Ode ao Travesseiro
Não abraço um travesseiro.
Abraço uma ausência que aprendeu o formato dos meus braços.
Todas as noites ela pesa menos que um corpo e mais que um destino.
Há quem diga que devaneios não existem.
Mas quem os diz nunca precisou sobreviver a uma lembrança.
Porque há memórias que respiram.
Ainda vejo o movimento do teu cabelo obedecendo ao vento da porta.
Ainda vejo o cuidado com que afastaste o chapéu para falar perto do meu ouvido, como se uma gentileza merecesse cerimônia.
Lembro do brilho.
Não apenas o que colavas acima das sobrancelhas.
Lembro do brilho que nenhuma maquiagem fabrica: o das pessoas que não sabem fazer o mal.
Talvez nunca tenhas imaginado que um agradecimento tão pequeno moraria tantos anos na memória de alguém.
Mas ficou.
Ficou teu sorriso, recuando na cadeira como quem repousa depois de fazer o bem sem perceber.
Há noites em que abraço o travesseiro até ele deixar de ser tecido.
Nessas horas ele aceita o nome que lhe dou.
Não porque eu tenha enlouquecido.
Mas porque a solidão também precisa dormir.
É um conforto que dói.
Uma dor que consola.
Talvez toda esperança seja apenas isso:
continuar conversando com aquilo que já não responde.
Ou talvez não.
Nunca acreditei em verdades absolutas.
Por isso não afirmo que voltarei a encontrar-te.
Apenas recuso a desistir da possibilidade.
Enquanto houver um céu de estrelas, haverá um lugar onde minha saudade não precisa pedir licença para existir.
E amanhã, quando eu acordar, o travesseiro voltará a ser apenas um travesseiro.
Mas, por alguns segundos, antes que o mundo desperte,
tu ainda estarás ali.













