Conto I
Aqui está o primeiro conto! Conto sobre o Borys e Sieglinde na época em que o Baratheon estava como protegido em Dorne. Conto escrito por @holtzm-ann .
Borys Baratheon sentia-se como um peixe fora d’água.
Segurando a haste longa da arma que suas mãos estranhavam seu humor não era dos melhores, estando numa posição de inexperiência em combate, que era uma das poucas coisas das quais podia orgulhar-se em ser talentoso. Estacado no meio do pátio do Palácio Antigo, mantinha os olhos fixos em seu oponente, que portava a própria lança com a mesma naturalidade com a qual portaria um talher durante o jantar.
E, de fato, Benjicot o encarava como se fosse seu almoço, fazendo Borys cerrar o maxilar diante da óbvia condescendência com que era tratado.
Eram observados por todos os pares de olhos Martell possíveis, salve os da própria Princesa que estava ocupada com seus afazeres, e ele não queria ser humilhado daquela forma na frente da família que o recebia. Àquela altura, ele não era um absoluto desastre no manuseio da arma dornesa, afinal, faria uma volta de lua desde sua chegada à Lançassolar – uma volta de lua em que, todos os dias, sem exceção, ia ao pátio junto ao herdeiro de Alto Ermitério e ocasionalmente de um sujeito Targaryen, ambos na mesma condição que ele de protegidos de Selaena Martell – ainda que o último preferisse muito mais estar nas costas de seu dragão Tessarion, alcunhada Rainha Vermelha, à manejando uma lança com os companheiros. Mas desde então o máximo que aprendera havia sido como perder da maneira mais digna possível do Dayne, que nascera com as artes de luta dornesas em seu sangue.
Movendo-se no mesmo passo que Benjicot, num movimento circular contínuo em que mantinham uma distância segura um do outro, Borys decidiu que já era hora de ensinar ao ruivo arrogante o sabor de seu próprio remédio. Por isso avançou, o passo e o braço firmes, estocando o sujeito no ombro desprotegido. Os dorneses eram um povo estranho, não adeptos à proteção de armaduras, usando nem mesmo couros. E antes de chegar em Lançassolar, Borys os caçoava pela tolice como qualquer outro cavaleiro westerosi. No entanto, ao cruzar a fronteira entre as terras da tempestade e o território dornês, inteiramente vestido de cota de malha e aço polido, reviu suas concepções ao ser quase cozinhado vivo dentro das próprias roupas.
Desde que entrou pelos portões do Palácio Antigo naquele dia fatídico, quase inteiramente despido, Benjicot não o havia deixado em paz, fazendo chacota de sua cara continuamente enquanto o Baratheon lutava para se adaptar à cultura e costumes desconhecidos daquela terra estranha e hostil. Os homens eram violentos, as mulheres peçonhentas e lascivas, e Borys desgostava deles tanto quanto desgostava de Benjicot. Para completar seu desespero não havia nenhuma outra pessoa até então que poderia chamar de amigo, salve o perjuro Dayne.
Que, aliás, deslizou para fora do alcance de sua lança com a mesma suavidade com que daria um passo de dança. O ruivo manejava a própria arma no ar, rodopiando-a graciosamente, enquanto Borys penava para manter o foco em para onde ia sua ponta. Ele lhe deu um sorriso zombeteiro quando impediu seu ataque seguinte, chocando as hastes uma com a outra. As lâminas tiniram uma segunda e terceira vez conforme o Baratheon, cada vez mais furioso, defendia desajeitado as investidas de Benjicot.
Quando sua raiva explodiu, o herdeiro da Tempestade deu um passo firme em direção ao adversário, mirando a ponta da lâmina bem em sua garganta. Mas antes que pudesse alcança-lo deu um salto para trás quando uma flecha passou rente a seu rosto, cravando-se em um dos bonecos de palha que os mais novos usavam para praticar.
Os dois rapazes se viraram ao mesmo tempo, sobressaltados e bravos com a interrupção de seu confronto. Com o sol batendo forte no rosto, Borys só conseguiu distinguir uma figura esguia e vestida de couros de treinamento na borda do pátio, com os dedos ainda na curva do arco que segurava. Caminhando com passos largos e irritados foi em sua direção, segurando a lança com força.
O sujeito recuou, intimidado com a raiva que certamente viu em seu rosto, mas antes que Borys pensasse em qualquer coisa o cabo da lança de Benjicot cortou seu caminho.
Com um sorriso jocoso, ele advertiu:
— Acho melhor não, Baratheon. Eu não mexeria com essa se fosse você.
Essa?
Borys piscou, sentindo a fúria anterior arrefecer quando reconheceu o rosto que o encarava, sobressaltado. O cabelo tinha sido recentemente cortado na altura do queixo, por isso ele havia pensado que se tratava de um homem para começo de conversa. Nas vezes em que a tinha visto, até então só nas refeições que a família Martell dividia com seus hóspedes e homens mais fiéis, os cachos iam até sua cintura. Mas os cílios longos e os lábios largos só podiam ser de uma garota. Da garota.
— Princesa. — Borys praticamente bufou o cumprimento, consertando a postura hostil com um aceno educado. Encarou-a de cima, ainda um pouco consternado com a altura que ela exibia mesmo sendo tão nova e sendo uma mulher.
— Sor Borys. — ela abriu um pequeno sorriso, parecendo achar graça da sua irritação, mas foi educada o suficiente para não caçoar dele assim como todos os outros naquele lugar pareciam fazer. — Ben. Achei bom interromper seu combate antes que você fosse empalado pelo nosso convidado.
Benjicot riu, abandonando toda a raiva que parecia sentir por ter sido interrompido no meio do treino.
— Sabe muito bem que ele não conseguiria fazer isso nem se quisesse, Sif.
— Não sei, ele realmente parecia querer sua cabeça numa estaca um minuto atrás. — a garota se voltou para Borys, que tinha cruzado os braços sobre o peito. — Não que eu possa culpa-lo. Eu mesma já quis fazer isso algumas vezes.
Suas palavras fizeram o Baratheon sorrir. Um pouco.
— Tudo isso uma clara demonstração de seu afeto por mim. — o Dayne continuou a cutuca-la com seu sorriso cortês, sem muito sucesso. Sieglinde só olhou-o de cima abaixo com um olhar que fez até Borys se sentir desconfortável e murmurou:
— É claro. — Sua fala foi seguida de uma salva de palminhas que vieram do outro lado do pátio, onde as outras crianças Martell descansavam e os observavam de debaixo de uma tenda. As mãos que batiam as palmas empolgadas pertenciam à Taryne e Elrie, as gêmeas, mas a garota do meio, Jaelyn, também parecia se divertir com a cena mesmo com o irmão recém-nascido nos braços.
— Foi uma apresentação e tanto. Mas acho que é hora de parar por hoje. — Ben disse, finalmente desistindo de perturbar a Martell mais velha e dando tapinhas no ombro de Borys. — Você se saiu bem, Baratheon. Só não deixe a raiva consumir você. Um pouco de raiva é bom numa batalha, muita pode deixa-lo cego.
— Não creio que essas palavras estão saindo mesmo de sua boca, Ben. — alfinetou Sieglinde, sem conseguir se segurar.
Ele a ignorou, caminhando para fora do pátio assim que Borys acenou para ele.
— Espero que possa me desculpar pela interrupção, Sor Borys. — o estrangeiro encarou-a, buscando algum traço de ironia em sua voz, mas não achou nada. E isso o pegou despreparado.
Coçou o queixo, envergonhado ao pensar a maneira como tinha avançado nela mais cedo, com uma fúria sanguinária que ele sabia que não tinha nada haver com ela, e sim com as próprias frustrações de viver num lugar em que não parecia se encaixar.
— Não precisa pedir desculpa. — disse, por fim, pigarreando para limpar a garganta. — Eu é quem devo me desculpar, imagino, por...
—... Querer me empalar com a lança? — ela sugeriu divertidamente. Ele piscou. Então ela o ajudou, tendo a delicadeza de uma dama westerosi ao dizer: — Não se preocupe com isso. Eu vivo aqui há mais tempo que você.
Borys sorriu aliviado por ela ter tirado dele a obrigação de contornar a situação constrangedora enquanto saíam de debaixo do sol, indo para a borda do pátio.
— É claro. — concordou.
— Vejo que você não está se dando muito bem com nossas armas. Nem com nossa comida. — a Princesa observou, solidária. — Nem com... Bem, Dorne.
Borys suspirou.
— Temo que esteja certa.
Ela acenou, parecendo pensativa ao olhar o lugar em que haviam estado um segundo antes.
— Acho que eu posso ajudar a tornar sua estadia aqui mais suportável. Considerando que não vai passar somente mais um mês por aqui, imagino eu.
O Baratheon negou com a cabeça. Não estava certo de por quanto tempo passaria nas terras dornesas – tinha partido de Ponta Tempestade sem data de retorno. Só isso confirmava suas suspeitas de que seria um período longo.
— Pode me ajudar? — perguntou, um pouco enervado. Essa era a primeira vez que trocavam mais que cumprimentos polidos, e a tranquilidade e prestatividade com que a Princesa agia era no mínimo suspeita. Nenhum dornês que conhecera até então havia sido tão sinceramente cordial, e Borys ficava tenso só em pensar que tipo de sentido as mulheres dornesas davam a ajuda.
Não que tivesse medo de garotas. Tinha beijado um bom punhado delas até então. Mas aquela não era do tipo normal, isso ele podia ver só pelo arco que ela continuava segurando confortavelmente, como se fosse parte de seu corpo.
— Claro. — ela acenou, convicta, com uma mão no queixo. Então olhou-o. — Me encontre depois do jantar. Acho que é tempo suficiente para terminar.
— Depois do jantar? — ele repetiu debilmente.
— Isso. Pode ir para a Torre do Sol, embora... Eu ache melhor que nos encontremos em meus aposentos.
Borys encarou-a, um leve rubor subindo em seu rosto. Com sorte, ela o atribuiria ao sol que havia levado na cara durante a tarde inteira.
— É claro. — concordou. Mas ela já se afastava, acenando enquanto ia em direção às irmãs para se recolherem aos próprios quartos.
×××
Quando o ocaso caiu, Borys saiu de seus aposentos na Torre da Lança, descendo metade da escadaria até o corredor que o levaria à Torre do Sol. A estrutura central do Palácio Antigo era provavelmente uma das mais belas que ele havia visto em sua vida, com a redoma vítrea condecorando seu topo, fazendo reluzir no chão e nos Tronos ali posicionados reflexos coloridos quando o sol estava à tina no céu. Mesmo á noite era encantador, iluminado com castiçais e banhado pela brisa fresca do mar que o remetia imediatamente à sua casa. Fizera somente um mês desde que havia partido e, no entanto, Borys já sentia saudade de Ponta Tempestade. Sentia falta da presença adorável de sua mãe, do sorriso acolhedor de Roberta, no qual sempre podia apoiar-se quando abatido, e mesmo da presença imponente de seu pai, que sempre esperava o melhor daquele que havia se tornado seu herdeiro desde que o primogênito havia decidido por tomar o colar de Meistre e partido para a Cidadela.
Suspirou ao adentrar no salão sob a cúpula, conforme rememorava os rostos que eram tão queridos a si. Em contraponto, Dorne não parecia muito disposto a deixa-lo confortável em nenhum sentido.
— Sor Borys. — a Princesa acenou do outro lado da sala, onde espalmava as mãos na superfície de vidro da parede.
Borys parou, pendendo junto à porta. A família Martell em peso já sentava-se à mesa, junto ao Meistre que os servia e dos protegidos de Selaena que habitavam Lançassolar. O Baratheon estava desconfortavelmente ciente do olhar da Princesa Regente sobre si, e a última coisa que desejava era obter algum problema com a mulher que abrira as portas de sua casa a ele. Dirigiu-se em direção à Sieglinde, por fim, cumprimentando-a com um aceno de cabeça.
— Estou observando o céu. — ela comentou, ainda que ele não tivesse lhe dirigido nenhuma palavra. — Aprecia fazer o mesmo?
— Temo que não.
— Foi o que achei. — ela abriu um sorriso discreto, mas não parecia zombar dele; apenas parecia satisfeita pela própria constatação estar correta. — Vamos, então. Reservei um lugar para você a meu lado.
Borys seguiu-a, cada vez mais consternado por seu comportamento, mas o jantar correu tão normalmente quanto os anteriores. Como nas outras ocasiões similares, o herdeiro da Tempestade falou pouco, preferindo observar as interações muitas vezes barulhentas do excêntrico grupo. Todos pareciam dar-se bem, a seu próprio modo, adaptados à presença um do outro. E ainda que não o destratassem, tampouco dirigiam a ele mais que as amenidades polidas usuais.
Naquela noite, no entanto, Taryne Martell parecia reservar outros planos para ele.
— Olá, Sor. — a menina disse, aproximando-se dele quando o jantar já se findara e os presentes haviam espalhado-se pelo salão em diálogos esparsos. — O senhor gosta da vista daqui de cima?
Ele não pôde deixar de sorrir minimamente ao dizer:
— Gosto, sim, com certeza, Lady Taryne. E você?
— Ah, muito! Gosto principalmente de olhar a cidade, lá embaixo. Ela parece tão pequenininha daqui, não acha?
— Ah, claro. — murmurou Borys com pouca convicção, sentindo-se de repente meio velho e enfadonho. De canto de olho, ele notou que Sieglinde parecia divertir-se com sua aflição, observando-os de alguma distância.
Taryne apenas sorriu com ar coquete e respondeu:
— Mas eu prefiro os Jardins de Água. O Senhor sabia que eles têm também uma história muito romântica?
Sieglinde disfarçou o riso pondo a mão nos lábios, a traidora.
— É mesmo? — conseguiu dizer Borys, com algum esforço.
— É. — afirmou Taryne, com tamanha expressão de sabedoria que o Baratheon imaginou se não havia uma matrona de quarenta anos dentro de seu corpo de sete. — O Príncipe Maron Martell os construiu como um presente para sua noiva Targaryen, para marcar a união de Dorne com os Sete Reinos.
— Compreendo. — ele disse, suspirando em seguida como se estivesse frustrado. Lançou um breve olhar a Sieglinde, por cima da menina. — Bom, lamento dizer que esta não seja uma opção nesse caso.
— Como assim? — a expressão dela foi sendo tomada pelo deleite quando entendeu o que ele estava querendo dizer. — Nesse caso?
— Isso mesmo. Se terei de construir um palácio para cortejá-la, Lady Taryne, sinto dizer que precisaríamos esperar até que eu assuma meu posto como Lorde de Ponta Tempestade. Só assim terei o dinheiro e o poder suficiente para uma empreitada assim.
— Mas você é filho do Lorde.
— Infelizmente, isso não significa muito quando se quer construir um palácio.
Taryne o encarava com um misto de desconfiança e alegria. A desconfiança afinal venceu. Suas mãos foram parar nos jovens quadris quando ela estreitou os olhos e indagou:
— O Senhor está brincando comigo?
Ele permitiu-se sorrir:
— O que a senhorita acha?
— Acho que sim.
— Pois eu acho que seria um tolo se desafiasse qualquer uma das mulheres de sua família.
A menina pensou por um instante.
— Se decidir casar com minha irmã, tem minha aprovação — começou, fazendo Borys engasgar, ainda que não estivesse comendo nada. — Mas, se não se casar com ela — continuou Taryne, sorrindo quase timidamente. —, eu ficaria muito agradecida se esperasse por mim.
Para a sorte do jovem Baratheon, que não tinha qualquer prática com meninas pequenas, Gaemon Targaryen surgiu das sombras, o cabelo louro reluzindo prateado debaixo da luz da lua. Ele tomou a mão da jovem Martell num beijo breve e cordial.
— Minha senhora. Gostaria que me acompanhasse num passeio pela sala, o que acha?
Taryne encarou-o, perplexa e encantada. Neste exato momento, a Princesa Sieglinde aproximou-se, puxando levemente a orelha da irmã mais nova ao indagar:
— E o que a faz achar que tem o direito de importunar nosso convidado com tais sugestões impróprias?
Taryne fechou a cara de imediato, murmurando um pequeno “ai!” enquanto era puxada pela irmã mais velha para próximo aos Tronos, onde sua irmã do meio conversava animadamente com Benjicot Dayne.
Quando ela estava longe o suficiente, Borys permitiu-se expirar, aliviado.
— Obrigado por intervir. — disse educadamente em direção a Gaemon, somente porque precisava dizer algo para preencher o silêncio entre ambos.
Ele acenou brevemente de maneira solidária.
— A família Martell pode ser exasperadora, ás vezes. Mas você se acostuma. — ao dizer isso, o valiriano lançou um breve olhar em direção à Princesa, que retornava com passos decididos em sua direção.
— É claro.
Ao alcança-los, Sieglinde cumprimentou Gaemon, que afastou-se prontamente ao notar que a dupla intencionava dialogar entre si.
— Precisava tirá-lo das garras dela, ou então nunca teria a chance de leva-lo para fora daqui. — Borys achou ter visto um lampejo de excitação cruzar os olhos cinzentos dela quando as palavras saíram de sua boca. Tomando seu braço, ela passou a guia-lo para longe dos outros presentes, então para fora da Torre do Sol e direto para seus aposentos pessoais.
Durante todo o caminho ele perguntou-se se aquela era realmente uma boa ideia. Era fato que a garota era bonita; de um jeito diferente das mulheres de Westeros, mas ainda assim bonita. E, até então, fora uma das poucas pessoas com as quais ele se dera verdadeiramente bem em Lançassolar. Fazia apenas um dia em que haviam dialogado, de fato, mas havia sido tempo o suficiente para ele decidir que agraciava-se da companhia da Princesa. Ainda que tivesse ressalvas acerca de seu comportamento enigmático.
E, contudo, Borys duvidava que qualquer atitude de sua parte passaria despercebida aos olhos atentos de Selaena Martell.
Era nisso que refletia quando viu-se parado na divisão entre a antecâmara que prescindia o quarto da Princesa e o cômodo em si. Apoiou-se na porta, incerto sobre dar um passo a mais, e observou-a ir até a própria cama, sentando-se enquanto remexia em alguns papéis que repousavam sobre as sedas cuidadosamente forradas. Então ela olhou-o inquisitivamente.
Borys inspirou antes de dar o primeiro passo. Ao alcança-la, sentou-se a seu lado, mantendo os olhos em seu rosto o tempo todo. Quando começava a se perguntar se ela esperava que ele desse o primeiro passo, a garota apontou com o dedo para uma das folhas de pergaminho que estava entre eles.
— Veja. — indicou a figura que fora desenhada no papel.
Ele piscou, então obedeceu-a, focando-se na imagem que reconheceu como sendo de um... — Tridente?
A Princesa acenou, parecendo particularmente empolgada ao começar:
— Eu achei isso dentro de um dos livros da biblioteca. Quando vi você hoje no pátio, imaginei que talvez fosse a solução para seus problemas com a lança. — explicou, usando o indicador para apontar as partes que eram importantes. — Quer dizer, ainda é uma arma de médio alcance, é verdade. Mas você deve se dar bem com elas. O manejo é parecido com o da Lança, mas a lâmina o difere completamente. Eu alterei o seu estilo para o que julguei que seria melhor para você.
O Baratheon encarou o desenho intricado da lâmina tridimensional, que claramente fora feito acima do original mais antigo, o ânimo substituindo o lugar da surpresa pelo rumo da conversa.
— Acha mesmo que eu me sairia melhor com isso? — indagou.
Ela acenou vigorosamente com a cabeça, abrindo o maior sorriso seu que ele já vira até então. O sorriso alcançava seus olhos, que brilhavam com a percepção de uma de suas ideias realmente ser levada à prática ou tornar-se útil.
— Eu posso pedir que o ferreiro comece ainda hoje. Talvez leve uns dois dias, mas logo você poderá testar no pátio.
Borys acenou, incapaz de fazer muito mais que isso, desnorteado que estava pela gentileza repentina. Então, ao notar que ela comprimira os lábios, abriu um sorriso:
— Eu acho que pode dar certo. Muito certo.
— Espero que Ben esteja preparado para isso.
— Eu espero que não.
Eles riram, então o rapaz encarou-a um pouco mais seriamente ao proferir:
— Obrigado pela ajuda, Alteza.
— Ora, Sor. Não se atenha a isso. Será meu prazer vê-lo espetar a bunda metida daquele Dayne com seu novo tridente.
— Acho que Borys é o suficiente.
— Borys. — ela tornou a sorrir um daqueles sorrisos espetaculares. — É claro. E Sieglinde também está ótimo.
Ele acenou. Então, ainda que não o desejasse, pôs-se de pé.
— É hora de ir. — e, arriscando: — Vejo-a amanhã na forja?
— Decerto que sim. — a Princesa acompanhou-o até a porta de saída. Quando Borys já descera dois dos inúmeros degraus que teria de enfrentar, no entanto, chamou-o uma última vez. Ao voltar-se, Borys foi surpreendido por um beijo plantado em seus lábios enquanto seu colarinho era segurado firme.
Desceu o resto da escadaria como um furacão, indo deitar naquela noite repleto de uma ansiedade que pensou que havia esquecido desde que abandonara Ponta Tempestade. A percepção das coisas estarem aparentemente mudando em Dorne levou-o a demorar a dormir. Pôs-se a observar a vista da própria janela enquanto o sono não o alcançava e, pouco antes de por fim adormecer, pôde visualizar uma figura imensa disparando em direção ao céu noturno.
A rainha vermelha, pensou, sonolento, enquanto o mundo dos sonhos o embalava.












