Há cerca de quatro anos eu e mais 3 amigos saímos para uma missão que devia ser como qualquer outra, simples e até mesmo fácil se estivéssemos em um dia de sorte, o que claramente não era meu caso. Eu já tinha saído de Nova Roma com a cabeça perturbada após ter feito uma visita de alguns dias a minha mãe e ter começado mais uma de nossas longas discussões. Devia ter limpado minha cabeça disso, manter-me concentrada no que importava no momento, mas parecia impossível, a cada passo que dávamos juntos eu era atolada pelas palavras de minha mãe. Arrependida de ter começado a briga e ter falado tantas coisas ruins a mulher que me criou eu não fui nem mesmo capaz de revidar o ataque do primeiro ciclope que apareceu.
O ar parecia escapar dos pulmões da semideusa que fora lançada contra o chão úmido por um colega, se não fosse por este ela teria sido morta pela maça que a criatura manejava na direção dos três. Jun tentava mover o corpo para se levantar ao ver que o semideus que a salvara fazia o mesmo, seus músculos pareciam pesar dez vezes mais, e o simples ato de se apoiar nos braços para começar a ficar de pé parecia uma eternidade. Tentava desesperadamente reaver o ar em seus pulmões conforme pegava a espada de sua bainha, manejando a mesma com a mão esquerda trêmula, Jun conseguiu se manter de pé. Via ambos os seus amigos lutando conta a criatura e queria fazer o mesmo, parecia que cada parte de sua consciência lhe gritava para que agisse, atacasse, mas o corpo não obedecia, mantendo os pés cobertos por botas sujas fincadas ao chão, sem se mover um centímetro sequer. Os olhos piscavam em uma velocidade enorme conforme a visão se tornava turva, Jun estava com medo, seu corpo estava em um estado de pânico que não testemunhava há longos anos. Pensava ter deixado tal fraqueza para trás mas estava claramente errada. O peito da garota subia e descia em uma forma fora de ritmo enquanto a mesma tentava recobrar os sentidos, começando a dar pequenos passos para trás, a menina nem mesmo era capaz de ouvir os gritos dos colegas que a avisavam do perigo, estes eram abafados pelos pensamentos e o ritmo acelerado do coração da semideusa que parecia ter tomado conta de sua cabeça. Completamente abstraída do mundo ao seu redor, Jun nem mesmo pudera ter uma reação ao ver o braço do ciclope vindo em sua direção, seu único reflexo fora fechar os olhos rapidamente, deixando algumas lágrimas descerem por seu rosto, sentindo o impacto contra o próprio corpo que voara por curtos segundos, acertando em cheio o chão mais uma vez. A essa altura o corpo de Jun já tinha desistido e a garota havia adentrado em uma escuridão infinita, o que a semideusa não sabia é que não sairia de lá.
O pequeno corpo da filha de Plutão se revirava em uma das camas da enfermaria, os olhos apertados indicavam um dos pesadelos que vinha tendo desde a hora que fora trazida ao lugar, completamente machucada e inconsciente como permanecia. Muitos se perguntavam até mesmo como poderia estar viva devida a forma como fora lançada, felizmente seu corpo reagia bem e não demorara para que a garota começasse a acordar, se remexendo na cama com cuidado ela hesitara em abrir os olhos que doíam, mas quando finalmente o fez levou um susto... Não havia nada. Nem uma imagem sequer era formada, inquieta a semideusa usara os braços enfaixados para se ajeitar na cama, tateando tudo ao eu redor ela sentiu algo tocar seu braço, ou melhor alguém. — Se acalme... Está tudo bem, você está segura. — Negava com a cabeça o que lhe era dito piscando os olhos repetidamente esperando que conseguisse ver de uma hora para a outra, logo um nó se formara na garganta de Jun. — O.... O que está acontecendo? Por que não consigo enxergar? Por que não estou vendo nada? — Despejou as perguntas com um tom trêmulo e elevado, tomando conta de si como a angústia que se alastrava por seu peito, tentou se agarrar no colchão, trazendo as pernas para perto de si conforme ignorava a dor liberada nos músculos da mesma. — Você se lembra do que aconteceu? — A mesma voz de antes retornou a falar, e a semideusa respondeu chacoalhando a cabeça que abaixara, mantendo os olhos fechados praticamente implorava para si mesma que aquilo fosse um pesadelo. — O que está acontecendo? — Perguntou mais uma vez apertando mais ainda as mãos contra o colchão macio, pressionando os olhos e os abrindo, só aumentando cada vez mais o pânico. — Pelo que contaram você foi lançada por um ciclope.... Estava bem machucada quando chegou aqui e.... — O outro parou de repente, fazendo Jun respirar fundo, tentando se manter quieta, evitando surtar ou ter mais uma crise. — E o que? — Perguntou de maneira firme, quase que exigindo uma resposta do desconhecido. — Você bateu sua cabeça com muita força... Teve uma hemorragia e sofreu danos ao nervo óptico, infelizmente isso resultou na perca de sua visão. — A notícia era óbvia, mas a semideusa precisava de um tipo de confirmação e quando a teve parecia que uma pequena parte sua havia se quebrado. Um momento de desatenção, uma crise levara a isso... Agora era inútil, não saberia lutar, não poderia ler ou ver os outros, seu mundo era um completo breu. Jun rapidamente percebeu as lágrimas escorrendo de seus olhos, levando a mão com cuidado ao mesmo começou a limpá-las, mas por algum motivo elas não paravam de escorrer, uma atrás da outra enquanto a garota piscava, abrindo os olhos inúmeras vezes para uma infinita escuridão. Era tudo culpa dela, havia errado quando não podia e agora a única certeza de Jun era que não passava de uma inútil, uma decepção.