Clarisse Dentro de Mim
Não há nome, não há rosto. Só um corpo sentado num canto qualquer, o lápis gasto, o papel amassado. Há uma respiração curta, um tremor nos dedos, o chão frio. As paredes não respondem, os objetos não consolam, a porta está fechada. Quem passa no corredor não ouve. Quem vê de fora não vê nada.
Dentro, o mesmo pensamento repete até desgastar a boca: “Estou cansado de ser vilipendiado, incompreendido e descartado.” É um cansaço que não é físico, não é sono — é cansaço de existir, cansaço de ter de explicar, cansaço de ser lido errado, de ser usado, de ser esquecido.
A mão que segura o lápis não escreve poesia, escreve ruído. O corpo que está ali não pede socorro, não quer aplauso, não espera redenção. Só constata: há uma dor, há um vazio, há um peso. Não há narrativa heroica, nem mártir, nem vilão. Há apenas alguém que respira e continua, porque respirar ainda é o que o corpo faz sozinho.
Clarisse não é mulher, nem homem, nem personagem. Clarisse é uma forma de existir quando já não há forma. É a vida sem legenda, sem filtro, sem roteiro. Não há lição, não há futuro, não há alívio. Há uma pessoa no quarto, um lápis, um papel. Há o silêncio pesado de quem vive, e ninguém olhando de verdade para dentro.









