Você mandou seus pais para o mundo dos sonhos. Você realmente quis fazer isso? Isso foi um acidente? Como você aprendeu isso? O que você sentiu assim que fez e o que você sente ainda hoje, quando pensa no assunto? Culpa ou consciência limpa? Monstro ou vitima das circunstâncias? Conte-nos para nós. Nos esclareça essa história. @seiscentesimoandarpls
Os gritos raivosos da madrasta não deveriam mais incomodá-lo. Afinal, com a frequência que acontecia, a lógica era que o pequeno Hanne, com seus olhos de íris acinzentadas, já houvesse se acostumado com tudo aquilo. Mas a inocência de uma criança não é algo que perde-se assim de um dia para o outro ou mesmo com os anos árduos que começara a enfrentar desde que o pai casara-se com Vivien.
Pela milésima vez na semana, o garotinho encontrava-se sentado numa cadeirinha de plástico que ficava estrategicamente colocada perto da parede para que o mesmo não acabasse no meio do caminho. Os dedinhos mexiam com a camiseta desbotada do Capitão América e a feição entristecida demonstrava a culpa por algo que sequer fora ele que fizera. Toda a confusão por causa de um vaso de barro derrubado no chão pela irmãzinha mais nova mas que, claro, despejou toda a culpa nos ombros do menino. E Hanne aceitava em silêncio. A bochecha esquerda estava cortada com o arranhão que a aliança no dedo de Viven causara ao dar-lhe o tapa no rosto; não era o primeiro que levava, mas ele mal sabia que seria o último, pelo menos da mulher.
As lágrimas manchavam o rostinho que rotineiramente era tão pálido mas que agora encontrava-se rosado do choro baixinho. A madrasta seguia gritando, xingando-o de todas as formas possíveis. “Inútil, você como sempre só faz atrapalhar tudo. Por que Cillian ainda o mantém? Deveríamos ter nos livrado de você quando a Cay nasceu.“ E o pior não era ouvir aquilo, o pior era que o pequeno acreditava em cada palavra dita.
Mas ele só queria que a mulher parasse. Não conseguiu manter o choro baixo daquela forma e logo os soluços começaram, rendendo mais um tapa, dessa vez no outro lado da bochecha e em seguida nas pernas. Hanne então gritou. De todo o coração desejou que isso acabasse, que todos parassem de culpá-lo, de ressaltar seus erros daquela forma e, acima de tudo, que nunca mais o tocassem. A dor que sentia não era nem mesmo provinda dos abusos físicos mas sim de tudo o que tivera que escutar e guardar dentro de si por três anos. Para uma criancinha magricela, o peso já tornava-se exacerbado.
Contudo, para a sua surpresa, a mulher parou.
O silêncio reinou e era quebrado apenas pelos soluços e o choro ofegante do menininho que havia descido da cadeira e se encolhido contra a parede com os joelhos pressionados contra o peito. Depois de alguns minutos naquela posição, estranhou a tranquilidade que se instalara no casa, mas Vivien parecia ter esquecido do pequeno e limpava a sala como se nada houvesse acontecido. A única diferença visível era uma poeira amarelada que pairava em torno da mulher e da irmãzinha; ambas não expressavam estarem sendo afetadas mas a poeira continuava lá. E então, quando o pai entrou em casa, a mesma poeira via-se em torno do homem.
“O que é isso?” a vozinha pequenina e baixa do menininho soou, amedrontado por estar quebrando a regra de não poder falar sem que lhe perguntassem algo. “O que é essa coisinha amarela?” A família ignorou-o completamente, não obteve respostas. Só que isso não era incomum, raramente davam-lhe atenção quando não queria brigar ou dar-lhe correções. Desistindo de tentar descobrir, enterrou sua curiosidade e apenas dirigiu-se para o quarto onde enrolou-se nas cobertas esfarrapadas em busca de entregar-se ao sono. A paz, afinal, só era encontrada quando fechava os olhos.
Mas, no nascer do dia quando o menininho resolveu finalmente descer para tomar o café da manhã, a casa prosseguia tão calma quanto na noite anterior. Isso não fazia sentido. Os risos da pequena irmãzinha podiam ser ouvidos na parte da manhã com o entusiasmo que uma garotinha poderia conter. Ao caminhar no quarto do pai para ver se tinha alguém em casa, encontrou-os dormindo. A poeira amarelada não havia ido embora e nenhum dos esforços feitos para acordar os adultos, funcionava. O pânico surgiu em seu peito fazendo-o ofegar. O que acontecera ali? “Caylen...” O quarto da irmã foi o segundo cômodo visitado mas o resultado foi o mesmo. De alguma forma, Hanne tinha certeza de que isso era sua culpa.
Não havia nada que pudesse fazer pois não entendia nada daquilo. Aos pratos, pegou uma mochila e colocou suas roupas dentro assim como alguns lanches, deixar aquele lugar mostrava-se como única solução. Iriam culpá-lo pelo incidente e dessa vez estariam certos.
Seja lá o que houvesse ocorrido, era sua culpa. Mesmo com dez anos de idade, era um monstro. As perninhas curtinhas e magrelas correram pelo bosque que ficava atrás de sua casa, nunca parando, nunca hesitando. Ainda que as lágrimas ocultassem-lhe a visão correta, ainda que tivesse tropeçado e caído algumas vezes... ele não parava. Quanto mais longe, mais a culpa o corroía. Exausto, o pequeno deixou-se cair no chão. As folhas mortas acalentaram a queda, mas a terra sujou-lhe, não que isso importasse. Hanne já caiu inconsciente naquele solo imundo repleto de lama; indo diretamente para o abrigo que descobrira tempos atrás. Ali sim seria seguro, ficaria bem. Entretanto, mesmo assim, o sentimento perverso de nojo de si mesmo continuava dentro do pequeno coraçãozinho. E, talvez, nunca sairia. Carregaria consigo para sempre.
Vamos, semideus. Nos conte como foi o primeiro sonho, a primeira visão que Belona deu-lhe para testá-lo.
belona’s lessons , parte 1.
wt: mutilação, sangue.
Diferentedos sonhos comuns, aquele era de uma linearidade assustadora. Shade vivenciavaos acontecimentos, como se tivesse inserido no cenário, como se estivesse acordado. Ainda assim, ninguém o via,cruzando através dele, tal como se fosse um fantasma. Passos cautelosos levaramo garoto de pouco mais de onze anos através de um campo de batalha aberto. Os combatentesvestiam-se como guerreiros espartanos, orgulhosos em suas armaduras e elmos,com os escudos levantados a frente do peito, enquanto o gládio perfurava acarne dos oponentes. Por conta disso, o semideus percebeu que não se tratava de nenhuma guerra moderna, mas de conflito histórico, dos tempos em que os deuses ainda eram venerados.
Os homens não importavam-se com o derramamento de sangue humano; pelo contrário, lhes era natural. O líquido vermelho era esguichado aos montes enquanto oHester atravessava o campo, horrorizado em ter de presenciar as cenas. De umlado, um soldado enfiava a espada através do olho do inimigo, quase atravessando-lhe o crânio. De outro, o escudofalhava e a carne era rasgada, expondo as vísceras de alguém, que imediatamenteparava de lutar — diante disso, tudo o que o filho de Belona podia fazer era colocar o que tinha no estômago pra fora, sentindo a azedume do vômito em sualíngua por muito tempo após, mesmo depois de acordado.
Algunsembates eram desleais, e os homens se mostravam verdadeiramente cruéis, não sepreocupando em demonstrar misericórdia. Estavam, afinal, em guerra, e um inimigonão merecia qualquer tipo de piedade. Essa, aliás, fora a primeira lição queShade aprendera com a mãe. A deusa não aparecera para ele no primeiro sonho,tampouco no segundo ou terceiro. O que projetava na mente do rebento serviameramente para educá-lo, para que Shade retirasse, daquela noite e dasposteriores, por conta própria, os ensinamentos que a divindade da guerratencionava passar.
O sol jáse punha no horizonte quando os homens começavam a cessar os embates, seretirando, como se combater fosse umaespécie de trabalho, com data e hora preestabelecidas. Só então o moreno podever o mar de cadáveres deixados para trás, nas posições mais inimagináveis, com todaa sorte de membros decepados. Quando tropeçou numa cabeça, e caiu de cara nastripas de um guerreiro, Shade finalmente acordou, ofegante e com uma camada desuor a cobrir-lhe o corpo — não estava preparado para ver nada daquilo, etalvez nunca estivesse; na realidade, talvez ninguém estivesse. Sentiu, ainda, a umidade no lençol e, ao olharpara baixo, percebeu que também havia esvaziado a bexiga.