Jornal do Brasil - Sérgio Cabral - 17/1/1961
Ao concluir nosso trabalho sôbre a Escola de Samba Deixa Falar, a primeira do Brasil, não poderíamos deixar de falar sôbre a sua figura mais famosa, que é, sem dúvida, o compositor Ismael Silva, que em 1960 voltou às suas atividades de sambista obtendo o título de Cidadão Samba.
Ismael nasceu em 14 de setembro de 1906, em Jurujuba, Niterói, mas aos três anos de idade já morava no Estácio de Sá, onde, bem novo ainda, se destacou como um dos melhores sambistas. Ao colaborar na fundação da Deixa Falar, já era um nome mais ou menos conhecido no meio radialista, pois em 1924 vendeu a sua primeira música a Francisco Alves, por cem mil réis. Foi o samba Me Faz Carinho, cuja letra é a seguinte:
Você não me faz carinho
Seu prazer é me ver aborrecido
Ora vai mulher
Se está contrariada
Não é obrigada
A viver comigo
Se eu fôsse homem branco
Ou por outra mulatinho
Talvez tivesse a sorte
De gozar o seu carinho
A maré que enche e vaza
Deixa a praia descoberta
Vai-se um amor, mas vem outro
Nunca vi coisa tão certa.
Quando Ismael vendeu êste samba a Francisco Alves, nem o conhecia pessoalmente.
Ambos só se conheciam de nome. Um dia, Ismael Silva estava internado em uma casa de saúde, quando lhe apareceu um rapaz dizendo ser enviado de Francisco Alves e que pretendia comprar um samba. Ismael cantou vários sambas para o rapaz que escolheu Me Faz Carinho, e o negócio foi fechado.
O compositor, porém, só foi conhecer Francisco Alves numa noite de 1927. Estava sentado no Bar Apolo, no Estácio, em companhia de amigos, quando chegou um carro e dentro dêle Francisco Alves. Chico fêz Ismael cantar todos os seus sambas. Quando terminou, às 5 horas da manhã, o cantor propôs gravar tôdas as músicas do compositor com a condição de aparecer também como autor. Ismael concordou, mas disse que antes teria de consultar Nilton Bastos, seu parceiro. Êste gostou e daí em diante surgiram vários sucessos, e o trio, para efeito de gravação, ganhou o nome de Bambas do Estácio. Em 1932, com a morte de Nilton Bastos, Ismael fêz alguns sambas com Noel Rosa e, aos poucos, foi abandonando o rádio. Tanto que, em um programa de 1939, o radialista Almirante, ao citar Ismael Silva, disse que êle como compositor - mesmo para os seus amigos - ''não dava mais no couro''.
Embora com a morte de Nilton Bastos, Ismael tenha declinado um pouco, não se pode dizer que êle esteja acabado. Basta verificar que em 1948, muitos anos depois de ter gravado o seu último samba, lançou o excelente Antonico, que marcou a estréia no rádio do cantor Alcides Gerardi. Mesmo agora, Ismael tem dezenas de bons sambas e marchas.
Ismael Silva contou que, num dos últimos carnavais, estava assistindo ao desfile das escolas de samba, quando a polícia, de cavalo, empurrava o povo, inclusive êle. Enquanto era empurrado e algumas borrachadas sobravam para êle, pensava em pedir um pouco de respeito porque foi fundador da primeira escola de samba do Brasil, e que tudo que se vê nos carnavais atuais, em matéria de escolas, é fruto do seu trabalho e de mais alguns que ficaram esquecidos.
Heitor dos Prazeres
O compositor Heitor dos Prazeres também participou da fundação da Escola de Samba Deixa Falar. Mas não desfilou nenhuma vez porque nessa época já pertencia ao rádio e não tinha tempo para participar dos ensaios. Como Ismael Silva, participou do lado de fora da corda.
Heitor foi um dos fundadores da Escola de Samba Estação Primeira, de Mangueira, e o principal responsável pela fundação da Escola de Samba Portela. O seu nome era tão ligado às escolas de samba que, certa vez, ao visitar São Paulo, encontrou duas escolas, criadas em sua homenagem. As duas se multiplicaram e hoje são encontradas centenas delas em São Paulo.