Copa das copas ou De como o brasileiro cantou a derrota precipitada junto à mídia
Vaias. E mais vaias. Inúmeros protestos se espalhando ao redor do país, protestos que já ocorriam há um tempo, mas agora com a promessa de se intensificarem na copa. Protestos justos, legítimos, que buscaram escolher momentos de destaque e relevância nacional para serem ouvidos. O grito de derrota, porém, premeditado pela mídia, apostou todas as fichas no “imagina na copa” e nós, como papagaios adestrados, repetimos incessantemente o bordão.
Em tempos de ameaça comunista (!!!), da “““ditadura dos gays”””, de vovós se esgoelando em vídeos anti-PT e pró-Brasil, a direita-coxinha toma as rédeas do poder, agrupando fatos (nem sempre reais) aleatórios para justificar seus posicionamentos. Os meios de comunicação que disseminaram o pânico geral pré-copa agora calam sua revolta e dão lugar à “alegria do povo brasileiro”, “ao esporte da nação”, às meninas bonitas – musas disso ou daquilo – vibrando no estádio e aos takes com um/uma repórter cercado(a) por quinze bêbados pulando e torcendo para as câmeras.
O que significa isso? Que o futebol aliena? Que vivemos de pão e circo? Que essa é uma tática governista estratégica para que não pensemos nas eleições do país? Mas que tipo de raciocínio retrógrado é esse, hein?! Como se já não bastassem todas as culpas acumuladas, agora deveríamos sentir culpa por torcer na copa NO BRASIL. Torcer significa que você apóia a Dilma, logo, é comunista, logo, come criancinhas. Mas aí, o povo não é bobo. Vai pro estádio. Paga uma fortuna nos ingressos (alguns – quem pode, pode). Mas não está satisfeito. Falta vaiar a presidenta, mostrando indignação política na hora mais apropriada possível. Num jogo de futebol. “E pra se revoltar tem hora, por acaso?”, você pode perguntar. Sim, tem hora. E não proponho a demagogia inócua de que “você deve protestar na hora da eleição”. Não. Eleição de cu é rola. Você pode até mudar o partido e o/a protagonista – o que tem graves consequências, assim como pode trazer melhorias substanciais à qualidade de vida de grande parte da população. Porém, as engrenagens mais profundas de um sistema embutido no funcionamento do país permanecem por lá. Intactas. E, pra chacoalhá-las a ponto de causar algum efeito, uma reforma política drástica se faz necessária. Uma reforma que altere a maneira de pensar politicamente o Brasil. Uma reforma que não tenha medo de ser taxada de comunista. Que não fuja desse rótulo como o diabo da cruz. Afinal de contas, pra eles, pra direita, basta se vestir de vermelho pra ser comunista. Abrir uma discussão sobre o aborto, sobre a legalização da maconha e de outras drogas é praticamente assinar contrato com o capeta. Nesse país dominado por correntes religiosas incrivelmente cerceadoras de várias liberdades das minorias.
E tem muita gente investindo tempo, força e dinheiro para que mudanças positivas ocorram no país. Políticos fazendo política. E pessoas fazendo política, sem rótulo ou preocupação em “ser político”. O que essas pessoas têm? Onde elas estão? Como elas vivem?
Como nós. E torcem pela copa sim. E vibram com esportes, música e televisão. Não compram, no entanto, o discurso falacioso e redutor da “grande mídia” brasileira. Não adquirem suas informações pelo Jornal Nacional. Recusam-se a considerar o Bom dia Brasil, com suas infinitas tentativas infelizes de piadas e descontração, como jornalismo. Recusam-se a rir com Sandra e Evaristo no Jornal Hoje. Comem, consomem e giram a máquina capitalista. Mas o fazem de outra maneira. E são chamadas de comunistas. Se você pretende alguma mudança séria no Brasil e você ainda não recebeu o discurso de ódio da direita, pare. Volte. Você está apenas fazendo mais do mesmo. É preciso que mais pessoas se disponham e se arrisquem politicamente. Essa pessoa não sou eu. Não sei se é você. Eu espero que seja você. E espero que eu possa me juntar a você algum dia numa batalha nossa – conjunta – de todos.
Torçamos pra copa, então. Sem culpa e sem vaias indevidas. O protesto não é apenas o ato, mas um modo de vida. Uma maneira de enxergar o mundo. É a recusa em aceitar o status quo, o estabelecido, como única possibilidade de existência. É propor o novo e assumir as consequências. É fugir dessas grandes mentiras repetidas à exaustão e que, porventura, como um verme, começam a consumir nossas entranhas, até misturar-se a elas. Temos que detectar as mentiras que aceitamos, os discursos confortáveis que aliviam nossa culpa cristã e classe média e nos fazem conseguir fechar os olhos à noite. Todos merecem fecha os olhos, eu sei, mas não às custas de milhares de vidas de nossos iguais, tratados como inferiores por um sistema que os degrada, os maltrata e os ridiculariza de maneira cruel. Vaiar a presidenta não faz nem cócegas perto do quanto devemos agir pra realmente mostrar descontentamento de forma eficiente e nos engajarmos em lutas sadias e justas. É ver quem está fazendo o quê em tal partido. É começar a olhar pra outros tipos de mídia. É, resumindo, transformar o olhar.
R.









