[Flashback] Closer | Lochwell | March 78
Enquanto encarava o seu reflexo no espelho e deslizava as mãos pelo tecido macio do vestido preto de saia rodada, decote quadrado e alças grossas, Sienna Cauldwell continuava a se perguntar se aquela era mesmo uma boa ideia. Faye havia acabado de completar cinco meses e Sienna havia voltado a trabalhar no Departamento de Acidentes e Catástrofes Mágicas há apenas algumas semanas após o fim de sua licença, mas deixar a filha com a babá para ir ao trabalho ainda lhe partia o coração todas as manhãs. Ouviu dizer que o protecionismo em excesso logo após o nascimento do bebê ia diminuindo lentamente conforme o tempo passava, quando as mães aos poucos se davam conta de que não precisavam ficar sempre ao lado de seus pequenos para ter certeza de que estavam seguros, mas a mulher de longos cabelos loiros ainda sentia o coração apreensivo toda vez que precisava se separar de sua menina. Se pudesse, passaria horas de seu dia apenas observando-a respirar para ter certeza de que Faye estava bem. Era bobo e estúpido, ela sabia, mas aquele pequeno ser humano era tudo o que tinha de mais precioso em sua vida. How could a sick, sick union could produce something so innocent and so perfect? Ela jamais saberia responder.
Sienna colocou o colar de pérolas e passou cuidadosamente o batom vermelho. Era estranho estar tão arrumada quando mal tivera tempo para escovar os próprios cabelos durante os primeiros meses de vida de Faye, quando sua vida se limitava a alimentá-la, niná-la e limpá-la. As olheiras e o ar cansado de seu rosto haviam sido perfeitamente corrigidos com maquiagem trouxa e em seu rosto não havia qualquer sinal de que mal havia dormido naqueles últimos meses. Ao terminar de se arrumar, ela quase não reconheceu a si mesma e estava até surpresa por aquele vestido ainda servir-lhe perfeitamente mesmo após a gravidez. Estava um pouco apertado, é claro, mas ainda caia como uma luva em seu corpo. “Maybe I should stay home. This is not going to work anyway.”, pensou, balançando a cabeça negativamente e sentando-se na cama. Tanto tempo gasto em fazer-se parecer apresentável e atraente e tudo o que queria era tirar aqueles sapatos que machucavam seus pés, substituir aquele vestido por um velho moletom e ninar Faye no sofá da sala.
Quando Alexander Lochrin a convidou para um encontro, Sienna concordou entusiasmadamente porque o achou interessante. Há tanto, tanto tempo não saia com alguém que a ideia de conhecer uma nova pessoa deixou-a leve como um balão. Mas logo depois o avalanche de pessimismo a atingiu em cheio, fazendo-a questionar sua própria escolha. Estava tão, tão cansada de decepcionar-se, de quebrar a cara, de carregar aquela pesada bagagem de péssimas experiências que achou que fingir que havia se esquecido do jantar marcado para aquela sexta feira seria melhor do que passar por tudo novamente, do que adicionar mais uma decepção ao seu pequeno museu particular. Talvez fosse um pouco egoísta da sua parte desejar ter alguém ao seu lado, no fim das contas. Afinal, Faye precisava de toda a sua atenção e energia e além de tê-la sob sua responsabilidade , tinha também um pai para cuidar e um trabalho que exigia muito de si e as vezes ela pensava que não iria dar conta de tudo. But oh, how she missed being in love, being desired and touched and kissed.
A campainha do apartamento a resgatou de seus pensamentos. Era Iris, a babá que havia contratado para aquelas horas em que estaria fora de casa, a simpática jovem do andar de baixo e a única pessoa além de seu pai que Sienna confiava o suficiente para deixar Faye sob responsabilidade deles. Culdwell abriu a porta e as duas conversaram rapidamente enquanto ela a levava ao quarto de Faye, onde a bebê brincava com bichinhos de pelúcia em um tapete felpudo. “Tem comida na geladeira, pode ficar a vontade para comer o que quiser. Não devo demorar muito.” Disse casualmente, pegando a filha nos braços para se despedir. “Ah, deveria demorar. Eu e Faye vamos nos divertir muito e você está bonita demais para voltar cedo. Devia aproveitar esse encontro!” Iris comentou e Sienna agradeceu em meio a um sorriso, voltando sua atenção para a pequena. “Mommy will be back soon, my little fairy.” Murmurou, envolvendo-a em seus braços e vendo-a sorrir de volta com enormes e límpidos olhos azuis, os mesmos que os seus, aqueles que conseguiam fazê-la esquecer de todos os seus problemas e fazê-la acreditar que tudo daria certo. Sienna beijou-lhe o topo da cabeça, acariciando os ralos cabelos dourados e sentindo o agradável cheirinho de bebê que tanto gostava, finalmente entregando a filha para Iris e perguntando-se quando se tornaria mais fácil se separar da filha. Jamais seria.
Pegou a bolsa, onde a varinha e alguns objetos pessoas tinham sido colocados e enfim saiu do apartamento, ignorando o peso em seu coração e a vontade de voltar. Enquanto descia as escadas do edifício de apartamentos trouxa, repetia para si mesma que aquela seria uma noite agradável, que seu encontro com Alex Lochrin renderia boas conversas e bons momentos, quer aquilo desse certo ou não. Quando pisou na calçada e o burburinho de buzinas, vozes e a brisa de uma agradável noite de março a envolveram, ela avistou a silhueta dele do outro lado da rua, aguardando-a. E então sorriu.
This could end terribly, she knew it could. But the look in his eyes made she think it would worth every second.







