Grupo Escolar Benjamin Constant, tv. Benjamin Constant, d. 1930 / Álbum do Pará (1939)
"Naquela época da Belém sem água encanada, sem asfalto, sem energia elétrica adequada, de retretes e privadas, das lavadeiras, das operárias das fábricas de tabaco como a Tabaqueira, da Democrata, da Souza Cruz, das fábricas de cordas Aliança, da sorveteira Santa Marta, da Grapette, das panificadoras e padarias, da torrefadora de café, da Praça Brasil, do Guaraná Vigor, do Guarasuco, da Renda Priori e do buraco cheiroso, que cercavam o Umarizal, via-se também, pela manhã bem cedo a rua cheia de meninos e meninas fardados com seus pais ou mães, ou avós caminharem como num passeio a escola Benjamin Constant, seja com chuva ou com sol.
Saíam de casa impecavelmente padronizados, como um exército educacional. Camisa branca social, manga curta, bermuda ou calça azul marinho, meias, tênis conga branco ou sapato alpargatas e o orgulho no peito de ser daquela escola.
De casa até o local seguiam na Bernal do Couto, passando pela Vila Paulina até atravessar a Doca e seguir na Manoel Barata, passando pela fábrica de Castanha, pelo Sesc, pela fábrica de perfumes Phebo e a igreja do Círculo Operário para enfim entrarem pela porta lateral do colégio, onde encontravam aquele senhor guerreiro, moreno calvo, de baixa estatura com aquele bigode esquisito e o rosto queimado do sol.
A verdadeira celebridade dos alunos. O sonho de consumo na entrada, saída e recreio. O bombonzeiro que todas as manhãs saía de sua casa para labutar como muitos brasileiros. Tirava de dentro da escola aquele carrinho coberto em plástico azul todo embalado, preso com ligas de câmara de bicicleta e o posicionava na calçada pelo lado de fora do muro, atrás das grandes do portão.
Enquanto as inspetoras enfileiravam os alunos por série no pátio, diante de um altar, onde as bandeiras eram as vedetes, para então começarem a entoar obrigatoriamente os hinos do Brasil, do Pará e da Bandeira.
Big, não se sabe quem começou a chamá-lo assim, armava e ornava a sua barraca como uma tenda com as mais variadas especiarias a fazer inveja hoje aos chineses do importado.
Muito cuidadoso e organizado, ele deixava tudo pronto. E do lado de fora mesmo, com aquele jeitinho inquieto, com seu relógio no pulso, aquela calça simples, aquela camisinha em algodão, ora escura, ora listrada, mas que lhe servia ao dia a dia, se rendia aos hinos e depois se assentava naquele barquinho escorado ao muro de fronte à barbearia e aos ônibus que por ali circulavam.
Logo que acabava a cerimônia da entrada alguns dos meninos e meninas, filhos de políticos e militares, aqueles que tinham rendas, após a cerimônia de entrada corriam e compravam bombons. Ficavam a gritar pela grade:
- Big me dá uma jujuba.
- Me dá aquele Galak…
- Quanto está custando um Prestígio?
- Ei Big, me dá um chiclete Adams.
Ele atendendo um, depois o outro. Até que a inspetora colocava aqueles meninos pra sala de aula. Lá ficava toda a manhã. Além dos alunos atendia a todos que por ali transitavam ou moravam.
O ápice se dava quando a sirene do recreio tocava e a multidão de alunos saía das salas de cima, descendo a velha escada de madeira no estilo colonial, enquanto outros saiam gritando aliviados das salas em baixo. Num tempo de quinze minutos inundavam toda aquela área do pátio, bem extensa e limpa, em barro amarelo da escola. Uns iam lá pela outra entrada a ficar apreciando os dois imensos jambeiros, que jogam no chão as lindas flores rosa no solo enegrecido e úmido, enquanto outros corriam na área aberta do pátio das bandeiras como pássaros livres.
Os menos favorecidos corriam pra sala da merenda e entravam com seus copos ou pratos na imensa fila, que trazia menu variado. De mingau de aveia, de fubá a sucos de maracujá, leite, roscas Cinderela e outras especiarias bem simples, mas que matava a fome. Muitos, após a sua merenda, ou quase no final do recreio, como numa procissão seguiam direto ao Big deixando-o confuso.
- Ei Big, me dá um big big…
- Ei Big, me dá um saco de pipoca…
- Big, por favor, aquele Ploc amarelo…
- Big, aquele índio com chiclete…
- Big, me dá aquela arminha, que atira flexa…
- Big, aquela baladeira ali…
E o Big por trás da grade, sob a desordem do caos de tantos pedidos ao mesmo tempo, havia num desespero de atender, receber e passar troco.
Às vezes ele se zangava e reclamava pra por ordem no lugar. Às vezes ele conversava e dava conselhos pros meninos não gazetarem aula. Às vezes ele era um X9 e passava informações dos alunos maus comportados às inspetoras.
Todavia Big foi uma lenda em vários anos, como a diretora Odete, como muitas merendeiras, como alguns professores e como essa velha escola.
Quem não conhecia o Big?...
(...) Eis aí um momento pra se ter saudades, daquela velha Belém de tantas mangueiras, daqueles alunos orgulhosos e dos vendedores ambulantes das escolas dos bairros"
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Alberto Amoêdo ~ Big… o vendedor de bom bons, da escola Benjamin Constant