É o famoso "She can fix me" / "I can fix him". 🤦♂️

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É o famoso "She can fix me" / "I can fix him". 🤦♂️
A Arte da Sociabilidade.
Depois do surgimento das redes sociais o mundo avançou rumo a globalização. As palavras “contatos e seguidores ganhou destaque, assumindo contornos globais. Tornou-se possível reduzir distâncias continentais e aproximar povos longíquos. Nasceu então o mundo sociabilizado. O objetivo sempre foi fazer amizades. Logo após a explosão inicial e a crescente adesão de usuários de diversas partes do…
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"humanos são seres sociais tão porosos que, quando nos cercamos de outras pessoas, automaticamente aderimos a suas opiniões e gostos estéticos. Para realmente seguir nossos caminhos ou visões, devemos estar dispostos a nos sequestrar, ao menos durante um certo período de tempo"."
E tem matéria nova no #blog central do #projetorodacultural . Hoje com o tema #sociabilidade onde coloco em destaque a importância da sociabilidade para as gerações futuras e a civilização moderna. Acesse e leia mais... www.novecentosgraus.blogspot.com.br
A SOCIALIZAÇÃO E A VOLIÇÃO HISTÓRICA
Por mais que tentassem falar com o menino, as tentativas eram angustiantemente frustrantes: eram respondidos com assovios, chilros e gorjeios, enquanto o pequeno balançava seus braços como se pudesse voar. O viveiro onde Vanya Yudin havia crescido até seus sete anos foi descoberto em 2008. Até lá, sob os cuidados de sua mãe, que o mantinha como um animal de estimação, o garoto cresceu na companhia de algumas dezenas de pássaros, que o ensinaram sua própria língua. Sua mãe negligente nunca deixou que lhe faltasse ração, nunca deixou que ficasse doente, e nunca lhe referiu uma só palavra. Os assistentes sociais russos, pasmos com a aberração psicológica que presenciavam, logo o colocaram aos tratos civilizados de um asilo.
A história de Vanya Yudin é apenas uma das várias histórias de crianças ferais ao redor do globo que, encontradas sob a tutela de animais, nos provocam um fascínio quase sádico, e ainda assim incômodo. É perturbadora a imagem, pois coloca em cheque a própria humanidade. Ser humano vai além de ter um corpo humano? São essas crianças criaturas sem alma, assim como acharam os Europeus quando avistaram os primeiros índios na América?
Oxana Malaya foi encontrada aos cinco anos em um canil, vivendo ao lado de cães. Documentada em vídeo, Oxana latia e corria de quatro assim como seus companheiros. Se existe Natureza humana, onde ela se manifesta?
Esses raros casos são irreplicáveis por uma série de motivos, e por isso seus acontecimentos casuais devem ser analisados com cuidado, por constituírem parcas conexões com quem realmente somos, em nossa forma mais “pura”, isenta de influências previamente humanas.
Diante dessas crianças, todas as centenárias suposições de que existiria uma Natureza Humana universal desfalecem. Como pensar a propensão à troca, ao poder ou à violência em uma criança criada por galinhas? E se fossem diversas crianças criadas por pássaros? Se fossem várias crianças, simplesmente abandonadas juntas em um quarto escuro?
O único comportamento que se observou como constituinte de um traço comum entre todos os seres humanos é sua capacidade de reproduzir comportamentos exibidos por seu meio, constituindo uma linguagem própria, numa forma de interagir e se integrar a grupos. Talvez, de fato, a única inferência válida que possamos traçar sobre a suposta Natureza Humana seja sua propensão à sociabilidade. O ser humano é um ser flexivelmente sociável, no sentido de que é capaz de internalizar códigos sociais aos quais é exposto, de modo a interagir com demais indivíduos grupalmente. A sua propensão à sociabilidade não se limita apenas à espécie humana, muito pelo contrário: as crianças ferais nos mostram que o ser humano é capaz de internalizar e reproduzir códigos, linguagem e comunicação próprios de outras espécies sociais, como lobos, cães, cabras e até mesmo aves. Essas crianças animalescas não poderiam ser mais humanas.
Estes demais complexos sociais partilhados por animais, que, por mais que digam o contrário, também se pautam em uma linguagem própria, se diferenciam do mecanismo humano de sociabilidade em sua maleabilidade. É a capacidade do ser humano de responder a novos e diferentes estímulos que o diferencia. O ser humano se forma dentro da sua interação com os outros e seu meio, sempre internalizando e reproduzindo estímulos e comportamentos. Esse processo chamamos de socialização.
Na vida em sociedade, a socialização é o mecanismo que segura o coletivo como minimamente homogêneo. A socialização é o processo responsável por estabelecer uma linguagem comum, que permite a comunicação e a interação extra individual. Socialização é o nome que atribui-se ao decurso da formação de um indivíduo como membro de um conjunto social mais amplo. É através dela que se reproduzem os símbolos e estruturas de uma sociedade. Desde que nascemos, temos nossos códigos sociais moldados pelas pessoas com quem convivemos.
A linguagem não forma apenas nossa comunicação: ela molda a maneira com a qual entendemos e interpretamos o mundo a nossa volta. Ela media os estímulos que recebemos, atribuindo a eles significação e interpretação. É esse conjunto de símbolos que, socializados (isto é, amplamente compartilhados por um grupo), formam a cultura como a conhecemos.
Se a socialização é o atributo propriamente humano, entende-se que todo o resto é socialmente construído a partir dela. A necessidade de interação humana nos compele a agir conforme os grupos agem, obedecendo inconscientemente (de início) às expectativas daqueles que convivem mais proximamente a nós. No Ocidente, a criança é iniciada através da educação dada pelos pais. Eles a ensinam a falar, a constituir gênero, a reconhecer certo distanciamento com a Natureza, a obedecer, etc. Uma vez que os signos mais estruturais da sociedade lhe são adequadamente instituídos, ela pode adquirir certa autonomia e se engajar na sociabilidade com outras crianças, onde a socialização passa a se reproduzir de um modo praticamente autossuficiente. A criança deixa de ser um sujeito passivo na socialização, e passa a atuar conjuntamente no processo, ainda que assistidas vez ou outra por tutores já socializados. Aos poucos, surge a pressão do grupo: seja na forma de brincadeira e simulação, seja numa diferenciação autêntica de núcleos, os papéis e estruturas sociais aparecem e marcam a constituição dessas pessoas.
O que na infância ocorre através da educação, mais tarde adquire a forma de pressão social, no perverso desejo de se adequar aos grupos e às suas respectivas normas. Por mais que o indivíduo tenha o poder da escolha, ir contra essas regras inconscientes é uma escolha difícil. A reprodução de um comportamento é sempre reforçada positivamente pelo grupo. A exclusão é a pior das penas, ainda mais no processo construtivo de caráter. Ainda que nada seja formalmente dito, todos os mecanismos atuam de forma a compelir o indivíduo a agir conforme os códigos já estabelecidos.
O processo de socialização nunca propriamente se encerra. Em cada interação, comportamentos e estímulos são processados e significados. Porém, um indivíduo é considerado propriamente socializado quando este já constituiu uma base razoavelmente sólida dos fundamentos de uma conduta social. Uma vez atingido este ponto, a pessoa é considerada apta para a vida social, e passa a estabelecer laços que reforcem seus comportamentos através do conforto e da segurança, estabelecendo grupos que, por sua vez, formarão referência aos indivíduos que se encontram em processo de socialização.
É crucial notar que esse processo é, antes de tudo, inconsciente, e forma desde as grandes instituições sociais até os minuciosos pormenores na forma como agimos. E, por atuar sobretudo nas sutilezas do nosso ser, geralmente passa como um comportamento natural, que é justamente o objetivo do texto desconstruir. Ideários sobre gênero, idade, natureza, raça e, de maneira mais ampla, poder são construídos através de uma linguagem socialmente estabelecida, que dá sustento a instituições que, por sua vez, se manifestam materialmente. Ou seja, a socialização do poder faz com que a diferenciação social seja amplamente aceita, permitindo que alguns extratos sociais se apropriem do que é materialmente necessário à vida. Uma vez estabelecida essa instituição, sua existência não se afirma apenas em sua sociabilidade e aceitabilidade, mas também concretamente, já que as pessoas passam a depender dela materialmente. Ou seja, não basta desconstruir a ideia e a sociabilidade do poder, uma vez que a questão passa a ser física e envolver a própria sobrevivência humana.
O poder constitui uma linguagem, mas essa linguagem se preserva em cima do monopólio material da reprodução da vida. No capitalismo, a socialização da obediência e do reconhecimento das hierarquias se dá cotidianamente em praticamente todas as nossas relações sociais. Mas é a concentração econômica de recursos vitais e a centralização política da violência que garantem que, por mais que eventualmente a sociabilidade das instituições entrem em crise, elas ainda tenham meios concretos de manter sua reprodução. Dessa forma, a materialidade e a sociabilidade se retroalimentam: uma se sustenta na outra, tornando qualquer ação voluntária extremamente volúvel.
A compreensão desses instrumentos permite entender de maneira mais clara como se sustentam as organizações sociais da nossa e das demais sociedades humanas. Se após uma reflexão crítica da forma em que se organiza nossa sociedade, entende-se necessário romper com dadas instituições, é desejável compreender como que estas instituições se sustentam.
Ora, elas se constroem em cima de ideias aceitas – consciente ou inconscientemente – e, com elas, sobre seu plano material. Porém, mesmo quando negamos, conscientemente, agir conforme as expectativas e as normas mais amplamente socializadas, estamos reforçando a existência dessas normas, pois elas não se expressam apenas no plano material, e sim principalmente no plano da linguagem e da mente. Por exemplo, consideremos o poder uma linguagem – um código social – com suas expressões e implicações materiais. Por mais que se clame lutar contra o poder, numa forma rebelde de anarquia, sua negação reforça a existência do conceito, pois para negá-lo, é necessário reconhecer sua existência. Assim, enquanto a linguagem – inconsciente e consciente - não for erradicada, o poder continuará a existir e sempre existirá a possibilidade de sua reprodução.
Talvez por isso Braudel compreendia a insignificância dos movimentos de curta duração. Como um bom conservador, ele entendia que a sociedade se sustenta nos hábitos e tradições sedimentados em processos centenários de socialização. As Revoluções clamavam uma quebra de paradigmas, ao invés de sua lenta, gradual e orgânica transformação. Uma vez destruída a ordem de estabilidade, as relações sociais não conseguem se organizar sob um ordenador comum: o desarranjo da sociedade implica em crise, e, em meio à crise, as velhas estruturas voltam a se reproduzir. Após a euforia coletiva, tudo volta a ser como era. O tempo de uma revolução que dura menos que o tempo de uma vida não é suficiente para que se consolidem, no plano inconsciente da socialização, os novos paradigmas de uma nova sociedade, que opere de maneira estável. Foi o caso da Revolução Francesa, e, mais tarde, da Revolução Russa.
O poder só deixará de existir quando deixar de fazer sentido, quando não for mais uma ideia ou uma linguagem concebível. Os únicos anarquistas autênticos são aqueles que jamais foram socializados em sua língua, como, por exemplo, os índios das sociedades sem Estado, como aqueles que não se subordinaram aos brancos não porque se recusaram, mas porque simplesmente não conseguiam entender o que significava se submeter a alguém. Talvez uma sociedade sem poder seja um futuro utópico, que deva ser alcançado lentamente no tempo-histórico, intergeracionalmente. Ou seja, se existe uma vontade coletiva de fazer uma transição a uma sociedade sem poder, ou quaisquer outras formas de sociabilidade, a principal via é a socialização dos novos indivíduos dessa sociedade.
O ciclo da materialidade e socialização é o elo praticamente irrompível da História. Se baseiam no que há de mais importante ao ser humano: a sua sobrevivência e sua existência e reconhecimento sociais. A socialização é particularmente morosa de quebrar: é um processo coletivo, é uma norma compartilhada não apenas por um grupo ou outro, mas por toda a sociedade em que se insere. Criar uma criança fora da linguagem do poder, por exemplo, é forçar sua morte social. A socialização constitui a reprodução das bases da sociabilidade, e não cabe a um ou outro indivíduo mudá-las. Mas, por mais que a esse indivíduo fosse suportável viver recluso, sua invalidez social cortaria seu acesso à vida material. No capitalismo, isso se daria de maneira friamente eficaz, já que a vida material acontece estritamente na esfera econômica, e esta opera de modo a excluir todos aqueles que não se mostram aptos a cumprir de cabeça abaixada as vontades do mercado.
A questão em jogo aqui é como quebrar com esse ciclo histórico milenar, voluntariosamente, levando em conta que, no fundo, o eixo material e o eixo cultural da vida constituem um só, e estamos presos perpetuamente a suas voltas famintas.
Creio que o primeiro passo para se responder à questão seja pensar no que consiste o indivíduo, e as implicações desse movimento talvez sejam um tanto amargas ao orgulho. Sejam as crianças que uivam e mordem, ou sejam os indígenas que cultivam seus mitos, ou nós ocidentais que temos essa obsessão cardinal pelo dinheiro: nunca nos é dada a opção honesta da escolha. Quem somos, como indivíduos, é um acúmulo de experiências processadas e significadas a partir de instrumentos que nos foram entregues, e jamais construídos. O indivíduo numa sociedade é um vértice de uma correlação de forças e influências, sobre as quais ele não tem controle, ele pode apenas se equilibrar. E nessa constante interação, as coisas parecem ser únicas, quando em verdade nada realmente muda tanto assim. O livre arbítrio talvez seja uma mentira muito bem sentida e construída por nós. Mas quem somos não nos dá de fato a opção de uma escolha: por mais que as opções nos sejam dadas, é como fomos crescidos, ensinados e vividos que determina nossa única possível escolha.
Se tudo ao indivíduo é um fator externo, portanto não há indivíduo, há apenas ilusão de unidade e autonomia. Essa conclusão não serve para desvalidar nossa perspectiva individual da vida, como experienciamos nossas relações ou pensamos e refletimos; mas sim para termos consciência de quão limitadas são nossas ações num plano individual e, quão potencializadas elas são quando reforçadas pelo coletivo.
A sociedade só muda no sentido em que o inconsciente coletivo muda, levando consigo no sentido da transformação as bases materiais, que passam a permitir outra forma de vida. A mudança virá, isso é por certo, mas carregada num processo lento e praticamente imperceptível, do qual muito provavelmente não faremos parte ativamente.
Afinal, somos todos uns abandonados a ladrar.
Lilian Roizman 22/08/2017
Bibliografia:“Alguém Com Os Outros”. BAUMAN, Zygmunt, 2001.e pensamentos diversos de Braudel, Foucault e Durkheim.
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