Sandra Gamarra e suas paisagens entre aspas.
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Sandra Gamarra e suas paisagens entre aspas.
Ósi: Open Studio
Em diálogo com Thais Stoklos
Quinta-feira, 12 de fevereiro, das 19h às 22h
O Fonte convida para o Open Studio do artista Ósi, marcando o encerramento de sua residência artística no espaço. Durante 30 dias, em um programa de autorresidência artística, Ósi coletou e reuniu no espaço expositivo do FONTE uma série de objetos e materiais que estavam guardados em seu ateliê ou habitando o espaço da residência, com o objetivo de pesquisar as possibilidades expressivas desses itens a partir dos elementos da gramática tridimensional.
Penetrando em devaneios “oiticiquianos”, em diálogos com Thais Stoklos, chassis, madeira, abraçadeiras, plásticos, tecidos, rastros, barro, barras e ferro conectam-se por afinidades imanentes, articulados por conexões temporárias, plásticas e magnéticas, em um exercício de composição e reflexão sobre sua produção escultórica e as alianças estabelecidas com o espaço e o tempo.
___________ A duração das coisas
Por Thais Stoklos
O começo é constante, aparece sempre, sem ser convidado. Não há espanto até encontrar uma forma. O desenho é o resultado do tempo. As formas sugerem os rastros de movimento. Tão íntimo, tão íntimo esse desenho. A intimidade faz saber o que importa. Ele ajusta, provoca, cutuca. Espera o movimento. Pode vir queda. Ele diz. Ele sorri com a ironia do que é queda. Tem campo, então acontece. O que parecia longe, ele aproxima. Mostra os vãos, os barulhos e a elasticidade do fixo. Ele sorri com o barulho do despencar e logo mostra a dobra. Vemos a sombra dessa dobra e articulamos sílabas, até nomear. Recombina as letras, acentua e exclama o nome. Um nome com todas as letras disponíveis. Espera-se um silêncio. Em vão. O barulho é iminente. O nome caótico agora é perfeito. Me fala devagar. Este trava-língua de acontecimentos. Essas camadas óbvias, que insistem em se organizar. Refazendo círculos onde eram trajetos. Essa intimidade dá nome próprio ao ímã. Um nome e sobrenome popular. Ele sorri com a ironia do que é queda.
Ósi, Ocupável, 2026, Madeira, tecido, barro, plástico, metal e componentes magnéticos, 290 x 380 cm
Serviço e Visitação
Abertura (Open Studio): Quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026, das 19h às 22h.
Período de visitação:
Sexta-feira, 13/02: das 14h às 19h
Sábado, 14/02: das 14h às 18h
Local:Fonte Rua Mourato Coelho, 751 – Vila Madalena, São Paulo (Próximo ao Metrô Fradique Coutinho)
Entrada: Gratuita e aberta ao público.
Estão abertas as inscrições para o terceiro ciclo do NÚCA (Núcleo de Compartilhamento Artístico).
O NÚCA é um espaço de troca, análise e desenvolvimento de práticas artísticas. A proposta é oferecer uma perspectiva de diálogo entre artistas de diferentes linguagens e as curadoras.
Os encontros semanais promovem um ambiente de reflexão compartilhada para potencializar a compreensão dos processos criativos e ampliar as possibilidades de desenvolvimento do seu trabalho. Ao fim do programa, será realizada uma exposição coletiva no Fonte.
Encontros:
Presenciais, às terças-feiras, das 15h às 17h30.
Datas:
• 17, 24 e 31 de março
• 7, 14, 21, e 28 de abril
• 5, 12, 19 e 26 de maio
• 2, 9, 16, 23 e 30 de junho
Investimento:
4 parcelas de R$ 620,00 (pix ou boleto).
Para se inscrever, entre em contato pelo WhatsApp disponível no nosso perfil (11) 93344 1976.
#ArteContemporanea #EspacoFonte #ProducaoArtistica #paulaborghi #lolafabres #artesvisuais #NUCA #NUCA_03
Caio Borges | Decoro
curadoria Tálisson Melo
O FONTE apresenta Decoro, exposição individual de Caio Borges, reunindo 22 trabalhos inéditos em pintura e serigrafia.
Na série, Borges desloca o cotidiano familiar para um espaço de estranhamento. Em composições saturadas e urgentes, cenas aparentemente banais se desdobram em construções híbridas, onde memória, afeto e ruído se entrelaçam.
A curadoria de Tálisson Melo destaca o caráter ambíguo dessas figurações, simultaneamente bizarras e ternas, ridículas e afetivas, que tensionam os ritos e gestos da classe média cristã brasileira.
Abertura, sábado, 04/10 das 14h às 19h
Visitação até 01 de novembro
Quinta a sábado das 14h às 19h
Fonte Rua Mourato Coelho, 751 Vila Madalena Metrô Fradique Coutinho São Paulo - SP http://font-e.org [email protected]
DECORO
Ao intitular esta exposição de pinturas e serigrafias do Caio Borges com o termo “decoro”, assumimos, obviamente, que no primeiro plano está o deboche — algo bem camp por sinal, como é tudo o que se faz ver aqui. Há também uma vontade de dialogar com a história da arte, da arquitetura, das imagens e da cultura material por meio de uma camada específica da vida: a decoração. E a entendemos como central nos ideais de adequação ética e estética, algo que se afirma para além de superfície ou invólucro dos ambientes, um receptáculo e display de tensões entre o público e privado, em suas congruências e desajustes.
Mas o que é entendido como decoro muda de maneira relevante ao longo da história. Persistindo, porém, em si, enquanto dispositivo (ideal) de ordenação do todo, visando reger todas as ações, toda a ética de uma comunidade em dado momento — até onde se tem rastros, já era um preceito fundamental desde os helênicos: o prépon, a regularidade vista na natureza e que deveria ser imitada pelos homens em suas ações e produções. Em 1452, às vésperas de um Novo Mundo começar a bagunçar o velho coreto, Leon Battista Alberti lançava seu tratado Sobre a arte de construir, definindo o decoroso: “conciliar a necessidade e comodidade de modo que cada parte esteja distribuída no ponto exato, na ordem, lugar, articulação, posição, configuração que lhe for competente”.
A reforma barroca no meio do caminho e nos fluxos da colonização reformulou tudo isso em prol de sua retórica visual, teatral e comovente que integrava as emoções e o drama na busca por impacto sensorial e afetivo sobre fiéis-espectadores, a serviço do convencimento devocional e político. Esse padrão europeu se impunha sobre o resto do mundo projetado e justificado como grande desconhecido e indecoroso a ser ordenado, como um reflexo da cultura carnavalesca, grotesca — o inverso da retórica clássica, tudo o que ia contra a adequação, conformidade de status, conveniência moral, discrição, contenção do gesto e compostura hierática.
Do altar aos bibelôs, com o declínio da corte e da Igreja como reguladores da docilidade, o decoro passou a ser ditado pela família burguesa e suas instituições — salão, escola, museu, o lar e, principalmente, a própria (imagem da) família, nos retratos, no matrimônio, na maternidade, nas paisagens idílicas, naturezas-mortas, temas edificantes e objetos “inofensivos” da ornamentação de interiores e indumentárias. Do final do século XIX em diante, vemos um desfilar cada vez mais confuso de códigos do decoro convivendo e se interpelando, ainda que mantendo suas estratégias para esconder debaixo dos tapetes tudo aquilo que não se pode controlar, desejar, expressar…
A historiadora Marize Malta, atenta ao papel das artes decorativas, aponta para um outro ecletismo que emerge nas casas burguesas: “O lar transformava-se em vivenda individualizada, local da intimidade. O espaço revestia-se de expressão pessoal, era preenchido com modos de vida que essencializavam as pessoas que nele viviam. O lar, assim, espelhava seus moradores e conhecendo-o, conheciam-se as pessoas; seus objetos seriam perfis e indicadores de um tempo e de uma maneira cultural.” (revista 19&20, 2006)
Adornos, enfeites e bibelôs são veículos de normas, conformações sutis que se naturalizam nos rituais cotidianos do âmbito familiar, docilizando corpos e subjetividades, reproduzindo tabus, eliminando diferenças e sedimentando tantos recalques… Ao ponto que muitos passam a ser fantasmagorias! É nesse ponto que Caio opera, transformando esses elementos da decoração dos lares em personagens que se fundem aos arquétipos da família para perturbar suas coreografias perante a câmera, o olhar de fora e a construção da memória.
O decoro também estabelece seu oposto, o indecoroso, o baixo, o inadequado. Hoje, com décadas de kitsch, pop, punk, porn, funk e camp, a divisão da decretada “alta cultura” parece falida, ou qualquer tentativa de refazê-la vai encontrar escapes significativos para esfregar na cara seu fracasso. Porém, o espaço-tempo da família parece ainda oferecer um contexto peculiar, aquém e além da contemporaneidade, patente nos álbuns de família, onde o decoro e a afetação se emaranham vivamente com as memórias. Partindo exatamente das fotografias de sua família, Caio vem criando imagens na contramão do decoro corriqueiro, sem, no entanto, cair em seu oposto da maneira mais radical e desnuançada.
Suas imagens colocam no centro da cena o ambíguo e híbrido que surge desse contexto onde amor e solidariedade se embaralham com tantos vetores de violência. Nas bricolagens digitais convertidas em enormes pinturas de cores saturadas e pinceladas urgentes, os cenários parecem recuar como pano de fundo no palco, ou recortes de uma apresentação escolar. Os detalhes, a perspectiva e a precisão de escala não importam tanto quanto a cena viva em primeiro plano. É suficiente inferir ou reconhecer os ambientes tão comuns em que tudo se passa, na casa ou em seus anexos: a pracinha, a igreja, a rua, o escritório do patriarca.
Essas cenas, ritos, poses e figurinos estão agora infiltradas por uma nova leva de integrantes da Carreta Furacão versão queer. Arrancando as cabeças de seus pais, de outros parentes, da Nossa Senhora e até dele mesmo, Caio as substitui por partes de bibelôs, bonecas e brinquedos que habitam seu universo de infância — um repertório tão comum e identificável. Bizarras, fofinhas, ridículas, assustadoras, de mau-gosto, indecorosinhas, figuram espetáculos episódicos do cotidiano familiar, entre festas, jantares e passeios, descortinam e projetam ruídos — de choros, berros, soluços e gargalhadas —, sobre as coreografias da classe-média cristã brasileira.
Tálisson Melo
Caio Borges (1974, São Paulo, Brasil. Vive e trabalha em São Paulo)
O trabalho de Borges se concentra no desenho e na pintura para explorar memória, sexualidade e identidade queer. Suas composições de cores saturadas articulam referências da Pop Art e da cultura midiática, abordando criticamente o patriarcado e a discriminação contra a população LGBTQIAPN+.
FONTE Fundado em 2013 o FONTE é uma organização com sede em São Paulo que oferece residências e ateliês temporários para jovens artistas. Oferece uma programação pública e gratuita incluindo exposições, palestras, workshops, performances, projeções de videoarte e estúdios abertos. O espaço já recebeu artistas como Adrián Balseca (Equador), Martin Lanezan (Argentina), Pilar Quinteros (Chile), Sandra Gamarra (Peru), Gabrielle Goliath (África do Sul), os brasileiros Rodrigo Braga e Lyz Parayzo, e realizou parcerias com as instituições Associação Cultural Videobrasil, Paço das Artes, Instituto Tomie Ohtake, entre outras.
Marcelo Amorim
Montagem
Texto crítico Chico Soll
O FONTE inaugura no dia 6 de fevereiro a mostra “Marcelo Amorim | Montagem”, individual do artista Marcelo Amorim apresentando trabalhos em pintura e serigrafia realizados ao longo dos últimos anos. Apresentando pinturas em óleo sobre tela e serigrafias, todas baseadas em matrizes fotográficas, antigos postais do Rio de Janeiro e imagens vernaculares, as obras utilizam a cor e a iconografia como ferramentas para questionar o olhar voyeurístico e explorar a natureza da memória coletiva, além de refletir sobre o desejo mediado culturalmente.
Marcelo Amorim | Montagem
Texto crítico Chico Soll
Abertura Abertura 06/02, quinta-feira, das 19h30 às 22h
Visitação de 06/02 a 22/02
Quintas e sextas das 14h às 19h
Sábados das 11h às 17h
O que vemos em “Montagem” é uma fricção entre nostalgia e erotismo. O que poderia ser uma celebração aberta do corpo e do desejo torna-se, ao contrário, uma meditação sobre o que é reprimido, o que se encontra latente. Essa tensão é filtrada pelo uso do vermelho — uma cor que historicamente carrega conotações de paixão, mas que aqui assume um caráter sutil, velado.
A fatura da pintura traz à superfície não apenas a figura, mas a intensidade silenciosa do que permanece oculto. O resultado é uma reflexão sensorial e ao mesmo tempo crítica sobre a memória, o desejo, e os limites entre ambos, em que o espectador é convidado a habitar esse espaço de contenção e promessa.
O Rio de Janeiro, retratado aqui como uma pausa quase mítica, oferece uma promessa de prazer que é, ao mesmo tempo, contida e difusa. Essa ambivalência se materializa nas imagens de antúrios e nos corpos masculinos, envergando sungas que remetem a uma estética de masculinidade antiquada e ao mesmo tempo fetichizada.
Apresentando pinturas em óleo sobre tela e serigrafias, todas baseadas em matrizes fotográficas, antigos postais do Rio de Janeiro e imagens vernaculares, as obras utilizam a cor e a iconografia como ferramentas para questionar o olhar voyeurístico e explorar a natureza da memória coletiva, além de refletir sobre o desejo mediado culturalmente.
Marcelo Amorim (1977, Goiânia, GO, Brasil. Vive e trabalha em São Paulo, SP) desenvolve uma pesquisa focada em resgatar informações históricas perdidas ou suprimidas, tornando-as fisicamente presentes para questionar valores culturais e sua evolução. Seu trabalho explora a retórica da neutralidade e a validação do poder em sociedades ocidentais, revisitando imagens discursivas por meio de arquivos encontrados na internet, especialmente de 1940 a 1970. Atuando como editor, organiza essas imagens em serigrafias, desenhos e pinturas, evocando um sentido afetivo. Dirigiu o Ateliê397 (2009–2016) e lidera o Fonte desde 2013, promovendo residências, exposições e debates de arte contemporânea.
Exposições individuais selecionadas: Viragem, Massapê Projetos, São Paulo (2023); Escola Normal, MARP, Ribeirão Preto (2019); Se Eu Fosse Você Não Me Trataria Como Você, Sem Título, Fortaleza (2018); Maquinal, Zipper Galeria, SP (2016); Ventriloquia, Paço das Artes, SP (2014); Intervalo, Galeria Jaqueline Martins, SP (2012).
Exposições coletivas selecionadas: A Vingança do Arquivo, Casa de Cultura do Parque, SP (2024); Sentido Comum, Anita Schwartz Galeria de Arte, RJ (2022); Dizer Não, Ateliê397, SP (2021); Against, Again: Art Under Attack in Brazil, Anya and Andrew Shiva Gallery, John Jay College, Nova York (2020); Memória Seletiva, Galeria Aymoré, RJ (2019); Ação e Reação – Arte Contemporáneo Brasileño, Casa do Brasil, Madri, Espanha (2018).
Curadorias selecionadas: Ambidestria: Sergio Romagnolo e Luah Souza (2024); Cama de Gato (Edifício Vera, 2024); Hospital de Bonecas: Caio Borges (Fonte, 2023); Mar, Rio, Fonte (Galeria Karlla Osório, 2023); 29ª Mostra de Arte da Juventude (Sesc Ribeirão Preto, 2019); Vá em frente e volte pra casa – Júnior Pimenta (Sem Título, 2018); Entrever Paisagens: Brisa Noronha, Élcio Miazaki e Simone Moraes (Galeria da FAV, 2018);
FONTE
Fundado em 2013 pelos artistas visuais Marcelo Amorim, Nino Cais e Simone Moraes, o FONTE é uma organização com sede em São Paulo que oferece residências e ateliês temporários para jovens artistas. Oferece uma programação pública e gratuita incluindo exposições, palestras, workshops, performances, projeções de videoarte e estúdios abertos. O espaço já recebeu artistas como Adrián Balseca (Equador), Martin Lanezan (Argentina), Pilar Quinteros (Chile), Sandra Gamarra (Peru), Gabrielle Goliath (África do Sul), os brasileiros Rodrigo Braga e Lyz Parayzo, e realizou parcerias com as instituições Associação Cultural Videobrasil, Paço das Artes, Instituto Tomie Ohtake, entre outras.
Serviço exposição Marcelo Amorim | Montagem
texto Chico Soll abertura 06 de fevereiro, das 19h às 22h visitação 06a 22 de fevereiro de 2025 quintas e sextas-feiras, das 14h às 19h sábados, das 11h às 17h entrada gratuita Rua Mourato Coelho, 751 - Vila Madalena, São Paulo Metrô Fradique Coutinho instagram.com/@residenciafonte
Martina Miño
Durante sua estadia na Residência Fonte, Martina Miño Perez nos presenteou com uma experiência gastronômica inesquecível: ela preparou o delicioso Sancocho, uma tradicional sopa equatoriana. Com muita generosidade, ela também compartilhou conosco a receita, que você pode conferir abaixo.
Receita de Sancocho Equatoriano para Residência Fonte <3
15 porções:
-9 milhos -3 mandiocas -3 bananas da terra -3 cebolas rosas -Um atado de cebola branca. —Uma cabeça de alho -6 cucharadas de comino -100 gr de manteca de amendoim -2 kilos de róbalo -um atado de cilantro -6 limões
-Em uma panela grande, coloque bastante azeite e refogue o alho, a cebola e o cominho. -Quando a cebola ficar translúcida, adicione a manteiga de amendoim e continue fritando por mais alguns minutos. -Tempere com sal e adicione bastante água. -Adicione um raminho de coentro. -Corte o milho, a mandioca e a banana em pedaços grossos e adicione à água. -Cubra e cozinhe em fogo médio por 25 minutos. -Quando a mandioca estiver macia, adicione o peixe cortado em pedaços grossos e ajuste o tempero. -A sopa estará pronta quando o líquido estiver espesso a causa do almidón da banana e da mandioca. -Finalize com bastante limão.
Acompanhamentos: -Arroz -Encebollado:
-6 cebolas rosas -6 limões -8 tomates -3 xícaras de óleo de girassol
-Corte finamente a cebola em corte pluma. -Corte o tomate em cubos grossos. -Junte todo num bowl e adicione o suco de limão e abundante sal. -Guardar refrigerado uma hora.
Disfrutar!!!!!
Terra Roxa
Cristina Aliperti, Eni Aliperti, Flavia Junqueira, Heloisa Frossard, Geciane Porto, Magali Camacho, Marcela Neves, Sueli Ferrer, Thiago Klumb, Rejane Tannous, Vera Barbieri, Weimar
Curadoria: Carla Chaim
Texto: Rejane Cintrão
Esta exposição reúne 12 artistas nascidos em diferentes cidades do Brasil e atualmente residentes na cidade de Ribeirão Preto, uma das mais importantes do Estado de São Paulo, graças ao seu solo fértil e, principalmente, a plantação da cana de açúcar. Ribeirão Preto é atravessada pela Rodovia Anhanguera, cuja primeira construção se deu nos anos 40 com o objetivo de ligar o porto de Santos à Brasília. Atualmente, Ribeirão Preto é um importante polo cultural, onde estão localizados o Museu de Arte de Ribeirão Preto – que organiza o SARP, salão aberto a artistas de todo o Brasil anualmente, e um dos mais relevantes no país desde os anos 80; o Instituto Figueiredo Ferraz – que abriga uma das mais importantes de arte contemporânea do país; galerias de arte e espaços de arte abertos a artistas de todo o Brasil, dois deles organizados por duas das artistas apresentadas neste espaço. Todos estes fatos são relevantes para que Ribeirão Preto seja uma cidade onde a produção de arte contemporânea floresça, assim como sua terra roxa, uma das mais férteis para o plantio de diversas variedades de alimentos, e título desta exposição.
Embora Ribeirão Preto seja uma cidade grande, ela propicia uma grande aproximação de seus habitantes com a lavoura e com a natureza. Este fato, aliado à recente pandemia que levou quase toda a humanidade a repensar sua atuação em meio à sustentabilidade do nosso planeta, trouxe à tona muitas questões como as apresentadas, por exemplo, na última Bienal de Veneza, realizada no ano passado sob a curadoria de Cecilia Alemani. O tema dessa Bienal tomou emprestado o título “The Milk of Dreams” do livro infantil da artista surrealista Lenora Carrington, e apresentou mais de 1.500 obras de 218 artistas provenientes de 58 países, entre eles, o Brasil. A representação do corpo e suas metamorfoses, a relação entre indivíduo e máquina e a conexão do homem com a natureza foram notáveis em diversas obras apesentadas em Veneza.
Faço esta introdução para contextualizar a produção dos artistas aqui apresentados em relação ao ambiente em que vivem e ao que acontece no mundo todo: a retomada do contato com a natureza e com o próprio corpo; o deslumbramento diante da paisagem, da qual fazemos parte, mas nos esquecemos constantemente, e, finalmente, nosso papel no Universo.
Vejo na produção aqui apresentada uma certa proximidade com o que foi visto na 59ª. Bienal de Veneza, em 2022. Primeiramente, pelo número expressivo de artistas mulheres. Talvez, no Brasil, não tenhamos vivido um preconceito muito grande a partir do século XX porque nossos grandes protagonistas no meio da arte foram, e continuando sendo, também, artistas mulheres como Anita Malfatti, Tarsila do Amaral, Lygia Clark, Mira Schendel, Leda Catunda, Adriana Varejão, só para citar algumas. Enquanto a bíblia internacional da história da arte moderna, escrita por Giulio Carlo Argan, cita apenas uma mulher na produção de arte moderna internacional (Diane Arbus), aqui no Brasil já tínhamos um certo reconhecimento pela produção feminina. Em segundo lugar, porque muitos dos trabalhos selecionados em Terra Roxa tratam de questões da mulher, mas, também, da nossa ancestralidade, e do nosso propósito de vida.
A referência à ancestralidade e às mulheres da família é notável nas imagens apagadas por meio de pinceladas quadriculadas nos trabalhos da artista Eny Aliperti (São Paulo), cujo ateliê recebe artistas há muitos anos, sendo um ponto de referência para a produção artística de Ribeirão. Dedicada à arte há vários anos, Eny tem realizado, ao longo de sua carreira, diversas mostras com obras que permeiam a pintura, a fotografia, a instalação e o objeto.
O trabalho de Cristina Aliperti (Ribeirão Preto) traz a memória dos bordados e crochês que nossas avós faziam, por meio de um trabalho manual e delicado, mas muito contemporâneo ao mesmo tempo. É como se mergulhássemos em um bordado gigante negro. A tridimensionalidade desse trabalho é obtida por meio de recortes e colagens que resultam em dois grandes arabescos unidos por linhas. A relação entre o antigo e o contemporâneo é inegável.
A mineira Flavia Dias Junqueira (Belo Horizonte) se apropria de elementos da natureza para realizar suas pinturas e esculturas. Galhos e raízes belamente retorcidos pela própria natureza são utilizados como matéria na construção de seus trabalhos onde a cor traz novos elementos e um novo contexto para esses materiais.
As cores e formas do trabalho de Flavia dialogam com as intensas pinturas abstratas de Geciane Porto (Florianópolis), nebulosas onde tons de verde, azul, violetas, rosas e amarelos nos rementem às inúmeras cores do céu e às formas da natureza.
Heloisa Frossard (São Paulo)apresenta trabalhos da série Ancoragem, realizados a partir de uma pesquisa recente feita em padrões de pisos antigos conhecidos como “ladrinhos hidráulicos”, utilizados principalmente nas casas construídas nos anos 1930 e 40 no Brasil. Por meio de pinturas em tinta acrílica sobre madeira, a artista revisita esses belos modos criados há quase 90 anos e os remonta, mudando as padronagens.
Assim como Cristina, também Magali Camacho (Ribeirão Preto)trabalha com o recorte, utilizando-o como referência a outros artistas da história da arte como Chilida, Ana Maiolino, entre outros, sempre na busca da tridimensionalidade por meio das sobreposições dos recortes e rasgos no papel. Nesta instalação composta por obras bi e tri-dimensionais, a artista revela sua homenagem à Mondrian.
Marcela Neves (Ribeirão Preto) realizou diversas fotografias em Socotorá, uma ilha paradisíaca localizada no Oceano Indico, cujo nome vem do sâncrito dvipa sukhadhara e quer dizer ilha da felicidade. Não por acaso seu maravilhamento com a exótica natureza e pessoas do local se reflete em suas fotografias.
A exemplo de Flavia, Sueli Ferrer (São Paulo) busca nos elementos da natureza a matéria para seu trabalho. Galhos e folhas são poeticamente pintados sobre papel e inseridos em recipientes de vidro como na busca de uma catalogação e preservação de suas existências.
Thiago Klumb (Rio de Janeiro) que busca na natureza sua fonte de inspiração para suas cenas oníricas que nos remetem à silhueta do Rio de Janeiro e de outras paisagens brasileiras, é o pintor por excelência deste grupo, utilizando a tinta a óleo e uma palheta de cores muito peculiar para a fatura de suas belas pinturas.
Já a hábil desenhista Rejane Tannous (Ituverava) boa desenhista e observadora atenta a tudo o o que ocorre ao seu redor, apresenta nesta mostra uma série de pinturas em preto e amarelo inspiradas em formas da natureza que a rodeia em Ribeirão Preto, curiosamente semelhantes àquelas fotografadas por Marcela na paradisíaca ilha tão distante do nosso país.
Vera Barbieri (Uberaba) apresenta diversas formas arquitetônicas de casas. Casas possíveis. A casa que nos abriga, tão cara para nós durante a pandemia, as casas de passarinhos, típicas do interior brasileiro, as antigas casas feitas de barro, as fachadas e empenas típicas de casas do Brasil.
Conheci o trabalho de Weimar em seu ateliê há alguns anos. A exemplo de Eni, Weimar acolhe artistas de todo o país em seu espaço, promovendo cursos e exposições. Ambas as artistas buscam em objetos e histórias de família o resgate se suas próprias histórias por meio de instalações, pinturas e, aqui, no caso de Weimar, lindas paisagens em aquarelas que lembram o horizonte das infindáveis plantações no entorno de Ribeirão Preto. Suas paisagens nos remetem às pinturas oníricas de Thiago.
Iniciei este texto com as obras de Eni e o finalizo com as de Weimar, duas artistas que conheço há vários anos e cujos trabalhos inspiram e transformam tantos outros artistas em Ribeirão Preto e no país, como podemos notar pelas diferentes cidades onde nasceram os doze artistas aqui apresentados.
Rejane Cintrão
Outubro 2023
O artista inglês Theodore Ereira-Guyer e a escritora e curadora italiana Giulia Damiani são os atuais residentes do FONTE. Sejam bem-vindos!