Esse é o quarto de número 10
Pagou o táxi no crédito, colocou a bolsa no ombro direito e pisou firme no chão de uma rua sem saída, em um dos becos do interior de São Paulo.
Cheirava a álcool, mas o salto preto lhe dava um ar de superioridade. Mais à frente, sua companhia daquela noite adentrava em uma pensão medíocre. Bete foi atrás. Já passava das 2 horas da madrugada, fazia frio e o senhor do estabelecimento tinha acabado de acordar com o barulho de suas vozes que discutiam sobre alguma coisa banal. Ele calçou os chinelos e mostrou-lhes o quarto de número 10.
Era de casal, mas tinha uma cama de solteiro encostada na parede. A cama maior, toda amarrotada, estava coberta por um lençol cretino desprendido nas pontas e um edredom surrado, com uma estampa encardida. Nojento. Uma toalha usada, jogada por cima, completava o visual nada atrativo daquele ambiente.
Bete forçou a visão, já turva, e olhou aquilo tudo com desgosto enquanto o senhor balbuciava algumas palavras “a próxima vez, vocês avisem antes, que eu peço pra mulher arrumar o quarto”. Buemba! O quarto não estava arrumado, que novidade! Parecia um prostíbulo, mas ainda não cheirava a sexo. Por um minuto, pensaram. A decisão deve ter sido difícil, mas ficaram ali mesmo, no número 10.
Pediram para trocar a roupa de cama. Bete deixou a bolsa no quarto e desceu a escada em busca de um lençol, quem sabe, um edredom. Infelizmente, naquela altura da madrugada, só havia um cobertor, que se dane a rinite, os termômetros batiam uns 15 graus. Estava gelado e Bete não tinha cara de quem andava com pijama na bolsa. Provavelmente dormiria nua. Aproveitou e perguntou se ali havia algum banheiro. Qualquer que fosse. O senhor subiu a escada atrás dela e entrou no quarto de número 10.
Era um quarto simples, não deveria estar sujo, mas aparentava. Das quatro paredes, uma era forrada com um guarda-roupa branco, cheio de portas e gavetas. Ali estava o banheiro, escondido atrás da última porta. Um banheiro em Nárnia. No lixo, uma embalagem de Diamante Negro, aquele chocolate meio amargo. Bete fitou o plástico por alguns segundos enquanto fazia xixi, que estava segurando desde que pagou a conta de várias cervejas em um boteco que tocava música boa.
A mulher que a acompanhava estava lá, deitada na cama com lençol, cobertor e o mesmo edredom surrado. Eu disse, fazia frio aquela noite. Ela tinha cabelos e olhos negros, uma pele branca, muito clara, digna do inverno e, mesmo de olhos fechados, esperava por ela. Ao sair do banheiro, Bete tirou o salto e a roupa, vestiu uma blusa cinza, que coube na bolsa e deitou próxima daquela outra pele. Ali, fez calor. Ali, os corpos ficaram nus e pode-se dizer que naquela madrugada e manhã, o quarto de número 10 ganhou um cheirinho de sexo. Saíram e largaram a cama amarrotada, com um lençol cretino desprendido nas pontas. Bete colocou o salto, ajeitou os cachos e deixou a pensão naquele rebolado.