu sou, e alguém que ria dele comigo. Quero abraços. Quero lugares novos. Quero livros de poesia, de sebo, de loja, de romance, de aventura, de fantasia, de ler. Eu quero ler o mundo com as minhas palavras, e alguém que se disponha a entender minha linguagem.
Quero uma vida de verdade. Gente de verdade. Gente que põe pra cima. Que melhora a autoestima. Que anima. Que não abandona ou descarta.
Que eu só gaste tempo com relações que floresçam e embelezem a vida. Que a vida seja mais que noites de sábado no piloto automático.
A vida que eu quero aproveitar é feita de tudo o que é simples e verdadeiro. Acho que é verdade o que dizem que a vida é uma festa. Mas não deve de ser uma festa preenchida pela aura desconfortável do "copo cheio, coração vazio". Festa, sim, daquelas que a gente tira o sapato, dança como acha melhor, ri muito e lava a alma. Daquelas onde a gente pode ser a gente mesmo, e se divertir de verdade.
Afinal, o meu coração é cheio. E a vida não é pouca coisa.