Num largo cheio de esplanadas cobertas de sol e cadeiras ocupadas há uma mesa que chama a atenção por uma agitação especial. Não há quem fique ali sentado, mas todos querem tirar uma fotografia ao lado de Fernando Pessoa, imortalizado por Lagoa Henriques numa estátua em bronze. Sentado, de olhar contemplativo, para o poeta tudo lhe parece distante: os turistas mais atrevidos que se sentam ao seu colo, os mais respeitosos que nem se atrevem a tocar-lhe no ombro. É mesmo este o ponto central do largo do Chiado. É daqui que se pode observar o frenesim das famílias que passeiam ou senhoras que vão às compras. Os amigos que caminham ou dos jovens que de repente se lembram que se amam num abraço apaixonado. Este é também o ponto para onde convergem os turistas. Os que esperam pacientemente pelo eléctrico que as levará aos prazeres da cidade, os que se deixam ficar encostados na esplanada a recarregar as baterias com um sol teimoso, os que param a ouvir a tuna que acaba de chegar e que rapidamente atrai para si as atenções e as maquinas fotográficas da zona.
No quiosque são muitos que se ficam a ler as gordas. Eu compro o jornal e não consigo resistir a levar comigo umas castanhas que me andavam a seduzir pelo nariz há uns bons minutos. Desço a Rua Garrett para encontrar a livraria mais antiga do mundo ainda em funcionamento. A Bertrand nasceu em 1732 não é difícil imaginar Fernando Pessoa a fazer as suas compras ali. Hoje o que dele permanece são apenas exemplares das suas obras em inglês que agora ilustram as montras na ânsia de satisfazer os que querem conhecer Lisboa através seu icónico escritor.
Pouco mais à frente, na Rua Anchieta, perpendicular à Rua Garrett, é dia de mercado de Alfarrabistas. A rua está forrada a livros e é na banca “Santiago” que encontro um apaixonado. António Figueiredo, alfarrabista, relembra que foi aos 50 anos que se lembrou de procurar as suas raízes familiares. A satisfação dessa busca deixou-lhe paixão pela história e assim voltou à faculdade para estudar exactamente isso. Os 4 anos de estudos trouxeram-lhe para além de uma nova mulher e dois filhos, a paixão pelos livros que começou a comprar e que rapidamente se tornaram demais apenas para si. Investiu o dinheiro da reforma numa paixão que hoje não lhe trás lucro, mas da qual não se consegue desfazer. Deixo-o a olhar para os seus livros, com uma certa nostalgia de um apaixonado pela mulher errada, como quem deixa uma página em branco.
* Texto Ladytravelworld / Fotos Google images