SEMIGOSPEL #002 - CAPITAL INICIAL E A CAPACIDADE HUMANA DE [NÃO] SE ENXERGAR NXS OUTRXS
(créditos: Fernando Hiro)
Foi em 2002, no álbum “Rosas e Vinho Tinto”, que o Capital Inicial apresentou essa, que é minha música predileta deles. “Quatro Vezes Você”, cujo título já é bem autoexplicativo, traz quatro personagens que não são exatamente a gente, mas bem que poderiam ser. Dinho Ouro Preto, cheio de tiques na voz, nos apresenta a quatro jovens: Rafaela, Carolina, Gabriel e Mariana. Aparentemente problemáticos, certamente imperfeitos, e definitivamente passíveis de identificação. As histórias deles podem até parecer diferentes da minha e da sua, mas não se deixe enganar: essa é apenas a superfície. Veja só que letra bacana:
Rafaela está trancada há dois dias no banheiro Enquanto a sua mãe, Toma Prozac, enche a cara E dorme o dia inteiro Parece muito mas podia ser
Carolina pinta as unhas roídas de vermelho Em vez de estudar Fica fazendo poses Nua no espelho Parece estranho mas podia ser
O que você faz quando Ninguém te vê fazendo Ou o que você queria fazer Se ninguém pudesse te ver
Gabriel e a namorada se divertem no escuro E o seu pai Acha tudo que ele faz Errado e sem futuro É complicado mas podia ser
Mariana gosta de beijar outras meninas De vez em quando Beija meninos Só pra não cair numa rotina É diferente mas podia ser
O que você faz quando Ninguém te vê fazendo Ou o que você queria fazer Se ninguém pudesse te ver
Bora analisar a letra, então. Por que Rafaela tá trancada no banheiro? Será que ela está tão dopada e inconsciente quanto a mãe, numa dobradinha alucinógena feito a do filme “Réquiem para um Sonho”?
E Carolina, hein? Qual é o problema da menina insegura que pinta as unhas para disfarçar o estrago que sua ansiedade faz? O que a preocupa tanto, a ponto de ela se refugiar em própria sensualidade, explorando-a sozinha, na segurança de sua privacidade? Fico pensando em como seria a vida dela fora do quarto.
Tem ainda o Gabriel, coitado, que de tanto ouvir do pai que ele é um fracassado, resolveu assumir a carapuça e se entregar de vez ao hedonismo... O pior bullying é o que vem dos pais. Já experimentei muito disso na minha infância e me marcou demais. Não tenho como não sentir empatia pelo Gabs. Quando a gente fica ouvindo vez após vez que não tem futuro, vai fazer o que a não ser cair de cabeça no hoje? Eu sei que não é a mais defensável das terapias, mas o cara tá apenas trocando um par de lágrimas por um par de peitos. Sexo como escapismo. Quem nunca?
E o que dizer da Mariana? A poesia sabiamente não a coloca como coitada (se bem que nós facilmente poderíamos vê-la dessa forma). Ela apenas está explorando sua sexualidade. Fico imaginando se a Mari pegar garotos sazonalmente não seria algo estratégico... Vou explicar: estaria ela agindo como tantxs homossexuais que - para serem mais palatáveis ao grande público - acabam se definindo como bissexuais? Nesse tipo de abordagem, a pessoa acaba se colocando como “não tão gay” para ampliar sua margem de segurança e ouvir menos porcaria dxs preconceituosxs de plantão. E sim, isso existe!
[e não, o assunto da coluna não é a sexualidade da Mariana, e muito menos sua legitimidade cristã. Por sinal, hoje é o Dia Internacional do Combate à LGBTfobia. Bora espalhar amor, respeito e reconhecimento à liberdade alheia?]
Na história da Mari, fechando a canção, Dinho conclui: é diferente, sim, mas podia muito bem ser o que você faz quando ninguém te vê fazendo, ou ainda o que você faria caso ninguém pudesse te ver. Interessante, né? Da primeira vez em que ouvi a música, pensei que estes versos do refrão eram perguntas. Depois, analisando a letra visualmente (áudio sempre dá uma enganada), entendi que eram afirmações, isso sim. Porém, o questionamento está implícito: o que você faz quando ninguém te vê fazendo? O que você queria fazer se ninguém pudesse te ver?
Olhando de perto, todo mundo traz algo de estranho em si. Entretanto, olhando também de perto, todo mundo nem é tão estranho assim. Somos complicadxs. E, no escuro, longe da vista das outras pessoas, somos ainda mais complicadxs. “Quatro Vezes Você” traz uma mensagem fofa de tolerância, num primeiro momento, mas em seguida dá uma porrada forte bem no meio do peito: se somos iguais é porque somos todxs um poço de problemas e complexidades. No escuro, quando nos olhamos a fundo, sozinhxs e nus em frente ao espelho, vemos tudo aquilo que lutamos pra esconder do mundo durante o dia. Como Carolina, nos despimos das vaidades para então enxergarmos - para o bem e para o mal - quem somos de fato.
E pior do que pensar naquilo que fazemos na segurança de nossa solitude (ou solidão mesmo haha), é pensar naquilo que poderíamos fazer se ninguém - ninguém de fato - pudesse descobrir os nossos atos. Experimentos sociais estão aí para não me deixar mentir: a maioria das coisas que faríamos caso fôssemos “invisíveis” possuem traços de crueldade. Temos uma tendência [escandalosa!] para o mal. Talvez por isso seja tão difícil assumir isso para geral. É que nós sabemos que se fosse a gente sabendo desses podres, certamente faríamos um estrago na vida da pessoa. Pois é.
Então porque raios a gente tem tanta dificuldade em ver normalidade nxs outrxs?!?!? A gente julga as atitudes e o lifestyle alheio, critica até não querer mais, faz fofoca, faz piada.... Sendo que aquilo tudo a gente - no fundo, no fundo - adoraria viver. Sabe o nome disso? Hipocrisia. É, Dinho, você me enche de culpa.
“Quatro Vezes Você” me leva para Mateus 7: Não quer ser julgadx? Oxe! Então não julgue! Vocês serão julgadxs pelo modo como julgam xs outrxs. O padrão de medida que adotarem será usado para medi-lxs. Simples assim. Tipo... Por que você se preocupa tanto com o cisco no olho de fulanx enquanto há um tronco em seu próprio olho? Como pode dizer a fulanx: ‘Péraí, deixa eu te ajudar a tirar esse cisco daí’, se você não tem cacife nem para ver o tronco enorme que tá atravessado no seu olho? Vá se enxergar! Primeiro, livre-se desse maldito tronco; aí depois você se apressa pra cuidar do olho de fulanx (até porque vai estar enxergando melhor, né).
Todxs temos coisas nossas a esconder; todxs temos coisas de outrxs a aceitar. Todxs temos coisas nossas a aceitar; todxs temos coisas de outrxs a esconder.
E é isso, por hoje. Nos vemos nas terças e outros dias por aqui, no QBH. Aquele abraço! E feliz Dia Internacional do Combate à LGBTfobia!
Lucas Schultz







