Temos que regressar a nós, sobretudo quando fica confuso e as opinões dos outros começam a falar mais alto que a nossa intuição.
Chega a casa após mais um passeio de um par de horas com o cão. Confusa, mas sem estar muito preocupada com isso, serve-se de um copo de vinho tinto barato mas bom, mete dois ovos a cozer, uma fatia de pão na torradeira e acende meio cigarro, um dos últimos três do maço.
Senta-se na marquise, qual varanda, a ouvir a sua playlist favorita, oferecida por um crush tão antigo quanto curto, mas surpreendentemente enriquecedor. Engraçado, como na altura achava que havia ali algo especial, quase uma química intelecto-emocional, embora demasiado associada à impossibilidade da materialização da relação dada a distância que os separava, a qual acabou por se provar impeditiva para manter um contato saudável.
Que confusão, pensa. Mas até foi bom. Pensa ainda nos homens que lhe passaram pelas mãos, no telefone e na vida, naqueles onde lavou os olhos, naqueles que os lavaram, e até nos que lhe partiram o coração sem sequer saberem que um dia lá tiveram.
Vitória Rodrigues. 39 anos, sem pensar muito que está prestes a fazer quarenta. Muito gosto que prazer é outra coisa. Leão com ascendente em Gémeos e lua em Touro. Não se cheguem perto desta mulher, ou aceitem furacão. Morena mas não muito, cabelo médio e poucas vezes impecável mas sempre cheio de estilo, tal como tudo o resto pois a vida passa rápido e não há tempo a perder, pelo menos não com o que não aquece o coração.
Já o que vale, seja amor, comida, passeios, coisas bonitas e boas -culpem a lua taurina, para isso tem sempre tempo, mesmo que tenha que dormir pouco e ficar com humor de cão, que na verdade nem devia ser mau a não ser quando o seu cão também não dorme: aí ficam os dois em espelho até que o mood passe que geralmente rápido e intenso.
Está cansada e dói-lhe a garganta mas não é Covid ou pelo menos nem se preocupa em tentar saber se é. Olha pela janela, está luminoso lá fora, luz de Abril águas mil e Sol teimoso no signo que é o seu. Um pintor ultima as tintas numa casa mais alta e num andar mais alto que que a dela. Ao menos não é um pintor gato, como o seu ex romance, tão romanceado que acabou mais rápido que o que começou. Melhor assim. Homens gatos dão muitos problemas e esses ela já os tem de sobra.
Tac-pac, salta a torrada da torradeira e, merda, a água dos ovos está a ebulir por todo o lado, logo hoje que não lhe apetecia limpar a placa. Hora de por o telefone de lado e jantar qualquer coisa, faltam só os espinafres. Amanhã há mais, mas hoje está sem paciência para pessoas, sobretudo para homens.
Foca-se nela e volta a olhar pela janela. Ai que bom que o mundo seria se o que se quer acontecesse.















