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[Flashback] Closer | Lochwell | March 78
Enquanto encarava o seu reflexo no espelho e deslizava as mãos pelo tecido macio do vestido preto de saia rodada, decote quadrado e alças grossas, Sienna Cauldwell continuava a se perguntar se aquela era mesmo uma boa ideia. Faye havia acabado de completar cinco meses e Sienna havia voltado a trabalhar no Departamento de Acidentes e Catástrofes Mágicas há apenas algumas semanas após o fim de sua licença, mas deixar a filha com a babá para ir ao trabalho ainda lhe partia o coração todas as manhãs. Ouviu dizer que o protecionismo em excesso logo após o nascimento do bebê ia diminuindo lentamente conforme o tempo passava, quando as mães aos poucos se davam conta de que não precisavam ficar sempre ao lado de seus pequenos para ter certeza de que estavam seguros, mas a mulher de longos cabelos loiros ainda sentia o coração apreensivo toda vez que precisava se separar de sua menina. Se pudesse, passaria horas de seu dia apenas observando-a respirar para ter certeza de que Faye estava bem. Era bobo e estúpido, ela sabia, mas aquele pequeno ser humano era tudo o que tinha de mais precioso em sua vida. How could a sick, sick union could produce something so innocent and so perfect? Ela jamais saberia responder.
Sienna colocou o colar de pérolas e passou cuidadosamente o batom vermelho. Era estranho estar tão arrumada quando mal tivera tempo para escovar os próprios cabelos durante os primeiros meses de vida de Faye, quando sua vida se limitava a alimentá-la, niná-la e limpá-la. As olheiras e o ar cansado de seu rosto haviam sido perfeitamente corrigidos com maquiagem trouxa e em seu rosto não havia qualquer sinal de que mal havia dormido naqueles últimos meses. Ao terminar de se arrumar, ela quase não reconheceu a si mesma e estava até surpresa por aquele vestido ainda servir-lhe perfeitamente mesmo após a gravidez. Estava um pouco apertado, é claro, mas ainda caia como uma luva em seu corpo. “Maybe I should stay home. This is not going to work anyway.”, pensou, balançando a cabeça negativamente e sentando-se na cama. Tanto tempo gasto em fazer-se parecer apresentável e atraente e tudo o que queria era tirar aqueles sapatos que machucavam seus pés, substituir aquele vestido por um velho moletom e ninar Faye no sofá da sala.
Quando Alexander Lochrin a convidou para um encontro, Sienna concordou entusiasmadamente porque o achou interessante. Há tanto, tanto tempo não saia com alguém que a ideia de conhecer uma nova pessoa deixou-a leve como um balão. Mas logo depois o avalanche de pessimismo a atingiu em cheio, fazendo-a questionar sua própria escolha. Estava tão, tão cansada de decepcionar-se, de quebrar a cara, de carregar aquela pesada bagagem de péssimas experiências que achou que fingir que havia se esquecido do jantar marcado para aquela sexta feira seria melhor do que passar por tudo novamente, do que adicionar mais uma decepção ao seu pequeno museu particular. Talvez fosse um pouco egoísta da sua parte desejar ter alguém ao seu lado, no fim das contas. Afinal, Faye precisava de toda a sua atenção e energia e além de tê-la sob sua responsabilidade , tinha também um pai para cuidar e um trabalho que exigia muito de si e as vezes ela pensava que não iria dar conta de tudo. But oh, how she missed being in love, being desired and touched and kissed.
A campainha do apartamento a resgatou de seus pensamentos. Era Iris, a babá que havia contratado para aquelas horas em que estaria fora de casa, a simpática jovem do andar de baixo e a única pessoa além de seu pai que Sienna confiava o suficiente para deixar Faye sob responsabilidade deles. Culdwell abriu a porta e as duas conversaram rapidamente enquanto ela a levava ao quarto de Faye, onde a bebê brincava com bichinhos de pelúcia em um tapete felpudo. “Tem comida na geladeira, pode ficar a vontade para comer o que quiser. Não devo demorar muito.” Disse casualmente, pegando a filha nos braços para se despedir. “Ah, deveria demorar. Eu e Faye vamos nos divertir muito e você está bonita demais para voltar cedo. Devia aproveitar esse encontro!” Iris comentou e Sienna agradeceu em meio a um sorriso, voltando sua atenção para a pequena. “Mommy will be back soon, my little fairy.” Murmurou, envolvendo-a em seus braços e vendo-a sorrir de volta com enormes e límpidos olhos azuis, os mesmos que os seus, aqueles que conseguiam fazê-la esquecer de todos os seus problemas e fazê-la acreditar que tudo daria certo. Sienna beijou-lhe o topo da cabeça, acariciando os ralos cabelos dourados e sentindo o agradável cheirinho de bebê que tanto gostava, finalmente entregando a filha para Iris e perguntando-se quando se tornaria mais fácil se separar da filha. Jamais seria.
Pegou a bolsa, onde a varinha e alguns objetos pessoas tinham sido colocados e enfim saiu do apartamento, ignorando o peso em seu coração e a vontade de voltar. Enquanto descia as escadas do edifício de apartamentos trouxa, repetia para si mesma que aquela seria uma noite agradável, que seu encontro com Alex Lochrin renderia boas conversas e bons momentos, quer aquilo desse certo ou não. Quando pisou na calçada e o burburinho de buzinas, vozes e a brisa de uma agradável noite de março a envolveram, ela avistou a silhueta dele do outro lado da rua, aguardando-a. E então sorriu.
This could end terribly, she knew it could. But the look in his eyes made she think it would worth every second.
Margot Robbie for Marie Claire Magazine US (March 2015)
Very nice to meet you, Sienna. I’m Alexander, but please call me Alex. Or Pathetic. Or Dork. You call, really.
I already told you to stop apologizing. Coffee is on me, I’ll pay, It’s the least I can do for being such a bad influence on you and taking you for a cup of this sweet black addictive potion. I’m actually okay with alcohol! Never been to prison. I’m really boring, actually.
Well, I’ll call you Alex the misterious, dorky and rather dashing caffeine addict, is that all right with you? I think it’s a very suitable name, actually.
And I must say I’m quite relived to know that you’ve never been in prison. It would be a disappointment since it’s obviously not a good thing, right? I mean, except when it’s just for a night and you’re out and drunk with your friends, of course. Yes, I used to be a little irresponsible as a teenager. Please don’t tell that to anyone? Merlin, I don’t even know why I’m saying this to you! You must think I’m a completly crackpot.
Que bom saber que fui útil! Não deveria dizer isso, mas estou considerando lamber minha camisa antes de limpar com um feitiço. … That’s a weird thing to say. I don’t even know your name and I’m already embarrasing myself in front of you. Welcome, this is me without caffeine on my system. It’s actually worse with it.
You look adorable laughing and apologizing and I look pathetic as usual, that’s the truth. Wait, did I say that out loud? Yup, probably.
Well, sir, you can call me Sienna and please let me buy you a cup of coffee as an apology and also so you won’t need to lick your shirt, you caffeine addict! If you’re like this with coffee, I can only imagine what kind of drunk you are! I wouldn’t be surprised to find out you’ve been in prison at some point of your life for... I don’t know, walking around London with your clothes off.
Pare de se desculpar! Sério, não foi sua culpa. Eu estava com a cabeça na Lua também e não te vi. Calma, deixa que eu te ajudo com esses documentos.
You are probably laughing because I look pathetic. Just a guess. Not that it’s unusual. Guess Merlin heard my wish. Asked for a cup of coffee and bam! Here it is. I should be thanking you, to be honest.
Oh, obrigada! Não deveria dizer isso mas graças a Merlin você foi o alvo do meu café e não esses malditos documentos. Se eu perdesse esses papéis, estaria morta. Não quero nem pensar no que aconteceria!
No, no, no! Don’t say that! You don’t look pathetic... at all. I mean, look at me, I can’t stop apologising or laughing.
And I don’t even have caffeine on my system to act like a total weirdo. Let’s say we both look pathetic, all right?
I am so, so sorry! Estava apressada e cansada e não te vi e queria chegar em casa logo e esses documentos estão pesados e... Merlin, me desculpe! Está tudo bem? Podemos nos livrar da mancha de café rapidinho, mas você tem certeza de que não se queimou? Dear lord, why am I laughing?
Margot Robbie photographed by Mark Mann at Sundance 2015.
Sienna Aurora Cauldwell. 24 anos. Ex-Hufflepuff. Muggle-Born.
“Women like you should not be brutalised. You are generations of blood and fire, you are all war. Something violent and brutal and ugly is howling inside of you. Act like it.”
「Biografia」
Sua vida não começou de forma poética e bela e nunca, desde os seus primeiros instantes, foi fácil. Era como se o destino a tivesse escolhido ao acaso para testá-la infinitas vezes, surpreendê-la com um gancho de direita para somente depois chutá-la na barriga e vê-la ficar sem fôlego. Sienna sempre teve a impressão de que não vivia sua vida mas sobrevivia a ela e talvez isso diga muito a seu respeito. Contudo, se existe algo que aprendeu ao longo dos anos de provações foi a resistir, a aguentar firme e esperar por um momento para sorrir, como o boxeador azarão que aguarda pacientemente para transcender os golpes ininterruptos. Foi por conta desses golpes que a vida endureceu sua pele e fez dela uma casca, dura e áspera e densa para impedir que fosse ferida de novo e de novo. Nunca foi fácil, especialmente porque ela precisava se esforçar para não deixar que a vida endurecesse também o seu coração, mas ela ainda tenta, ainda tenta sobreviver.
Tudo começou com o final de uma guerra. Era 1945 e o Reino Unido respirava aliviado depois de anos de calvário, sangue, fome e medo. Quando Hamish Cauldwell voltou para a Inglaterra, ele desejou ter perdido a vida nas trincheiras. Era quase injusto que seu coração ainda batesse quando todos os amigos que conhecia estavam enterrados debaixo da terra. Havia deixado o seu país e a sua família ainda um garoto, com dezoito anos recém completados, sem qualquer barba no rosto e tomado pela vontade de lutar pela sua nação. Sua ingenuidade o cegara completamente e logo o menino ansioso para matar nazistas encontrou uma realidade assustadoramente diferente. Hamish nunca soube porque escapou da morte, porque os tiros atingiam somente os homens que estavam ao seu lado ou porque conseguira sobreviver a uma granada, perder parte da perna e ganhar a vida. Passou dias desacordado numa unidade hospitalar extremamente precária no meio do nada, suando, sangrando e murmurando coisas das quais não se lembra, masviveu. Voltou para casa condecorado, um sobrevivente, um herói, mas por muito tempo sentiu-se morto por dentro, como os muitos corpos que viu apodrecer aos montes embaixo de chuva e lama. Havia visto demais, coisas que dificilmente poderiam deixar um homem completamente são.
Levou alguns anos para que os pesadelos deixassem de atormentá-lo todas as noites e mais tempo ainda para que os fantasmas lhe dessem um pouco de sossego. Ele sabia que jamais poderia voltar a ser o mesmo Hamish de sempre, era um homem completamente diferente agora. Até procurar um trabalho, passou boa parte de seu tempo na companhia de garrafas de bebida e prostitutas na esperança de que isso o ajudasse a esquecer e a anestesiar sua dor. Não tinha mais seu irmão mais novo por perto (o mais velho ele havia perdido na guerra e, apesar de procurar o mais novo depois de seu regresso, as coisas não eram mais como antes entre eles), não tinha mais seus pais (sua mãe falecera de desgosto ao saber da morte de seu primeiro filho e seu pai sucumbira a tuberculose meses depois), não tinha mais a namorada da adolescência (a encontrara casada com outro homem no dia em que resolveu procurá-la após sua dispensa) e não tinha mais os amigos que havia feito durante aqueles anos que ele tanto desejava esquecer. Hamish Cauldwell não tinha ninguém, estava completamente só numa Inglaterra repleta de mudanças e ceder para os vícios parecia ser o que o destino havia reservado para ele. Poderia não ter morrido por uma bala ou uma granada, mas quem quer que o visse poderia supor que ele estava determinado a morrer pela demasiada quantidade de bebida alcoólica que ingeria diariamente e pelas brigas em que se metia. Estava perdendo a si mesmo.
Foi nessa época que conheceu Erin Faraday. Ela não era a moça doce e amável que o tiraria de uma vida decadente, que o inspiraria a mudar e o faria um novo homem, não. Erin era uma prostituta, uma das muitas que passaram pela vida de Hamish, claro, mas certamente a mulher mais esplendorosamente incrível que ele já havia visto em toda a sua vida e isso não era fruto somente de sua beleza física. Faraday era exuberante, com enormes e maliciosos olhos azuis, lábios carnudos e bem desenhados, longos cabelos claros e uma personalidade equivalente a uma cidade em chamas. Carregava consigo uma energia inexplicável, uma paixão pela vida e uma sede por liberdade que quase a transformavam em poesia. Era um furacão, um avalanche, uma força da natureza, algo que não podia ser possuído ou parado, apenas admirado de longe e em uma distância segura. Juntos, viveram versos obscenos e repletos de luxúria dignos de Bukowski. Não havia qualquer compromisso ou coisa similar, apenas a necessidade do calor, do contato e do toque do outro ao ponto de passarem dias trancados em um sujo quarto de hotel. Eles quase se amaram. Do jeito deles, entre beijos e brigas, mas quase se amaram.
Quando Erin engravidou, ela e Hamish até tentaram ficar juntos e montar uma família. Ela deixou para trás a prostituição e ele conseguiu trabalhar como policial graças ao seu histórico militar, mas era difícil porque as brigas bobas sobre ciúmes e falta de dinheiro atrapalhavam a busca pela normalidade encontrada em outras tantas famílias. Ainda assim, eles tentaram. Quando Sienna nasceu, pequena e prematura, foi como se tudo enfim estivesse certo entre eles, como se aquele pequeno ser trouxesse consigo a bonança há tanto tempo desejada, uma harmonia quase celestial, o tipo de calmaria que até levantava suspeitas de uma tempestade. Contudo, quando as coisas começaram a desandar, era como se tivessem sido soterrados por um avalanche. Dívidas, brigas, Hamish e suas bebidas, Erin e sua instabilidade, um bebê necessitado de cuidados e atenção, ingredientes extremamente perigosos que, quando juntos, parecem resultar numa verdadeira bomba atômica. Antes de Sienna completar um ano, Erin havia sumido no mundo. Não explicou o motivo ou deu a Hamish uma justificativa, apenas transformou-se em um fantasma. Com uma criança para cuidar, não havia escolha para Hamish - ele precisava largar seus vícios e se tornar o pai que a pequena Sienna precisava.
Ela era o seu pequeno milagre, a única motivação capaz de tirá-lo do fundo do poço e alimentá-lo com a força de vontade suficiente para mudar a vida que tinham. Não foi fácil, é claro, porque educar uma criança já é muito difícil quando se tem um lar apropriado, a tarefa torna-se ainda mais complicada quando se é pai solteiro num emprego perigoso, ganhando pouco e tentando administrar as dívidas, mas de alguma forma Hamish conseguiu, dando a Sienna a melhor infância que ela poderia ter. Ou quase isso, pelo menos. Não foi uma infância bonita, dourada e repleta de inocência mas certamente foi a melhor que ele conseguiu dar a menina considerando as circunstâncias.
Eles moravam em uma área de classe baixa e violenta de Londres muito conhecida pelo seu histórico de crimes e brigas entre gangues. Como um policial, o perigo era quase duplicado para Hamish e sua Sienna, mas o senso de companheirismo da comunidade conseguiu abrilhantar a precariedade da vida que levavam. A casa em que moravam era pequena e antiga, de forma que haviam reparos para serem feitos em quase todos os cômodos, algo que eventualmente era adiado ao longo dos anos por conta da falta de recursos. Sienna tinha um parque perto de casa para brincar, era amiga de boa parte das crianças da rua e fazia vezes de babá para a prima Florence depois que seu pai voltou a se aproximar do irmão mais novo e sua família. Conhecia desde a senhora dona de muitos gatos da casa da porta vermelha até o padeiro na parte alta do bairro e costumava passar o tempo livre depois da escola na delegacia, passando horas conversando com os amigos do pai que se tornaram tios e padrinhos ao longo dos anos. Foi com eles que aprendeu diversas coisas que uma garotinha certamente não deveria saber, como, por exemplo, a enrolar um cigarro, atirar em garrafas de vidro, cuspir a uma distância admirável, arrotar o alfabeto e recitar uma infinidade de palavrões. Era aventureira e alegre e iluminava qualquer ambiente em que estivesse, mas sua vida nem sempre foi colorida.
Começou a ter vislumbres de um mundo adulto e perigoso quando o pai chegava muito ferido em casa depois de um dia de trabalho e suas pequenas mãos de criança precisavam ser firmes para limpar e cuidar dos ferimentos, mas foi aos sete anos de idade que a vida lhe deu o primeiro golpe. Era Erin que voltava, aparecendo na porta da casa praticamente irreconhecível. Quando a mulher a abraçou enquanto a chamava de pequena menina e sorria para ela com dentes amarelos, Sienna pensou que ela tinha um odor quase industrial, algo que lembrava sangue, sujeira, fumaça, álcool e doença. Era o que as drogas e a marginalidade faziam com as pessoas, lhe disseram. Hamish a acolheu sem pensar duas vezes e prometeu ajudá-la a sair daquela vida mas Sienna a detestou no momento em que a viu pela primeira vez. Seu pai poderia ter deixado de lado a mágoa do abandono mas não ela, não. E cada vez que precisava tapar os ouvidos com o travesseiro para não ter de ouvir os escandalosos e desesperadores gritos de abstinência da mãe ou limpar restos de vômito, Sienna a detestava ainda mais.
Nenhuma criança deveria odiar a própria mãe ou ver alguém definhar daquele jeito.
Depois disso, a vida dos Cauldwell seguiu um ciclo vicioso de idas e vindas, altos e baixos. Erin e Hamish estavam juntos novamente e a mulher tentava reconquistar uma filha que não a queria por perto. Em alguns meses tudo parecia bem, em outros tudo parecia um desastre. Erin sempre havia sido instável e impulsiva mas a luta para permanecer limpa parecia tê-la deixado ainda mais irritadiça. Sienna nunca confiou na mãe, nunca realmente acreditou que ela merecia estar com eles novamente mas o pai nunca lhe dava ouvidos. Segundas chances existiam por um motivo, ele dizia. A desconfiança da menina ganhou mais força quando acidentalmente flagrou a mãe com outro homem e Erin ameaçou surrá-la caso contasse ao pai o que havia visto. Foi exatamente nesse momento que suas habilidades mágicas se manifestaram pela primeira vez, fazendo as mãos de Erin arderem como se tocassem ácido cada vez que encostava na filha. Um pequeno demônio, foi o que a mãe lhe chamou. E por um tempo Sienna realmente acreditou que era exatamente isso o que era, por diversas vezes rezando baixinho ao lado da cama e pedindo a Deus que tirasse aquele ser das trevas de seu corpo. Talvez fosse verdade, talvez ela estivesse mesmo possuída, talvez fosse filha do diabo porque que outra explicação poderia existir?
As coisas pioraram quando Sienna começou a fazer objetos se moverem dentro de casa sempre que estava nervosa ou quando fez um menino que a importunava ir parar no hospital depois de engasgar com as próprias palavras. As pessoas da vizinhança começavam a cochichar quando achavam que ela não estava ouvindo, seus amigos da rua não mais deixavam que ela brincasse com eles e alguns a olhavam torto quando a viam. Seu pai foi o único que manteve-se ao seu lado, abraçando-a sempre que chorava com saudade dos amigos e rindo quando Sienna lhe perguntava se ela estava mesmo possuída.
As respostas surgiram com a visita de um homem de longos cabelos e barba grisalhos e roupas demasiado excêntricas. Uma bruxa. Sienna não demonstrou qualquer reação porque estava acostumada com aquilo, a ser chamada de estranha na rua por aqueles que antes eram próximos dela. Quando o homem insistiu, ela apenas riu, mas assim que ele transformou uma xícara velha em um vaso de flores, a menina de cabelos claros rapidamente acreditou no que Albus Dumbledore lhe dizia. Ela era uma bruxa e ele a convidava para estudar magia em uma escola que nunca havia ouvido falar.
Sua mãe foi contra, algo que não soou como novidade para Sienna. “Estão pregando uma peça em nós, ainda acho que aquele velho é apenas um charlatão com um truque barato”, “Ela não vai, pagar pelos estudos dela vai ser muito caro e precisamos do dinheiro” e “Ela não precisa disso. Pode muito bem continuar sendo quem sempre foi. Magia? Uma piada de mal gosto” se tornaram comentários muito comuns na casa dos Cauldwell. Hamish mais uma vez se colocou ao lado da filha e aquela foi a segunda vez que Erin os deixou.
Hufflepuff recebeu Sienna de braços abertos e Hogwarts foi o primeiro lugar em que se sentiu realmente em casa. A menina rapidamente esqueceu dos amigos da rua que a deixaram de lado assim que os maldosos rumores tomaram conta da vizinhança, encontrando amizades que perdurariam por uma vida. Eles a ajudaram a compreender aquele mundo do qual nunca havia ouvido falar, explicando a ela desde porque o teto do Salão Principal parecia o céu até como voar em vassouras. Como aluna, Sienna não era a melhor de seu ano mas seus professores diriam que ela certamente tinha potencial e que poderia ir longe se passasse menos tempo rindo com os amigos nos jardins e mais tempo na biblioteca. Era mediana, não de todo ruim mas também não excepcional, porque preocupava-se mais com garotos e em acompanhar jogos de quadribol do que em estudar para o exame de Poções.
Durante sua educação mágica em Hogwarts, Sienna jogou no time de quadribol de sua casa (com vassoura e equipamentos emprestados da escola e dos colegas porque não tinha dinheiro para comprá-los), passou horas ouvindo música em rádios encantados com os amigos, roubou muita comida das cozinhas e esgueirou-se em armários de vassouras com rapazes como qualquer garota da sua idade. Queria encaixar-se naquele mundo porque a vida em Londres não lhe bastava mais. A mãe eventualmente voltou e sumiu de sua vida e da de seu pai durante todos aqueles anos, indecisa se realmente queria ficar ao lado deles ou não e elas nunca realmente se acertaram.
Após a formatura em Hogwarts (depois de muito esforço para elevar suas notas e conseguir uma vaga no programa de obliviadores do Ministério), Sienna manteve contato somente com o pai, visitando-o constantemente e enviando-lhe cartas quando não podia vê-lo. Mudou-se para um apartamento mais próximo do centro de Londres graças as economias que juntava desde a época da escola, concentrando-se no treinamento para que pudesse calcar sua própria trajetória. Foi quando conheceu Duncan Nott.
Sienna sabia que não deveria ter se aventurado naquele caminho desde o início. Ele era casado, mais velho e um de seus superiores no Departamento de Acidentes e Catástrofes Mágicas, mas a atração era inegável. Tudo começou com algumas conversas nas pausas para o café, depois um convite para o almoço e logo tentavam esconder de todos que estavam dormindo juntos. A gravidez foi inesperada, um descuido, um acidente que mudaria a vida de Sienna para sempre. Foi inevitável não entrar em pânico, mas ela nunca teve dúvidas de que teria aquela criança, e a revolta de Nott e o choque dela frente aos insistentes pedidos dele para que a abortasse apenas fizeram Cauldwell se certificar de que estava fazendo a escolha certa. Tais acontecimentos pareciam ter derrubado a máscara de Duncan, que mudou completamente a forma que a tratava. Ele não iria ajudá-la ou assumir aquele bebê, fazendo questão de deixar claro que desde o princípio aquilo era somente diversão e nunca algo sério. Afinal, ele tinha uma esposa, filhos e uma reputação a zelar. Um bastardo fora do casamento já era um escândalo por si só, ainda mais um bastardo com uma muggleborn. (Passar noites com uma sem que ninguém visse parecia não ter problema, deixar que outros soubessem disso, não).
Cauldwell não se deixou abalar pela indiferença de Duncan pelo bebê que carregava. Não precisava dele, afinal. Ela teria aquela criança e ela seria somente sua e de mais ninguém e foi exatamente isso que aconteceu quando Faye Cauldwell, não Nott, veio ao mundo, pequena, delicada mas com pulmões fortes o suficiente para chorar sem parar assim que saiu de sua barriga. E desde que a segurou nos braços pela primeira vez, Sienna soube que seria capaz de proteger e defender aquele pequeno mesmo que isso custasse sua própria vida. Como sua própria mãe nunca havia feito por ela.
「Headcanons」
Detesta profundamente a mãe, que deixou ela e o pai antes mesmo de Sienna completar um ano de idade. Mesmo quando Erin Faraday voltou para a vida deles anos depois e teve a ajuda de Hamish para se livrar da dependência química, Sienna nunca sentiu pena ou qualquer tipo de empatia pela mulher. Erin tornou a sumir e reaparecer na vida deles de novo e de novo ao longo dos anos, fugindo a procura da liberdade que costumava ter por tanto tempo e voltando arrependida em busca da família, nunca se decidindo sobre o que realmente deseja para si mesma. Sienna a odeia ainda mais por isso, por torturar emocionalmente seu pai e não deixá-lo seguir sozinho. Por tanto desprezar a própria mãe, jurou para si mesma que nunca seria menos do que excepcional com a própria filha, Faye.
Sua filha é fruto de um adultério. O pai de Faye, Duncan Nott, é um homem casado, com esposa, filhos e, além disso, seu superior no Departamento. Nott pediu que Sienna cogitasse um aborto, algo que ela se negou completamente. Desde então ele nunca sequer se interessou pela criança e Sienna prefere que isso permaneça assim, apesar de sentir-se encurralada com os olhares do homem no trabalho. Ela tem medo dele e do que quer que ele poderia fazer para impedir que a bastarda com uma muggleborn manche sua reputação.
Apesar de ter saído de casa assim que se formou em Hogwarts, Sienna converte parte de sua renda em moeda trouxa para ajudar financeiramente o pai, algo que ela faz sem qualquer hesitação. Mora sozinha com a filha em um apartamento próximo do centro de Londres e, depois de uma infância difícil, pode-se dizer que ela finalmente tem uma situação financeira estável e segura.
「Origens」
Nacionalidade: Inglesa
Pais: Hamish Cauldwell e Erin Faraday
Filha: Faye Cauldwell
Prima: Florence Cauldwell
Sienna é Obliviadora no Departamento de Acidentes e Catástrofes Mágicas. Sua FC é Margot Robbie e sua player a Nanda.