busca pela instância abstrata
caro sem_nome, preciso que você seja novamente o meu veículo.
meus mundos estão se convergindo e as circunstâncias de minha vida estão me apontando para uma nova jornada.
os objetos possuem mais de uma faceta. é difícil dizer o que está acontecendo pois o sim é não, amor é ódio, o não-ser é e todos os vice-versas.
comentei no último texto sobre o desejo de viver uma vida que eu possa sustentar, sobre ser verdadeiro e todas as coisas que me pesavam, coisas que estou tentando deixar para trás agora.
outro comentário foi sobre o pressentimento de perder o medo de me ver isolado, o grande norteador de muitas de minhas ações em vida.
preciso te mostrar isso: acredito sim no senso de comunidade e união. acredito que as conexões que mantemos com as pessoas são muito valiosas e potentes. mas vejo que elas se mantém até um certo ponto.
há um ponto em cada um, uma fronteira.
além dessa fronteira, só o indivíduo consegue compreender, dizer ou ver o que se passa.
estou nomeando o que está além desse ponto como uma instância abstrata.
estou usando esse nome apenas de modo temporário. estou tentando me conectar um pouco mais à essa instância.
uma música de uma artista em particular, “ionnalee; i KEEP”, tem me feito refletir sobre esse hábito de me esquecer de mim. estive pensando como tantas coisas têm me alertado para essa importância de pensar em si mesmo.
confesso que nem sempre compreendi o quão grande isso era, na verdade.
essa lembrança-de-si está afetando muito meus pensamentos e posicionamentos sobre várias questões. a lembrança-de-si me parece intimamente ligada à invenção-de-si.
não apenas preciso lembrar de mim em eventos e ocasiões sociais, preciso lembrar que esses eventos compõem a história de um ser que está se inventando e se construindo.
estou pensando muito, novamente.
cada ação que eu tomo, cada fazer, cada desejo e as ambições - até as ambições que não quero admitir que tenho , estão sendo repensadas em relação ao propósito que servem.
no início de minhas divagações sobre a instância abstrata, percebi que essa instância precisa ser mais influente em minhas decisões. observando meu passado e as coisas que fiz até aqui, estou perdendo a habilidade de pensar nessa instância e então estou me vendo em finais não muito felizes para mim.
então, se eu entrar em contato com essa instância, acho que posso produzir aprendizados muito importantes e me construir como uma pessoa que alcança a vida verdadeira, sustentável e sincera. desapegar do que quero desapegar e tudo isso.
minhas esperanças estão colocadas em mim novamente, e estou agora divagando sobre o que está além dessa fronteira.
preciso alertar que não estou falando necessáriamente sobre autoconhecimento. estamos sempre mudando, então acho que o que está abrigado na instância não necessáriamente é algo que não muda.
agora, vamos discutir um pouco sobre os eventos presentes.
desisti de procurar um lugar para mim em um mundo que não me pertence e admiti minha insatisfação quanto aos dois mundos em que estou físicamente presente.
estou tentando me sentir um pouco mais conectado a mim mesmo e prosseguir com a invenção-de-si de forma externalizante, pois quero ver o que se reflete - aqui aponto a arte como uma potente ferramenta de externalização.
no fim do mês passado, decidi cortar meu cabelo.
como disse antes, o que está na instância abstrata somente a pessoa entende.
eu preciso confessar que esse corte me despertou várias reflexões e acredito que ele me aproxima da instância.
eu estava com o cabelo bem grande, não o cortava hà meses. foi um momento de experimentação em vários momentos, o blog está aí para provar isso. e com certeza eu refleti esse movimento, essa mudança, por meio do meu cabelo.
eu cortei meu cabelo na máquina um.
o momento de cortar o cabelo nem sempre teve o mesmo significado para mim. desde criança até um certo momento na adolescência/jovem adulto, eu não era um fã de cortar o cabelo.
quando criança, me lembro dos meninos falando que eu era careca, carequinha e esse tipo de coisa. adolescente, eu me incomodava um pouco, por que alguns meninos podiam fazer infinitas coisas com seus cabelos e a única possibilidade que eu enxergava para mim era a máquina um.
felizmente, eu comecei a experimentar um pouco com meu cabelo, aos 18 anos, eu creio. dedo liss, tranças e até mesmo aquele cabelo gigante, algo que eu sempre quis ter.
ok, não era tãaaao grande, mas estava em seu ápice. eu penteava e ele ficava bem volumoso. meu eu quando criança ou adolescente nunca pensou seu cabelo daquela forma.
eu sei quee pra você pode ser apenas estética, mas estou começando a significar essa estética porque ela diz algo sobre mim, é uma linha que está me compondo.
o cabelo da grandeza refletia um momento de transformação e movimento. das potências de uma vida inexplorada, as novidades em um mundo desconhecido e cheio de possibilidades. um momento tão doce que renorteia um passado de fuga, isolamento e dificuldades para se aceitar.
então, aos poucos, eu percebi que a frustração ainda estava ali. eventos e eventos em uma cadeia que me levou ao sentimento de frustração que relatei ultimamente no blog.
esse senso de não pertencer aos mundos, lembrar que em ambos eu quis estar e sentir que de fato não há lugar para mim.
esse sentimento não me é estranho, mas eu sei que no passado vários eu’s tiveram que atravessar suas jornadas apesar do sentimento permanecer.
eu sempre cortei o cabelo, mas era apenas porque meus pais me pediam que eu o fizesse. não era algo que eu queria muito ou fazia questão, pelo menos que eu me lembre.
era estranho me olhar no espelho, sentir que havia algo faltando ali - e claro, o desconforto em relação a proporção da minha cabeça e meu corpo.
mas quando eu me vejo com esse cabelo pós-maquina um e olho para os meus eu’s do passado, eu consigo sentir que estamos um pouco mais iguais.
esses eu’s atravessaram frios invernos e se mostraram fortes. apesar do sentimento de isolamento, conseguiram levar suas jornadas e hoje estou aqui graças a cada um deles.
reunindo todas essas variações de mim em um mesmo ambiente. olho para nós e penso que fizemos algo que não desejávamos, mas precisávamos fazer.
você precisa fazer o que precisa fazer.
para fazer o que você precisa fazer é necessário ignorar o que você deseja fazer.
a máquina um me conecta ao passado. pensar no corte me traz lembranças desses vinte anos na terra e da constância dessa narrativa “eu quero estar com você, mas para isso eu terei que ser outra pessoa”.
mas dessa vez, foi diferente.
neguei por meses o pedido de meus pais e os comentários que recebia de parentes e até pessoas.
- seu cabelo está grande.
- quando você vai cortar o seu cabelo?
é engraçado, eu não me identificava tanto com o meu cabelo grande, então decidi cortar.
o mais engraçado foram as reações. algumas pessoas ficaram “pq vc fez isso?”, uma amiga e alguns primos pequenos quando fui visitar meu tio.
meu pai abriu um grande sorriso quando me viu de cabelo cortado e minha mãe me deu um abraço. na casa do meu tio, ele disse que gostava mais do meu cabelo assim, a esposa dele confirmou isso também.
me lembro que meu tio disse que meu cabelo não estava bonito como estava antes.
eu escolho retornar. eu fiz o corte máquina um para retornar
eu gostei de ter feito o corte.
estou pensando inclusive, em cortar máquina zero na próxima vez.
meu cabelo está crescendo de novo e já penso que quero cortá-lo assim que for o momento.
eu me sinto bem com meu corte, ele ganhou um novo significado.
ele agora é sobre o início de um novo caminho, um caminho que estou construindo, um caminho para a minha singularidade e para ser o que eu quero ser.
meu cabelo agora me resgata à força dos meus eu’s antigos e posiciona no presente a força para continuar, apesar do passado que ele rodeava.
estou abrindo mão de algumas coisas. estou me despindo e me desmontando.
acho que não sustento mais tudo o que eu carrego.
não quero mais carregar tantas coisas.
quero carregar apenas o essencial.
estou querendo uma bolsa nova, ela é menor e carrega menos coisas.
estive pechinchando roupas das cores preto e branca, assim como acessórios que sinto vontade de usar: colares, pulseiras, braceletes...
convenci meu pai a compar um mp3 pra mim há tempos atrás, agora só preciso de um cartão de memória e vou poder voltar a ouvir música fora de casa depois de quase um ano em silêncio em horas diárias de viagens em ônibus.
um estojo novo e uma carteira também estão entre as coisas que quero adquirir. quero centralizar meus documentos e ter um lugar bom para guardar dinheiro e não perder mais notas em bolsos furados ou mãos desastradas.
e eu realmente preciso de bermudas novas porque todas estão com rasgos.
eu me sinto como se estivesse fazendo as coisas que desejo. sinto que dessa vez pode ser diferente. mesmo que seja com coisas bobas.
e tenho mais coisas para arrumar.
me sinto colocando ordem em um quarto desarrumado.
as coisas ocuparão o lugar que eu as ordenar.
e eu sei que elas ocuparão lugares que eu possa sustentar. basta arrumar uma maneira.
eu acredito em uma maneira, eu acredito que há um caminho.
eu estou buscando a instância abstrata.