A raiva esclarecedora
A raiva é esclarecedora, ao contrário do que muitos dizem por aí.
Não a raiva do momento, a contagiada por ondas de ira à revelia de nós mesmos. Mas sim, a raiva do depois. A raiva emancipatória dos “deveria” e “poderia”. Poderia ter feito isso, penso. Deveria ter dito aquilo, remoo entredentes.
E não importa o quão intenso o sentimento seja, a incapacidade de voltar ao passado e retomar a tão esperada cena nos deixa à paisana, observando formigas na terra, similares à nossa própria pequenez.
É engraçado para os outros. Pode mesmo ser engraçada a culminante batalha de egos das relações interpessoais. Pode entreter, pode até divertir. Contanto que você não seja o centro da controvérsia. Aí a história é outra.
Porque há pessoas que se orgulham de serem explosivas. Temperamentais, elas chamam. Pavio curto. Digo o que penso e o que me deixa com raiva na hora em que penso que me deixou com raiva e você que se foda e isso sou eu e isso é o certo e a errada, amiga, sabemos que é você.
Essa cegueira intempestiva costuma coabitar com seus seres, segundo minha rigorosa análise, brotando em momentos indefinidos. Regurgitar palavras e dedos em riste apontados às vítimas circunstanciais.
De vítimas não temos nada. Somos igualmente agressoras e agressivas em momentos outros. A intempestividade, no entanto, nos temperamentos não pré-dispostos ao combate, não acentuados pela aguerrida força de lutar, hiberna até completar seu ciclo natural.
Recebemos de supetão o ímpeto audaz e, como não dispomos do mesmo repertório ultra-inflamado de razões irracionais, acolhemos o “eu, eu, eu” ajuizado e o “você, você, você” impiedoso, que se junta ao fundo de nossos complexos, agrupando mais material de autoimolação ao subconsciente.
Ouvimos e delicadamente nos retiramos e pedimos desculpas, com a certeza de que os fantasmas nos atormentarão por dias. E que aquele gesto inflamado e leviano, que não custou mais que 30 segundos de desabafo raivoso daquele que nos fala, reverberará em muitas horas de autoanálise e autoflagelo.
Quem não dispõe desse sistema autoacusativo tem mais facilidade para acusar. Quem não dispõe da fragilidade de autodefesa costuma saber bem se defender.
E quem escuta o falatório, engole a seco as palavras que lhe são jorradas na cara e o ódio dirigido a outrem. Afinal, alguém tem que se munir dos degraus civilizatórios, alguém tem que se resguardar dos impulsos primitivos, alguém tem que pedir desculpas e alguém tem que ficar de um lado pro outro à mercê do perdão.
E esse alguém não cabe ao outro ser. Chega de esperanças vãs de compartilhamento humano na tentativa de nos perdoarmos entre nós pra passar o dia. Esse alguém não tem raiva. Esse alguém tenta se regenerar dia pós dia, ouvindo ao longe os sinos da missão cumprida, sem gratidão e sem sucesso.
Rrraivosa













