Abby Wilson & Ryan Rumlow: O céu azul
O dia estava agradável, com o céu azul limpo e calmo, e sem muito vento. E o clima estava ótimo.
Era o dia perfeito para voar.
Mas, ao contrário do que poderia se esperar, Abby Wilson não estava se locomovendo pelo céu naquela manhã. Ela gostaria muito de estar, sentindo o vento batendo contra seu rosto, e vendo a cidade daquela visão privilegiada que sempre tinha quando estava com suas asas mecânicas. No entanto, ela estava caminhando, não só porque seu equipamento estava na oficina dos Stark, mas também porque não queria chamar atenção para onde estava indo.
Entrou no cemitério Trinity Church, e seus pés fizeram o caminho já familiar até onde seu irmão Jim estava enterrado.
Abby esperava que fosse ser a única visitando o túmulo dele, quase sempre era, porque ela gostava de ir até lá sozinha, mas assim que se aproximou do local, ela notou que uma figura já estava ali. Isso a fez parar quase que imediatamente.
O rapaz parado não era tão alto assim. Uma touca cobria grande parte de seu cabelo preto. Tinha as duas mãos dentro dos bolsos de sua jaqueta enquanto olhava para baixo, mas assim que percebeu que não estava mais sozinho, ele virou a cabeça apenas o suficiente para olhar pelo canto do olho.
Abby o reconheceu imediatamente, apesar de não vê-ló desde o funeral de Jim.
— Cê tá diferente. — o rapaz comentou, quebrado o silêncio entre eles.
Saindo de seu estupor momentâneo, ela se aproximou dele, parando ao seu lado.
— E você desapareceu.
Ryan Rumlow abriu um pequeno sorriso, e imediatamente, Abby se lembrou de todas as vezes em que viu aquele sorriso antes. Quando ele e seu irmão estavam em casa, fazendo coisas idiotas de adolescente depois da escola. Quando ele elogiava a comida da mãe deles, sempre que acabava jantando com a família. Sempre que ele dava em cima de sua prima, e sempre que ele e Jim saiam em uma missão juntos e ele prometia trazer seu irmão para casa são e salvo…. até o dia que não conseguiu cumprir sua promessa.
Foi a última vez que Abby viu aquele sorriso.
— É, a vida ficou... corrida. — ele disse, e Abby pode perceber que tinha muito mais ali que ele não estava dizendo.
Ryan e Jim foram melhores amigos por anos, e ela sabia o quanto a morte dele o havia afetado. Sabia que ele havia sofrido tanto quanto sua própria família, então ela não o culpava por ter se afastado. Cada um lidava com o luto de formas diferentes, afinal.
— Entendo.
Um momento de silêncio se instalou entre eles. Levemente desconfortável, mas ao mesmo tempo, necessário. Ryan pigarreou, ainda olhando para o nome de Jim gravado na lápide no gramado.
— Como estão todos?
— Estão bem. Meus pais continuam morando no mesmo lugar, e vez ou outra perguntam sobre você. — ela disse, não para fazê-lo se sentir mal, para para que soubesse que ainda era lembrado como parte da família. — Nem preciso falar sobre meu tio, porque você deve ver ele na TV sempre. Amber continua nos bombeiros, e o Jody está prestes a se formar na escola. Logo vai pra faculdade.
— Caramba… eles crescem tão rápido, não é? — a brincadeira feita por ele foi o suficiente para quebrar o clima, e os dois riram juntos.
— Nem me fale.
Abby levantou o olhar, e fitou o céu. Ryan fez a mesma coisa.
— Deve ser legal, poder voar no céu assim, Asa Vermelha. — eles trocaram um olhar assim que ele a chamou por seu codinome, mas ela nem estava surpresa por ele saber disso. — Jim também gostava mais do céu do que de ficar preso aqui embaixo.
— É, e como ele gostava. — Abby sentiu o coração apertar ao se lembrar disso. Ele era um piloto muito melhor do que ela, mais habilidoso. Era quase como se ele tivesse nascido para aquilo, enquanto ela penou para entender como tudo funcionava. — Se ele ainda estivesse aqui, aposto que estaria dominando os céus, íamos ver ele voando por aí o tempo todo. Ele teria dado um ótimo Falcão.
— Concordo. — Ryan riu mais uma vez, e então, parou de olhar para o céu e se focou em Abby. — Mas, acho que se ele ainda estivesse aqui, ele ainda seria só um agente, e estaria bem orgulhoso de você é do que você faz. Não só pelo Harlem, mas por toda Nova York. Acho que as pessoas não precisam de um novo Falcão, eles precisam da Asa Vermelha. Ele sabia disso.
Abby precisou lutar contra as lágrimas que apareceram sem aviso em seus olhos. Ela e Jim eram próximos, e ele sempre fez de tudo para protegê-la, como o bom irmão mais velho que ele era. Então, às vezes ela se perguntava se ele ficaria decepcionado com ela decidindo se arriscar como uma jovem heroína.
Ouvir alguém que o conhecia tão bem dizer que ele teria orgulho do que ela estava fazendo fez seu coração se aquecer.
— Eu sinto tanta falta dele, Ryan.
O mais velho concordou com a cabeça, parecendo mais tenso do que antes. Abby imaginou que ele também estivesse lutando internamento para não demonstrar o que estava sentindo. Como um ex-agente da SHIELD, ele havia sido treinado para isso.
— Eu também. — disse por fim, com a voz baixa, quase rouca — Não tem um dia em que eu não pense nele. — com isso, ele arrumou a postura, e mudou de assunto rapidamente. — Olha, foi bom te ver, Abby, mas tenho que ir. Muita coisa pra resolver hoje.
Ele se virou e começou a caminhar, mas antes que ele se afastasse muito, Abby o chamou.
— Ei, Ryan. — ele parou e olhou para ela. — O pessoal lá de casa realmente iria amar te ver de novo. Arranja um tempinho pra dar uma passada lá.
Ryan ficou parado por um momento, antes de acenar com a cabeça levemente.
— Vou ver o que posso fazer. — ele se virou mais uma vez, e enquanto andava, ele gritou. — Ah, e aproveita e diz que andei um oi pros pirralhos da academia, tá?
Abby observou enquanto Ryan desaparecia pelo cemitério, e então voltou-se para a lápide de seu irmão, notando as flores que o amigo havia deixado ali mais cedo, uma Hortênsia tão azul quanto o céu que Jim tanto amava.
Ela suspirou, e mais uma vez olhou para o céu, enquanto pensava em Jim.














