Quem roubou o direito ao amor?
Palavras-chave: por que o amor dói tanto, amor como direito de nascença, esperança em tempos difíceis, por que me sinto tão desconectado, espiritualidade e vazio emocional, quem sabotou o amor, sentido da vida e do amor verdadeiro
Escrever sobre amores que não se materializam se tornou uma epidemia. Todos têm um amor idealizado que frustrou o coração. Eu quero abordar esse tema, mas não quero que ele me naufrague. Estamos todos meio sensíveis, meio cansados. Merecemos um respiro de esperança. Não sei se a tenho, tampouco sei se tenho o suficiente para compartilhar — mas a busco. Incansavelmente.
Há algo muito bom em ser um buscador: nós não nos contentamos fácil. Buscamos saídas, buscamos cura, buscamos solução, buscamos... a esperança. E mesmo que a gente nunca a encontre, continuaremos buscando. Deus é inteligente demais para ter-nos criado para o fracasso. Eu sei que, no fundo, há um motivo para tudo isso.
Acho que há muitos corações feridos em meio a uma natureza consciente demais para sucumbir à autodestruição. Algo não fecha nessa equação. Ou existe alguém sabotando o amor no escuro, ou estamos numa paranoia coletiva. Veja, tudo ao nosso redor simplesmente concorda com a vida. O sol, todos os dias, nasce. As flores, as árvores, se desenvolvem. Os animais, todos, convivem em perfeita harmonia com o seu habitat. Por que — diga-me — por que os humanos, a obra mais amada do Criador, seriam diferentes de toda a criação?
Quem roubou meu direito de amar, meu direito de viver bem, feliz e realizada? Definitivamente, não foi o Pai. Nunca foi plano divino que só tenhamos uma boa vida no ‘céu’. Isso não condiz com a realidade de nenhum ser. Eu sei: eu tenho, por direito de nascença, o amor. O que acontece com quem reivindica esse direito?
Talvez sejamos feridos mais vezes do que gostaríamos de admitir. Talvez nos chamem de frágeis, de ingênuos. Mas só quem ousa reivindicar o amor é que um dia o reconhece — não como um prêmio, mas como parte do que sempre foi. Um direito que, por alguma razão, tentaram nos tirar.
Vivemos em um mundo que nos molda pelo medo. Pelo abandono, pela culpa, pela escassez. Desde cedo aprendemos a não pedir demais, a não esperar demais, a aceitar o pouco — principalmente quando se trata de afeto. Criamos armaduras e, com elas, fingimos que não sentimos. Mas sentimos. Sentimos tanto que adoecemos.
E mesmo doentes, continuamos esperando um gesto que nos salve. Uma palavra que nos diga: “você pode descansar agora, já é amado.” Mas ela não vem. E talvez esse seja o ponto: estamos todos esperando que o outro diga o que esquecemos de lembrar a nós mesmos.
Ainda assim, por mais que a cultura do desamor nos empurre para a desistência, há algo em nós que se recusa. Que se apega ao milagre de existir. Que observa o girassol e entende, sem palavras, que a vida é feita para florescer. Que percebe que há uma delicadeza operando no fundo de tudo — mesmo nos dias mais cinzas.
A natureza não se sabota. A chuva não se culpa por cair. A borboleta não precisa provar que merece ser bela. O rio não se desculpa por correr. Nada na criação duvida do próprio direito de existir. Nada, exceto nós.
Isso não é natural. Essa dor crônica, esse peso que carregamos no peito, esse amor que nunca chega, essas despedidas antes dos encontros... não são parte do plano original. Há uma incoerência entre o que sentimos e o que somos. E essa incoerência nos adoece.
Mas, de alguma forma, seguimos. E essa é a nossa forma secreta de esperança: não desistir completamente. Não silenciar totalmente. Não endurecer de vez.
Eu não sei o que vai acontecer comigo, com você, com todos nós que ainda buscamos amor em tempos tão áridos. Mas eu sei que continuar sentindo, mesmo que doa, é um ato de fidelidade à nossa essência. E acredito que isso seja o suficiente para nos salvar.
Porque se até o campo seco floresce na estação certa, também há em nós uma primavera esperando para acontecer.
Se essas palavras ecoaram dentro de você, então talvez estejamos mesmo — ainda — do lado certo da busca. Desejo que este texto atinja outros buscadores, e não os naufrague.
















