Somos eternos gravadores de momentos. Ainda me recordo do cheiro do café forte que vinha da cozinha quando ela acordava. Sabia que era hora de acordar e que precisamente eram nove da manhã. Ela sempre deixou claro que dormir era muito para quem tinha a mente ansiosa e o coração acelerado. Ainda lembro dos olhos pequeninos, os cabelos curtinhos e um jeito de “ei amor, acorda logo pra me dar meu abraço” no olhar que me faziam paralisar e admirá-la no cantinho da porta todas as vezes e ouvir sempre a mesma frase:
— Seu café é tão amargo quanto você. Como consegue? — meu sorriso aparecia de imediato e uma linha curvilínea fingindo indignação surgia nas grossas sobrancelhas — Você é muito estranho, mas sabe, se você fosse normal, acho que não teria chamado tanto a minha atenção. Anda, senta e fala o que a gente vai fazer hoje, você sempre tem um lugar novo pra explorar…
E ai ela tagarelava. Acabava que eu soltava três ou quatro frases e o resto quem falava era ela. Falava sobre o medo de errar a roupa no evento, em sobre um dia casar com um homem qualquer pra ser a nova presidenta do Brasil, nessas horas eu gargalhava e ela vinha de encontro a mim, reformulava a frase e dizia que eu seria o novo Ministro da Educação. Talvez da Ciência. A única coisa que ela sabia era que chegar ao poder não era tão importante quanto estar comigo. Achava graça por eu não me importar dela casar com outro alguém e, ali acho que ela entendeu que eu também sabia que ela me amava tanto quanto eu a amava. Que as nossas almas rodariam a eternidade e se instalariam no mesmo lugar. Ela me beijava a face e o que era um café da manhã, se tornava palco de putarias incessantes e sorrisos sacanas. No balcão, no sofá e no chuveiro. Essa era a forma dos nossos corpos se completarem e matarem a saudade tênue que marcava dois seres. E hoje, passado algum tempo, volto sempre à cozinha esperando seu chamado que continua igual. A aparência é diferente, os sonhos iguais e alguns traços já são mais fortes que antes. Alguns fios brancos a mais, apesar da pouca idade, vivem a aparecer todos os dias nos meus cabelos. Talvez esteja sendo precipitado, mas não imagino essa história tendo ponto final, até por que, ela é escrita de reticências. Quero e desejo com todas as forças, que a gente continue dando certo. Sempre certo, tão certo que não dê tempo de dar errado. E se der errado, a gente tenta fazer dar certo de novo.
Pois eu sei, no meu íntimo, na alma e nos meus olhos, que ainda que eu queira ir, ficar sempre será a melhor escolha quando se trata de você.