Péssimo timing da Providência
Sabe quando você acorda de um sonho bizarro e fica, por algum motivo, perturbada com as “implicações” do seu subconsciente por trazer aquele assunto pra área consciente do cérebro? E depois você fica ruminando sobre a pessoa, o lugar ou situação que o sonho trouxe de volta…
No episódio de hoje de Overwhelmingly Ruminating a Daydream, o danadinho do subconsciente foi buscar uma pessoa que está longe, mas de quem me arrependo e não gostaria de ter me distanciado.
Eu tenho dificuldade de fazer amigos, segundo um teste de personalidade que eu refiz hoje à tarde, porque preciso me conectar com as pessoas a nível profundo; conversa mole e gente superficial só pra passar o tempo não me satisfaz. É meio assustador o quão preciso o teste foi, e nesse aspecto o resultado foi cirúrgico: em cada amigo eu preciso encontrar um soulmate, e isso não é nem um pouco fácil. Por aí já dá pra perceber o tamanho do sofrimento em achar um amigo assim e acabar se afastando da pessoa. E o caso do indivíduo retirado do baú das lembranças pelo meu subconsciente é um bem específico.
(Tô pensando em como descrever isso, porque eu quero muito botar pra fora, mas sem exposição demais. Mas acho que não tem como.)
Esse amigo chegou até mim pelo Facebook por meio da minha maior obsessão na época e me adicionou porque viu no meu blog que eu estava morando numa cidade próxima. No momento da vida em que eu me sentia mais sozinha, perdida e literalmente deslocada do que nunca. E o evidente interesse em comum foi o estopim para as primeiras conversas, que com o tempo, ora ficavam mais frequentes ou mais espaçadas sem motivo específico. E mais assuntos em comum foram surgindo. Acho que ele foi o primeiro amigo importante dessa época turbulenta.
A gente sempre planejava se conhecer pessoalmente pra conversar e tocar umas músicas, já que morávamos a poucos 80km de distância. O que faltava era oportunidade, porque não tinha razão pra um ir até o outro do nada. E esses 80km eram apenas um pulo comparados à distância que me separava da vida que tinha sido obrigada a deixar para trás.
Acabamos nos conhecendo pessoalmente, num semestre em que fui estudar na mesma universidade que ele. Pena que em períodos diferentes, mas acabamos criando oportunidade entre o horário que ele saía e eu entrava na aula. Isso acabou ficando até frequente; às vezes eu reclamava que estava com saudade de comer “um fast-food da cidade” e ele aparecia no campus só pra me levar até o Subway (a coisa mais “cidade grande” que tinha por lá).
Até que um dia eu disse que estava com tédio demais de ficar e noite inteira fazendo exercícios em C. E eu fui parar na casa dele. Não me leve a mal, eu estou rindo disso neste momento, não é nada do que você está pensando. É que ele disse que tinha uma guitarra pra vender e eu estava interessada em comprar. Fui lá pra conhecer a guitarra. E ficamos lá tocando a guitarra e falando de música e bandas e instrumentos até literalmente a hora que eu tinha que entrar na van e ir embora.
E esse dia tá gravado na minha memória por dois motivos: foi a primeira vez que eu peguei uma guitarra ligada na vida; e também um dia que eu me diverti muito e dei muita risada a despeito dessa outra época turbulenta e cheia de dúvidas sobre a vida. Hoje eu penso como as coisas podiam ter sido diferentes se a vida tivesse ajustado dois reloginhos no mesmo fuso horário. E penso um pouco mais do que o bom senso recomenda.
A treta aqui é a seguinte: quando ele me adicionou no Facebook e começamos a conversar, ele tinha uma namorada. À época em que estudamos na mesma uni e nos conhecemos pessoalmente, EU tinha um namorado. (Aliás, deixa eu despejar um segredinho aqui: este meu ex jamais soube a respeito desses encontrinhos IRL. O máximo que eu mencionei foi sobre a guitarra à venda. Ich bereue nichts.) E quando esse encosto me libertou, bem… a fila andou e meu amigo já tinha outra namorada.
Eu já ruminei sobre isso antes. E estou ruminando isso agora de novo, graças à traquinagem do meu subconsciente de trazer essas lembranças de volta por intermédio de um sonho doido aleatório. Já se vão anos de tudo isso e não me considero uma amiga tão boa assim. Mas o negócio do teste de personalidade, aliado às lembranças, me fizeram concluir que ele é um desses amigos soulmates que eu tenho tanta dificuldade em encontrar. E provavelmente o mais fisicamente próximo que eu tive desde o ensino médio, que foi quando eu comecei a só conseguir fazer amigos que moram em outro estado. Ou em outra cidade do mesmo estado, mas muito mais longe que os alcançáveis 80km.
Não preciso escrever com todas as letras o cerne dessa ruminação, porque a essa altura é meio óbvio. Que história poderia ter acontecido dessa crush platônica, não fosse o péssimo timing da Providência?
Hoje ele está mais longe do que nunca, e eu sigo overthinking sobre coisas que nunca vão acontecer. Disso o teste de personalidade não falava.











