It's a bad day, not a bad life | Rhys & Ryan
Havia dias na vida de Ryan Wood. E havia dias. Os dias eram fáceis de atravessar. Eram inofensivos, eram quase agradáveis. Eram dias em que as aulas de vôo em fáceis de auxiliar, dias em que o vento batia em seu rosto de forma agradável, quase lembrando-a de como era estar na vassoura ao invés de ajudando alguém a se equilibrar nela, dias em que ela caminhava pelo castelo inteiro sem sentir uma menção à dor em sua perna. Mas os dias... Esses eram insuportáveis. Eram dias em que tudo que Ryan queria era soterrar-se debaixo dos cobertores, rezando baixo para ter forças, forças para levantar da cama, forças para não abraçar a escuridão que pairava, que sentia. Eram dias em que sua cicatriz parecia mais visível, que a dor irradiava do joelho para todo o resto de seu corpo, como um lembrete de quem Ryan realmente era e de que aquilo era o que ela seria para sempre. Aquele era um dia. Madame Hooch sempre sabia quando era um desses. Embora não fosse de verbalizar seus incômodos, principalmente esses que a colocavam numa posição tão fragilizada, Ryan não era uma pessoa muito difícil de se ler. Estava tudo nos olhos, na sua expressão vazia, na forma mecânica com que fazia qualquer coisa e em como nada a sua volta parecia fazê-la reagir.
A professora tentou começar algumas conversas com Ryan, pediu sugestões para a aula, mas tudo que Ryan fazia era acenar com a cabeça, ou limitar-se a dar um sorrisinho de canto que expressava mais sofrimento do que sua expressão continuamente estagnada. Eventualmente, naquela manhã que parecia eterna, Madame Hooch se deu por vencida, deixando Ryan mergulhar em sua própria melancolia e silêncio. E foi o que a loira fez. Tinha um lugar, um lugar em que Ryan gostava muito de ficar. O degrau mais alto da arquibancada. A vista do campo era perfeita, e fazia Ryan se sentir minúscula, menor do que já era, como se fosse possível. Por horas, ficava sentada ali, abraçando seus joelhos e encarando o verde do gramado, na tentativa de esquecer quem era, esquecer o que era, e tornar-se apenas... Ninguém. Porque tornar-se alguém, alguma coisa, já estava fora de questão.
Prestes a completar a segunda hora ali, Ryan ouviu os pesados passos de alguém subindo a arquibancada. Imaginou que fosse madame Hooch, talvez Dawn fazendo uma visita para a prima e querendo ser educada. Virou-se na direção do som e teve uma surpresa. O grande Rhys Cadwallader estava em seu último ano quando Ryan entrou em Hogwarts. Era difícil não lembrar-se dele. Chaser principal do time no terceiro ano, capitão no quinto, impressionantemente bonito. Com o time em suas mãos, a Gryffindor fora campeã três anos seguidos. Ryan tivera a oportunidade de ver a última vitória, e talvez essa vitória (e Rhys por si só) tivesse a motivado a querer ser uma jogadora de quadribol. Ryan lembrava-se claramente, naquele mesmo campo que encarava, agora vazio, os jogadores gritando, a torcida completamente louca, fazendo a arquibancada tremer. O calor que ela sentiu em seu coração, enquanto os garotos mais velhos a equilibravam em seus ombros, pulando e a fazendo pular junto. E Rhys no meio de todos, segurando a taça, segurando a esperança e o orgulho dos Gryffindors. Um dos melhores jogadores de Quadribol que ela havia visto, senão o melhor. E capitão do time que ela sonhou fazer parte por anos. Abraçou seus joelhos mais forte. Em outro dia, em outra época, Ryan teria tido um surto, teria pedido um autógrafo, teria elogiado até o jeito como Rhys respirava. Mas naquele momento, nem isso era capaz de sentir. Nem a admiração que tinha pelo capitão do Montrose Magpies lhe dava forças ou disposição para sorrir, para acenar, para qualquer coisa. Manteve seu olhar opaco em Rhys, tentando formular alguma coisa pra dizer - Se está procurando Madame Hooch, ela está lá dentro - Apontou para trás, sem uma direção específica. Rhys saberia onde encontrar a professora de vôo, ela apenas fizera um esforço para não ser mal educada.









