O cenáculo era pouco visitado pelos demais, afinal, quando você se torna detentor de poderes não depende mais de alguma divindade para lhe auxiliar, contudo, Cedric havia sido criado dentro da igreja católica, portanto, jamais seria capaz de abandonar sua crença, mantendo-a como algo que guiaria os seus passos. Em verdade, acreditava que aquela concessão divina de habilidades físicas era necessária para o cumprimento dos planos divinos. Ele não sabia quais eram, e qual a finalidade, mas sabia que chegaria o momento de serem revelados. Infelizmente, poucos compreendiam que os poderes, embora fizessem cada um fisicamente melhores, deixava-os à mercê das mazelas da sua própria pequenez. O franco-italiano, lentamente e com cuidado para não errar o caminho (algo improvável, entretanto; o caminho era conhecido por de Portiers que o fazia no mesmo horário e reconhecia os sons e o solo, ao toque de sua bengala), ele se aproximara da pequena igreja quase sempre deserta. Quase sempre. À entrada do templo, o homem parou com sua cabeça pendendo para o lado enquanto procurava o menor sinal de sua costumeira conhecida da comunhão matinal. Em virtude da sua visão, Cedric desenvolvera seus outros sentidos, como a audição; não era uma audição fora do comum, como dos super-heróis do mundo antigo, contudo, era melhor do que a dos demais azuis. Atento ao menor som, fora capaz de identificar uma inspiração profunda; estaria ela (segundo o tom de voz gentil e, aparentemente, feminino) chorando? Não questionou, apenas sinalizando a cruz sobre o peito. “Padre, perdonami, perché ho peccato¹.” Proferira assim que conseguira sentar-se no último banco. Não havia um sacerdote para tomar sua confissão, portanto, confiara que o próprio Deus o faria. A última vez que Cedric se confessara fora no dia anterior; era um costume do franco-italiano, pois, infelizmente, pensamentos impuros invadia sua mente quando ouvia comentários alheios, ou quando pensava demais sobre a própria condição, questionando a Deus porque o havia feito defeituoso.