Sociedade 5.0: "roteiro" de ficção científica cheio de furos
Proposta de nova sociedade promovida pelo governo do Japão olha o próprio umbigo e não leva em conta questões sociais como pobreza e desemprego
Os acelerados progressos tecnológicos que o Japão foi protagonista nos anos 80 criaram a percepção de que o país já vivia no futuro, antecipando inovações que só se tornariam realidade em outras localidades muitos anos depois. Robôs industriais, notebooks e videogames portáteis foram criados ou desenvolvidas no Japão, para só então serem exportados. O GPS por exemplo, que no Brasil só se popularizou em meados dos anos 2000, já era realidade por lá desde o início dos anos. 90.
Não é de se espantar, portanto, que o modelo de sociedade do futuro também tenha surgido no Japão. Batizada de Sociedade 5.0, a "sociedade super inteligente" propõe suceder os quatro modelos de sociedade anteriores (caçadores-coletores, agricultura, industrial e informação) colocando a tecnologia (computação em nuvem, internet das coisas, inteligência artificial e robótica, entre outras) a serviço do bem estar do ser humano. Como? Resolvendo os principais problemas sócio-econômicos atuais, desde a substituição de combustíveis fósseis por fontes limpas e a crescente demanda por alimentos saudáveis até os efeitos do envelhecimento da população e a escassez de mão de obra.
Para ilustrar como viveremos nessa nova sociedade, o governo japonês criou um vídeo institucional mostrando como drones e veículos autônomos resolverão os problemas de transporte pessoal e de mercadorias; como a inteligência artificial e a internet das coisas poderão ajudar o nosso cotidiano em casa, desde monitorar a despensa até fornecer receitas saudáveis de acordo com o perfil de cada membro da família; como robôs enfermeiros poderão auxiliar nos cuidados com os mais velhos; como máquinas automatizadas irão substituir o trabalho pesado e perigoso e como a computação em nuvem vai aposentar o uso do dinheiro em cédulas e tornar as compras e viagens mais convenientes.
Por mais inspiradora que seja, a Sociedade 5.0 idealizada pelo governo japonês ainda soa como fantasia. Não pela tecnologia, que já existe e é até bastante acessível, mas pelas lacunas que ela não cobre, conscientemente ou não.
Em primeiro lugar é preciso analisar o contexto em que o modelo da Sociedade 5.0 foi concebido. O Japão é um país rico e desenvolvido em que a população está diminuindo (segundo dados oficiais, há um decréscimo desde 2009), envelhecendo (um terço dos japoneses já tem mais de 65 anos) e que oferece grandes restrições à entrada de trabalhadores imigrantes. Nessas condições, é natural pensar em usar máquinas e robôs para executar serviços pesados, perigosos ou repetitivos.
Mas e em países como o Brasil, em que as pessoas tem de se sujeitar a esse tipo de trabalho por ser a única condição de sobrevivência? Se a tecnologia acaba com essas atividades, o que os trabalhadores farão daí para frente?
De acordo com levantamento recém divulgado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ), com o avanço da automação nas próximas duas décadas o país tende a perder cerca de 9,2 milhões dos 16 milhões postos de trabalho que foram criados entre 2003 e 2016. O que a Sociedade 5.0 poderá fazer por esse exército de desempregados?
O vídeo me faz lembrar a estação espacial do filme Elisyum, onde a vida é perfeita, tudo funciona, mas só os ricos tem acesso. Enquanto isso, uma imensidão de pobres sobrevive em uma Terra arruinada, que lembra muito as favelas do Rio de Janeiro, Mumbai ou Cidade do Cabo. A Sociedade 5.0 é uma boa ideia que pode servir de inspiração para o uso da tecnologia, mas precisa ser mais debatida e incluir questões sociais e econômicas mais complexas, englobando soluções para reduzir a desigualdade. Caso contrário, não vai sair do campo da ficção científica.
Entenda melhor a proposta da sociedade 5.0 e tire suas próprias conclusões:
Society 5.0 - Apresentação oficial
Os problemas enfrentados pelo Japão por ter restringido de maneira dura a imigração