Sempre fui um problema. Uma cruz, uma carga nas costas das pessoas. Sempre fui a menina errada da família. Sempre dei trabalho. Dor de cabeça, noites em claro e falta de apetite pra quem convivia comigo. E nem sei se eu merecia — ou mereço — tudo isso. As pessoas sempre me trataram como se eu fosse diferente dos outros, como se eu tivesse problema, ou como se precisasse de um atendimento especial. Eu sou normal, cara! Qual é a parte que as pessoas não entendem? Tudo bem, eu posso tomar umas decisões erradas às vezes, quebrar a cara, fazer umas burradas. Posso me envolver com as pessoas erradas e acabar chorando, desolada, ou posso ser o mal de outro alguém. Mas eu sou uma garota como qualquer outra! Eu tenho sonhos, planos, desejos. Lá no fundo eu também quero um amor de verdade, amigos sinceros e uma família atenciosa. Mas a sociedade me julga por aparência. Talvez, pelas minhas roupas, manias e costumes, ou pelo modo com o qual me porto na frente das pessoas. Mas o que mais preocupa é minha frieza. Nunca fui de ficar sorrindo, correndo pro abraço, dançando e cantarolando, gargalhando, contando piadas. Sempre fui mais quieta, reservada. Sempre gostei de ficar sozinha no momento certo. Aquele silêncio todo que habitava à minha volta, era só exterior. Por dentro, o barulho estava imenso. Costumo calcular meus pensamentos e medir minhas palavras, mas apenas quando estou calma. Não me importo muito com o efeito que minhas atitudes vão causar nos outros, ou o que eles vão pensar. Nunca se importaram comigo, por que vou perder tempo correndo atrás de alguém? Minha infância foi... legal. Normal. Até porque, eu não sabia o que me esperava quando eu crescesse. Mas até que eu era feliz. Ignorando o que me falavam, às vezes somente suportando. Aí eu cresci. E me dei conta de que, definitivamente, minha vida não seria fácil. “Eu ainda vou ter que suportar calada, muito desaforo. Ainda vou chorar escondida por muitas vezes, pra que ninguém veja. Ainda vou ter que sorrir, mesmo desabando por dentro. Preciso de uma boa aparência. Preciso ao menos, parecer forte. Mas não vou me abater, vou lutar, vou correr atrás.” E no final? “Ainda vou calar a boca de todo mundo que me disse que eu não seria capaz”.
Frustrada.
















