Conto IV
hey! aqui com mais um conto incrivelmente escrito pela @holtzm-ann para acabar com as nossas estruturas e nos fazer amar sierys ainda mais <3
A noite estava terrivelmente fria, mesmo para aquela época do ano. Um vento frio e úmido rodopiava pelas vielas, levantando a poeira do dia.
Um vento nortenho, e cheio de gelo. Borys Baratheon puxou o capuz para cima, a fim de esconder o rosto. Não gostava de ser reconhecido. Desde o momento em que havia pisado em Dorne, o rapaz sentia-se pouco à vontade sempre que saía do seu recinto em Lançassolar para percorrer as vielas da cidade sombria. Sentia olhos colocados em si onde quer que fosse, pequenos e negros olhos dorneses que o fitavam com uma hostilidade mal dissimulada. Aquele era um povo naturalmente desconfiado e arisco, pouco afável com estrangeiros. E, embora não atentassem contra sua vida em si, visto que estava ali como protegido de Sua Princesa, isto não impedia que o destratassem sempre que surgisse uma oportunidade.
Os lojistas faziam o possível para enganá-lo em cada negócio, e por vezes ele se perguntava se os taberneiros cuspiam nas suas bebidas. Uma vez, um grupo de crianças esfarrapadas começara a atirar pedras nele, até que ele puxara o tridente e correra atrás delas. Borys não temia por sua vida – de qualquer modo, qualquer um encontraria um adversário duro em mim. Na verdade, teria quase agradecido um ataque. A mão subia-lhe para roçar no cabo do tridente que pendia, meio escondido, entre as pregas das suas vestes sobrepostas de linho, a exterior com as suas riscas azul-escuras e de sóis dourados, e a mais leve e amarela por baixo.
O traje dornês era confortável, mas seu pai teria ficado horrorizado se estivesse ali para vê-lo. Mesmo assim, usar abertamente o brasão de sua casa na cidade sombria parecia ser brincar um pouco demais com a sorte. Antes nu do que morto, disse a si próprio. O exasperava que, após tanto tempo, aquelas pessoas ainda não tivessem se adaptado à sua presença. Fazia já meio ano, pelos Deuses. Será que, até o fim de sua estadia, continuariam perseguindo-o daquela maneira? Ele acreditava saber a resposta. Mas não gostava nem um pouco dela.
Era frequente que a cidade sombria de Lançassolar parecesse deserta debaixo do calor do dia, quando apenas moscas se deslocavam e zumbiam pelas ruas poeirentas, mas uma vez caída a noite, as mesmas ruas voltavam à vida. Borys podia ouvir uma canção tênue sendo cantada por uma voz doce que viajava através de janelas tapadas por persianas enquanto passava por baixo destas, e tambores que batiam o ritmo rápido de uma dança de lanças, dando à noite um espécime de pulso. Algo não sincronizado, mas de alguma forma harmônico. Como o bater de um único coração, o coração de Dorne. No local onde duas vielas se encontravam junto à segunda das Muralhas Sinuosas, uma mulher chamou-o de uma varanda. Estava vestindo uma corrente de ouro e azeite. Somente.
Olhou-a, curvou os ombros e avançou, direto para os dentes da ventania. Uma mulher baixa e gorda estava em uma esquina, grelhando postas de cobra num braseiro, virando-as com pinças de madeira à medida que cozinhavam. O odor pungente dos seus molhos trouxe lágrimas aos olhos do rapaz. Sieglinde havia dito a ele que o melhor molho de cobra tinha uma gota de veneno, assim como sementes de mostarda e pimentas dragão. Aquela comida deixava sua boca dormente e fazia-o arquejar por vinho, e ainda queimava mais ao sair que ao entrar. Normalmente, quando insistia em comê-la, ainda precisava aturar a perturbação de Benjicot pelas horas de indigestão seguintes.
Ele havia saído na companhia do Dayne. Alguns meses antes, tombara com ele numa taberna aleatória, encontrando-o com duas canecas de cerveja preta nas mãos e duas mulheres, uma em cada perna sua. Havia guiado-o de volta até Lançassolar, entre seus tropeços e comentários delirantes, mas não antes que ele vomitasse todo o seu jantar – e o almoço também, Borys suspeitava – nas roupas novas que o Baratheon havia ganhado de Sieglinde. Desde então, havia tornado-se um hábito sair em sua companhia em determinadas noites. Em uma ou outra, Gaemon Targaryen os acompanhava.
Mas Borys havia se perdido deles. Na última vez que os vira, Benjicot estava debruçado sobre uma mesa de jogo em frente de uma prostituta, empurrando peças elaboradas por quadrados de jade, cornalina e lápis-lazúli. O jogo chamava-se cyvasse. Tinha chegado de Vila Tabueira numa galé mercante vinda de Volantis, e os órfãos do sangueverde tinham-no espalhado para cima e para baixo, ao longo do rio. A corte dornesa era louca por ele.
E, se pudesse se confiar nas baboseiras que Benjicot dizia, alguns anos antes uma versão aprimorada do jogo havia surgido, graças ao falecido Príncipe Consorte. Adaryos Martell tinha transformado o jogo já complexo numa competição de prendas; a cada peça perdida para o adversário, uma peça de roupa também precisava ser retirada. Essa versão do jogo era chamada Cyvasse do Príncipe – e era particularmente mais popular que a original nas terras dornesas.
Independente da versão, Borys achava o jogo enlouquecedor. Havia dez peças diferentes, cada um com os seus próprios atributos e poderes, e o tabuleiro mudava de jogo para jogo, dependendo do modo como os jogadores distribuíam os seus quadrados iniciais. E Gaemon Targaryen parecia dividir sua opinião, porque enquanto Benjicot tirava a primeira camada de linho de suas roupas, Borys pensou tê-lo visto sair furtivamente da taberna onde estavam. Após um tempo, o próprio Baratheon decidiu que deixaria o Dayne à sua própria sorte – ele não parecia ter bebido o suficiente para esquecer o caminho de casa. Não ainda. De modo que o estrangeiro se livrou da responsabilidade e partiu de volta à Lançassolar.
Se não lhe falhava a memória, aquele era um dia diferente dos demais. Haveria algum espécime de comemoração – algo que era feito anualmente pelo Príncipe Consorte quando este era vivo. Uma tradição que a Princesa Regente não parecia inclinada a quebrar. Borys perguntou-se se não era doloroso para ela recriar a festividade que, em todos os detalhes, tinha as marcas das mãos de seu marido. Ele ouvira de línguas indiscretas que haviam tido uma boa relação, apesar da má fama de cafajeste do Príncipe. Não conseguia imaginar como isso seria possível, mas quem era ele para questionar acerca das intimidades daquela raça tão excêntrica?
Ninguém, definitivamente. Não conseguia se quer compreender as intimidades que lhe envolviam. Sieglinde parecia estar evitando-o nos últimos tempos. Ou ele estava simplesmente esperando demais de uma dama inconstante cuja metade das atitudes eram incompreensíveis para ele, e a outra metade difícil de interpretar. Dama não, dornesa. Ele já aprendera que havia uma diferença alarmante entre os dois termos. Pouco após receber seu tridente, ela costumava assistir a todos os seus treinos. Juntos, eles caçoavam de Benjicot e de seus esforços em combater Borys, à medida que o cenário inicialmente exasperador para o Baratheon tornava-se gradativamente cada vez mais glorioso. Então, quando ele se dirigia ao canto do pátio, para guardar a arma, tinha um beijo dado furtivamente aqui e acolá.
Acontecia sempre nas sombras. O que, de algum modo, tornava toda a coisa mais emocionante. Agiam como criminosos, ávidos por esconder suas atrocidades – um beijo roubado na esquina de um corredor, uma carícia inesperada no meio das escadarias, um flerte inteligente que o fazia rir. Até certa noite poeirenta, quando um bilhete havia aparecido magicamente sobre sua cama. Depois da loja do vendedor de sedas, escrevera ela, um portão e dois degraus exteriores. Aquela fora a primeira vez em que ele voluntariamente se afastara de Gaemon e Benjicot enquanto andavam pela cidade sombria. Ele havia estado tão ansioso... Mas ela o havia guiado seguramente, fazendo-o questionar-se se de fato era a primeira vez em que ela fazia aquilo.
Dornesa, não dama, lembrou-se, sentindo o rosto repentinamente quente contra o frio da noite.
Então, após aquela vez, nada. Por intervalos variáveis de tempo. A impressão que tinha era como se fosse um brinquedo do qual a herdeira cansava-se de tempos em tempos, por isso afastava-se, para descansar um pouco de sua presença até que ele voltasse a parecer interessante. Mas provavelmente estava sendo apenas injusto – ela não era obrigada a dar-lhe atenção em tempo integral. O que quer que tivessem era apenas temporário – logo ele partiria de Dorne. Um dia, casaria-se com uma dama westerosi e ela, tornaria algum nobre seu futuro Príncipe Consorte, e todas suas experiências passadas seriam apenas memórias da juventude sobre as quais se ria diante da mesa de jantar e contava a seus filhos sobre. Mas, mesmo sabendo disso, incomodava-o pensar que talvez houvessem outros brinquedos dispostos em sua prateleira, apenas aguardando serem utilizados sempre que o Baratheon perdia a graça.
Nós, homens, somos tão fracos. Nossos corpos transformam até os mais inteligentes de nós em idiotas. Foi no que refletia, quando a viela pela qual caminhava abriu-se de súbito para uma alta barreira de pedra. Havia atravessado a segunda das Muralhas Sinuosas. Quando passou pela terceira e última, entrando no pátio do Palácio Antigo iluminado pelo luar, havia decidido que não mais daria atenção às inconstâncias de Sieglinde. A última coisa da qual precisava ali era mais uma razão para aborrecer-se. Mulheres eram complicadas, aquela ali especialmente, e não compreendê-la o tirava do sério. Ela o tirava do sério.
Sua atenção foi vagamente afastada de seus pensamentos quando ele ouviu o som de asas. Próximas como estavam, pareciam um estalo de um trovão. A ventania pegou-o em cheio, lançando seu cabelo em várias direções diferentes. Protegendo os olhos da poeira que ela trazia, ele pôde enxergar a silhueta imensa do animal pousando. A rainha vermelha. Apesar de seu tamanho, o animal era estranhamente silencioso – não emitia muitos ruídos voluntários. Nenhum tipo de rosnado, ou rugido, ou o que fosse. Poucas haviam sido as vezes em que ele a ouvira fazer tais manifestações. Mas não precisava disso para ser intimidante – havia algo em sua presença. Uma imponência enervante, que fazia qualquer um sentir-se como nada, como ninguém. O porte de uma rainha.
Seu cavaleiro desmontou graciosamente de seu dorso. Então fora para lá que ele havia fugido. Borys percebeu tarde demais que ainda estava parado, quando Gaemon aproximou-se com passos tranquilos. Ele era sempre tranquilo. Assim como o dragão, Borys nunca havia o visto fazer grandes demonstrações passionais, de nenhum tipo. O que também era enervante, de um modo diferente. Borys se perguntava com constância se havia algo de errado com aquele sujeito.
— Baratheon. — ele o cumprimentou, quando estava próximo o suficiente para ser ouvido acima do ruído ensurdecedor das asas. Tessarion voltara a alçar voo, para longe dali.
Borys respondeu com um aceno brusco de cabeça. Sua relação não era antipática – na verdade, de início, ele havia achado até que davam-se bem, da própria maneira. Não eram grandes camaradas, mas sabiam conviver um com o outro de maneira amigável. Mas, de uns tempos para cá, parecia que sua relação havia mudado – Gaemon parecia mais indiferente, pouco interessado em ter Borys por perto. Especialmente quando a família Martell envolvia-se no meio – sempre que Sieglinde se aproximava, ele saía de cena quase que imediatamente.
O sujeito era mesmo estranho. Tão inconstante quanto a própria Princesa. Eles se merecem, pensou, ironicamente, embora a ideia por si só fosse ridícula. Aqueles dois, juntos? Antes Borys casaria-se com a menina Taryne.
— A festa está começando. Viu Ben em algum lugar? — ele perguntou.
— Da última vez que o vi, a única coisa que vestia era um bracelete dourado. — respondeu o Baratheon.
— No pulso, eu espero.
Ele parecia estar de bom humor naquela noite.
— Talvez ele tenha tirado-o para cobrir outro lugar. Não saberia dizer, saí antes disso.
Gaemon fez uma careta.
— O bracelete era meu.
— Era? Não é mais?
O valiriano riu, e Borys sorriu, balançando a cabeça. Então, pegando-o desprevenido, Gaemon deu-lhe um aperto amigável no ombro:
— Avise que chegarei atrasado. Preciso me trocar. — e partiu, seguindo para a outra extremidade a qual o Baratheon seguiria.
Ele subiu os degraus até a cúpula da Torre do Sol decidido. Até podia imaginar como agiria caso Sieglinde se aproximasse. Não seria rude – não havia razão para ser. Ela não era má pessoa, e havia sido agradável – não, mais que agradável com ele. Mas era exasperador tê-la por perto. Exasperador e perigoso. Borys se sentia andando numa corda bamba – sabia que a Princesa Regente não apreciava muito os rumores que andavam inevitavelmente correndo os aposentos de Lançassolar. Temia ofendê-la de alguma maneira irreversível, e estragar os planos tão bem elaborados de seu pai de enviá-lo até lá.
Definitivamente, ter Sieglinde longe era mais seguro.
Quando ele chegou, o lugar já estava lotado. Aquela era uma das seletas ocasiões em que todo o pessoal do Palácio Antigo estava junto – dos protegidos da Princesa, aos membros do conselho dela, dos guardas à criadagem. Era o tipo de comemoração familiar – para todos, menos para Borys. O ar estava espesso de fumaça, pelas carnes exóticas que eram assadas em brasas num canto, trazendo lágrimas aos olhos dele, que não estava habituado. Em algum canto do salão, uma trupe de bardos tocava uma música animada, e alguns poucos casais corajosos arriscavam-se em seguir os passos da dança típica. As mesas estavam servidas com todo tipo de especiaria estranha – cobras com molhos picantes, escorpiões em espetos. Mas também haviam pratos mais comuns – um porco inteiro untado em mel, faisão guisado, e jarras de tinto dornês desfilando de um lado para outro nos ombros de servas jovens.
Borys tomou seu lugar na esquerda da mesa principal, onde ficavam os protegidos de Selaena. Como de hábito, ele comeu pouco, e falou muito menos. Algum tempo depois, Gaemon se sentou a seu lado. As crias Martell chegaram após ele, e Borys evitou encarar Sieglinde, embora tivesse notado que ela mantinha os olhos ansiosamente sobre ele, como se aguardando uma brecha para conversarem. Hoje não.
Ela pareceu perceber que era deliberadamente ignorada. Porque em determinado momento, ele notou, aliviado e decepcionado na mesma medida, que ela pareceu cansar de tentar capturar sua atenção. Levantou-se com sua irmã, Jaelyn, e se afastou decididamente em direção ao centro do salão. De canto de olho, ele pôde observá-las encontrando pares em duas Lanças que protegiam o palácio e indo rodopiar energicamente pelo salão.
Ele franziu os lábios e desviou os olhos. Permaneceu alguns minutos tentando atentar-se ao prato à sua frente; uma fatia gordurosa de porco untado no mel, com alguns filés de cobra picante e grãos cozidos até desmancharem. Mas havia perdido a fome. De modo que se virou para seus companheiros.
— E então — ia dizendo Benjicot, que havia chegado na festa já parcialmente bêbado, embora – graças aos Deuses – inteiramente vestido. — chegou a serviçal da taverna e ela tinha umas...
— As damas estão do outro lado da mesa, Ben. — Daemon interrompeu-o, na mesma hora em que Jaelyn exclamou:
— Benjicot!
O ruivo olhou para onde as gêmeas estavam sentadas, e Jaelyn também, agora que retornara de sua dança. Com a culpa escrita no rosto, colocou as mãos em concha diante do peito, para demonstrar o tamanho do que estava dizendo, e acrescentou:
— Perdão.
— Está comprometido. — Gaemon brincou, indicando com a cabeça a Martell do meio, que corou efusivamente diante da sugestão.
— Nós não estamos... — ela começou.
— Comprometido, sim, mas não cego. — Benjicot interrompeu-a, abrindo um sorriso jocoso. Deu uma piscadela para a jovem, que ficou ainda mais vermelha – Borys duvidava que isso fosse possível, até ver acontecer diante de seus olhos.
— E você...! — incapaz de atingir o seu verdadeiro alvo, ela voltou sua raiva, de repente, para Borys. Ele ergueu as mãos, pronto para se defender:
— Eu não estou...
— Está sim, mas não cego. — repetiu o Dayne. — Jaelyn, — ele continuou, com um tom de superioridade. — há coisas impossíveis de não se ver. Especialmente quando se é homem.
— É verdade. — admitiu Borys. — Vi com meus próprios olhos.
Jaelyn os olhou horrorizada, tentando encontrar no rosto de algum deles um pouco de prudência. Seus olhos se detiveram em Gaemon que, a julgar por seu aspecto, não estava bêbado – nem perto de ficar. E que permanecia calado, somente assistindo ao desenrolar do diálogo.
— Sor Gaemon? — perguntou, esperando que ele dissesse algo aceitável.
Entretanto, o valiriano apenas pigarreou.
— Sei de quem estão falando. — disse. — Estive nessa taverna algumas vezes. A moça é famosa em toda aquela área da cidade sombria.
— Eu cheguei a ouvir dela até fora daqui. — concordou Benjicot.
Borys se inclinou em direção a ele, com os olhos azuis faiscando:
— E você, alguma vez...?
— Sor Borys! — Jaelyn gritou. Aquilo parecia ser demais para ela. Não tinha qualquer pingo de pudor normalmente, o Baratheon sabia. Aquele tipo de diálogo nunca a incomodava. Mas parecia que a última coisa que queria saber era se Benjicot havia se deitado com uma serviçal de taverna com uns seios do tamanho de uma sopeira. Ela levantou-se novamente, irada, e marchou para longe, para o outro lado do salão de onde tinha vindo.
Borys continuou olhando Benjicot, em expectativa. Mas ele apenas meneou a cabeça.
— Ela é casada. — falou.
— Não ficou nem um pouco tentado?
— Claro que não. Jaelyn me cortaria o pescoço.
— Não estou falando do que Jaelyn faria se descobrisse, embora duvide que ela fosse começar por seu pescoço.
Benjicot fez uma careta. Sabia que o Baratheon tinha razão.
— Só quero saber se sentiu-se tentado.
— Não. — admitiu ele, balançando a cabeça novamente. — Mas não diga a ninguém. Eu tenho uma reputação pela qual zelar. Não quero que acreditem que fui domesticado... Tão cedo.
Borys riu com vontade. Contudo, o gesto durou só um momento. Pois no segundo seguinte, Sieglinde surgiu a seu lado, quase como uma aparição. Mas ela provavelmente havia se aproximado com tranquilidade – ele era quem estivera distraído demais para notar. Ele olhou-a – não tinha como evitar fazer assim, tão de perto.
— Sor Borys. Gostaria que caminhasse comigo pelo salão. — ela pediu, com doçura. Chegou a bater os cílios daquela maneira adorável que as mulheres faziam. Mas, por trás de seus olhos, ele enxergou uma certa urgência. Estava brava. No mínimo, estava incomodada por ser ignorada. E parecia querer uma explicação.
Borys suspirou discretamente. Então se levantou e deu-lhe o braço. Ela o segurou com apenas um ligeiro toque da ponta dos dedos na parte interior de sua manga de linho. Era mesmo bem alta. Talvez fosse por isso que ela tivesse chamado sua atenção quando se conheceram. Cheirava a sabão.
Nenhum perfume. Nenhum óleo forte ou caro. Apenas sabão. Ocorreu-lhe, quase como uma surpresa, que queria ir para a cama dela novamente. Era melhor que banisse aquele pensamento logo. Já havia decidido que não a queria mais por perto. Tais pensamentos demonstravam muita sensatez da parte dele embora de modo algum explicassem por que, quando se aproximaram da saída do salão, ele não insistiu para que voltassem. Somente deixou-se ser levado, vendo-a pegar uma das velas que se encontrava numa mesa próxima, acendê-la na chama de outra que queimada em um suporte na parede e fazer um sinal com a cabeça para um lacaio, enquanto descia as escadas. Ele a seguiu sem emitir um único murmúrio de protesto.
A ala leste do Palácio Antigo tinha as mesmas proporções da ala oeste, com os mesmos salões, que um dia haviam se enchido de luzes e esplendor para a comemoração do dia do nome da Princesa Regente no mês anterior. Naquele momento, porém, encontravam-se às escuras e ecoavam o som de seus passos. Também estavam um tanto frios.
O que, pelos sete infernos, ele estava fazendo naquele lugar?
— Há uma tendência de ficarmos sentados tempo demais nessas comemorações. — Sieglinde disse, de repente.
— E já está frio demais lá fora para caminhar ao ar livre depois delas. — ele viu-se dizendo. Ah, então concordavam que estavam apenas em busca de um pouco de exercício depois de passar tanto tempo parados? Quanto tempo haviam ficado verdadeiramente sentados? Uma hora? Ele diria que menos que isso, contando que ela havia se levantado para dançar.
— Não devemos nos demorar muito nesse passeio. — acrescentou, após um momento. Pensou, de repente, que talvez aquele fosse o cenário perfeito para uma conversa franca acerca de suas pretensões futuras. Borys não achava que precisava de muitas palavras – só o suficiente para ela entender que não queria mais nada com ela. Que era melhor assim, para ambos. Embora, na verdade, só seja para mim.
Ela abriu um sorriso indulgente.
— Está com medo, Borys? Acha que eu o trouxe aqui para seduzi-lo?
Ele sentiu o rosto esquentar ligeiramente.
— Fez isso? — questionou, com firmeza suficiente.
— Fiz isso, Sor Baratheon. — ela admitiu. — Eu o trouxe para um salão vazio, com nenhum olhar sobre nós, para dançarmos. E para beijá-lo novamente. Só assim poderia fazer isso, imagino, já que não queria se quer olhar para mim em público.
Borys gargalhou, mas não se desvencilhou do braço dela nem virou-se para voltar para o salão o quanto antes. Chegou a pensar: Não, só vim te dizer que não podemos mais ficar próximos. Mas quando viu o rosto dela, iluminado pela luz da vela, pareceu perder o poder da fala. No fim, somente disse:
— Eu não sei dançar bem. E acredito que só poderemos enxergar do salão o que a luz da uma única vela nos permite. Além disso, não há música.
— Ah, então, teremos que nos conformar com o beijo. — ela disse, daquela sua maneira deliberadamente travessa. O sorriso iluminou seu rosto. Ela era bonita. Mas aquela não parecia ser a palavra certa para defini-la. Era muito prosaica. Beleza não era a responsável pela inteligência impetuosa que dava profundidade aos seus olhos, nem pela perspicácia por trás do seu sorriso. Ela não era só bonita – por isso ele não podia simplesmente deixa-la, antes que fosse a hora para isso. — Embora... Eu acho que consigo cantar de forma tolerável, ainda que ninguém com o juízo perfeito pensasse em me convidar para fazer um solo diante de uma plateia.
Ele deu um breve sorriso, mas ela mantinha os olhos fixos adiante.
O salão era amplo, estava vazio e, de fato, a luz de uma única vela não dissipava muito da escuridão. O ar estava gelado. Era o cenário menos romântico que ela poderia ter escolhido para seduzi-lo, se essa de fato tivesse sido sua intenção ao conduzi-lo até ali. Sieglinde pousou a vela sobre uma mesa de apoio ao lado das portas duplas.
— Sor. — disse ela, fazendo uma elegante reverência. — Poderia me dar este prazer?
Borys retribuiu com uma ampla saudação e envolveu sua cintura, mantendo uma distância muito correta entre seus corpos e olhando-a com um ar inquisitivo. A Princesa pensou por um momento, franziu o cenho ao se concentrar e começou a cantarolar com timidez, depois com mais confiança, a melodia de uma canção popular que ele já havia ouvido antes, embora não tivesse decorado a letra. Ela o guiou, rodopiando pelo salão vazio, entrando e saindo das sombras lançadas pela vela. Ele notou como a luz fraca fazia cintilar o bordado dourado no acabamento das mangas das sedas dela.
— A mulher do dornês era bela como o sol e seus beijos, quentes como a primavera. Mas a espada do dornês era feita de aço negro e o seu beijo, a mordida de uma fera.
Quando ficou claro que ele era desajeitado demais para acompanha-la tão de perto, ela afastou-se e adentrou numa dança mais enérgica. Saltitava e batia palmas, enquanto giravam ao redor um do outro, então retornava para os braços dele efusivamente. Sieglinde ficou ofegante depois de alguns minutos. Sua voz vacilou e então a música parou, sendo substituída somente pelas risadas dos dois. Mas ele continuou dançando com ela por mais um minuto inteiro, a energia e a diversão conduzindo o corpo do dois. Borys ouvia as respirações, os sons dos sapatos no piso, no mesmo ritmo, e o farfalhar da seda nas pernas dela.
Tudo era vida e alegria.
Se ele fechasse os olhos, talvez pudesse imaginá-los num salão cheio. Com centenas de olhares postos sobre ambos. Mas eles se movimentariam pelo salão como se fossem um, e pareceria, pensou ele, como estar dentro da música e cria-la com todo o corpo em vez de apenas com os dedos sobre um par de cordas. Pareceria criação em todos os sentidos em vez de apenas som. Haveriam candelabros e as luzes das velas suspensas refletindo na decoração. Haveria os perfumes de várias pessoas misturadas ao suor e ao aroma da comida. Haveria sons de música e pés movendo-se ritmicamente no chão e vozes e risos. Ele quase sentiu o sabor de vinho na boca. E a sensação das costas dela sob a sua mão, de seus dedos entrelaçados, e de nenhum resquício de receio por estarem sendo observados.
Era estranho como tal elevação de euforia poderia seguir tão de perto o terror ameaçador de vida. Os dois extremos da vida. Ou talvez não tão estranho. Não quando se tratava de Sieglinde.
Quando pararam de dançar, ele não conseguia pensar em nada para dizer, e não lhe ocorreu a ideia de soltá-la. Ficou com uma das mãos em sua cintura e a outra segurando-a pela mão. Olhou-a até que Sieglinde baixou a cabeça e afastou uma poeirinha invisível do decote do vestido com a mão que estivera pousada no ombro dele. Devolveu a mão ao mesmo lugar e encarou-o.
Ele a beijou, mantendo-se, a princípio, na posição da dança, embora a mão na cintura gradualmente a apertasse contra ele. A mão dela apertava a dele de um modo quase doloroso. O interessante era que ela o beijava com evidente prazer, até mesmo com desejo, mas nenhuma paixão. Não havia qualquer coisa semelhante a essa ali, pelo menos não da parte dela. Os termos de sua relação eram claros e evidentes. Quando notou, havia soltado a mão dela para envolve-la em seus braços. Ela passara um dos braços em torno de seus ombros e apertava sua nuca com a mão. Mas havia autocontrole em sua entrega – o que talvez fosse um tanto contraditório.
E se ela perdesse aquele controle? E se ele fosse a razão pela qual ela o perdesse? Ele seria capaz...?
Levantou a cabeça e pôs as mãos de volta na cintura de Sieglinde.
— Eu não compreendo a mulher do dornês. — viu-se murmurando, dando-a um olhar muito direto e franco então.
— Precisa compreender? — ela perguntou-lhe, suavemente. Ele sabia o que ela estava perguntando. Sua relação, afinal, necessitava ser tão segura? Tão certa? Havia futuro naquilo?
Ele parou, por um momento. Olhou-a com muita atenção. Dos olhos cinzentos e perspicazes, aos lábios largos e generosos, aos cachos castanhos que emolduravam seu queixo. Então, por fim, balançou a cabeça.
— Não. Não preciso.
Ela sorriu.
— Ah, como sou descuidada. Estou quase certa de que ouvi alguém falar sobre bolos de morango para a sobremesa.
— Isso é verdade. Daemon comentou comigo mais cedo.
— Foi ele quem pediu aos servos, creio. Devemos refazer nossos passos e ver se sobrou algo nas mesas?
Ele ofereceu-lhe o braço.
— Seria uma ótima ideia, Alteza.












