Tão absorta na competição que se instalou na escola, Mina não percebeu que os dias andavam depressa, que as datas corriam e que a lua se aproximava. Foi tão fácil mergulhar numa rotina de treinos com os amigos, estudos, pesquisas na estufa e acrescentar os debates, a divulgação para Beauxbatons naquele torneio, que a loira simplesmente esqueceu do que para si era algo sagrado. Olhar o calendário.
Mantinha um calendário preso na parte interna do baú na ponta de sua cama, onde guardava os livros e algumas roupas que precisavam ser facilmente alcançadas. Todas as vezes que o abria, dava de cara com o calendário lunar e com o lembrete de que os dias de se afastar das atividades escolares estava chegando. Continuar a estudar na academia de magia tinha seu preço, necessitava manter o controle do calendário e ter a certeza de que não colocaria em risco o segredo que tanto trabalhou por anos para esconder.
Se fosse um garoto, aquele processo provavelmente seria mais fácil; seus primos não precisavam esconder das pessoas a licantropia, as tendências lupinas ou qualquer outra ligação com lobisomens. Mas Mina? Uma garota licantropa? Seria perigoso, seria escandaloso. Suas primas e tias nunca demonstraram mais do que uma inclinação para as tendências. Uma visão ou um olfato melhor, mas mudar a cor dos olhos? Sentir todos os efeitos que seu pai, um dos poucos em sua família que consegue fazer a transformação completa, alega que sentia na adolescência… Não. Isso seria desastroso.
Acontece que sua distração com a competição teve um preço. Um preço alto. O esquecimento fez com que não desse importância para o incômodo da enxaqueca, associando isso à noite mal dormida produzindo uma poção. O que Mina não esperava, no entanto, era que, enquanto conversava com Niklaus após uma das aulas da parte da manhã, o rapaz soltasse um suspiro surpreso. A loirinha, confusa, só percebeu que aquele espanto tinha sido por sua causa, quando o próprio estudante disse num sussurro… "Seus olhos estão amarelos." e, de fato, não deveria ter se surpreendido.
A mudança das íris azuis para a cor amarelada acontecia agora com facilidade, sem mais aquela dor nos olhos como foi a primeira vez anos atrás. Agora apenas a dor de cabeça já era o suficiente, e Mina simplesmente esqueceu-se disso. Um pedido de desculpas apressado foi proferido para o colega, coletando seus pertences e se afastando com rapidez. Os olhos foram mantidos no chão, conseguia ver bem pela visão periférica, mas a forma ligeira que caminhava e o fato de manter os olhos baixos, impediam as pessoas de se aproximarem. Trancada em segurança no quarto, tinha que se acalmar e pensar no que poderia fazer agora que estava refém dos sintomas. Como uma zombaria do destino, o baú tinha ficado aberto de manhã quando saiu atrasada. O calendário com o dia circulado em vermelho indicava claramente o que havia perdido. Os dias da lua cheia começaram.
Querido diário… ah, foda-se, não preciso começar, assim, preciso? Abraham não começou com essa idiotice, então também não começarei. Pena, risque isso… não, não era pra escrever isso, ah vá se foder. Enfim.
Quando comecei a mexer com a caixa que encontrei no sótão de casa, não sabia que iria me deparar com tantas… coisas estranhas. Parece que a cada folha, eu fico mais e mais perdida! Urgh! Por que minha filha tem que ser tão… estranha e enigmática? Misturar idiomas, usar códigos, Abraham queria esconder alguma coisa, isso era claro, mas o quê? Pena, eu deveria falar as coisas que podem ser perigosas e eu que eu deveria manter só na minha mente? Hm, preciso colocar um feitiço de proteção nesse diário. Posso estar sozinha aqui agora na enfermaria, mas e se alguém pegar esse caderno?
Mas continuando! O pior não é que as perguntas continuam a surgir e as respostas se tornam cada vez mais escassas, não. O pior é que a carta tinha razão, eu não posso desvendar tudo sozinha. Mas quem disse que eu confio nessas pessoas? Por Noble! Como posso confiar em pessoas que, se eu piscar, podem me dar uma rasteira? Céus, a carta diria que eu estou sendo idiota e desconfiada demais, mas ela é uma carta, o que ela sabe sobre seres humanos? E agora eu estou aqui, tagarelando pra tentar organizar meus pensamentos mas realmente me sentindo imbecil de fazer isso em um quarto sozinha.
O fato é, eu estou com medo. As coisas... as coisas que estou descobrindo, parecem surreais. Abraham não deveria ter um diário falando sobre a família dele na época, sobre a alcateia. Ele se dizia ser um ômega, sabe? Meus familiares nunca disseram isso. Eles diziam que ele era um alfa que se desviou muito do caminho. Que ele era ruim. Mas até agora eu não encontrei registros disso. Tudo o que encontrei foram... sinais de que ele mexia com o que não deveria. Eu estou realmente com medo, diário. E se tudo for uma mentira? E se essa... licantropia, é mesmo uma maldição? Quer dizer, claro que é uma maldição, mas, sabe, e se foi... e se ele procurou isso? E o que irei ver naquelas memórias dos frascos? Eu nem sei se quero ver aquilo! Sabe-se lá o que Abraham achou de tão importante para guardar assim.
O silêncio perdurou no quarto por alguns segundos antes de Mina suspirar e lançar um finite incantatem para encerrar o feitiço que antes lançou na pena para que esta escrevesse tudo o que dizia para o diário. Os olhos azuis - sim, ainda usava lentes, não podia se dar ao luxo de ficar sem elas dentro da enfermaria - encaravam o teto de maneira pensativa. Já não sentia tantas dores ou aquele mal estar irritante de quando pisou ali no primeiro dia da lua cheia, então a energia parecia retornar aos poucos como acontecia quando a lua ia mudando sua fase. A mente mais limpa, os dias vazios e tão solitários, deixavam-lhe com os pensamentos correndo a mil. Pelo menos dessa vez tinha os problemas com o assunto de sua maldição para se preocupar; sabia que essa era sua prioridade. Era nisso que precisava focar e em nada mais.