chorar não lava a alma, entope-a.

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chorar não lava a alma, entope-a.
No crepúsculo o encontro: belo, sozinho.
Fuma um cigarro e os olhos cósmicos refletem o negrume da noite: perigosos, sedutores.
O vento norte sacode-lhe os cabelos e traz pó estrelado que se entrelaça nos fios loiros.
Ele é lindo ali sentado no chão sujo de areia e despercebido de tudo. O rosto sério de quem pensa — e pensa demais, por isso é que é triste. Os olhos têm o brilho de estrelas cadentes mortas porque um dia a esperança lhe foi roubada e agora só tem sonhos que julga nunca realizar.
E fica lá, quieto, tal qual um quadro: bonito e triste.
Ouvem-se uns acordes de uma música (deve ser o vizinho) e o trautear de uma estrofe. Ele ainda pensa e o vento fuma-lhe o cigarro. Foi levado para outro lado (o lado de dentro) e lá se demora por cinco ou seis minutos.
Depois sacode as cinzas para o chão, dá um último trago e piso o filtro com a sola de borracha da bota. Desiste de pensar e vai embora.
O vizinho ainda tenta os acordes e ouço-o cantarolar enquanto se afasta, à medida que as luzes amarelas dos postes se acendem e lhe desenham a sombra pálida no chão.
Ele parece de outro mundo.
— marta em “Crepúsculo”. Perspetiva de quem observa um desconhecido pela janela. (2020)
Ele adorava fazer anos porque para ele a vida era fácil e leve. Acordava cedo e bebia café, lia as notícias no jornal, cantarolava enquanto se vestia para o trabalho. Vivia um dia de cada vez e mesmo dos piores momentos tirava algo de bom.
Ele era a felicidade, as meias brancas no piso de madeira encerado enquanto dançava despreocupado nas manhãs de domingo, o doce de morango no pão e o cheiro do café por toda a casa. Ele era t-shirts larga e calções de ganga; cabelos compridos e sorrisos de estrela.
E ele era lindo.
— marta, 2020
Quando o vi entrar pela porta principal do salão soube que ele trazia problemas. Usava uma camisa branca e uma gravata feia no estilo anos 80 que lhe ficava estupidamente bem. Os cabelos compridos e os olhos negros eram dois abismos de mistério. Ele riu de um jeito sugestivo e disse-me que eu tinha o bâton borratado. Ofereceu-me uma taça de champanhe quando o garçon passou por nós e um cigarro. Eu disse que não fumava. Ele elogiou o meu vestido e perguntou o meu nome. "Eu não acredito no amor", respondi. Ele riu daquele jeito. "Esse é o teu nome?" Sem me deixar responder guiou-me até ao exterior e fumou o seu cigarro. Jogou os cabelos compridos para trás e soprou fumo cinza pela boca cor de cereja. As calças do fato assentavam-lhe bem nas pernas longas e quando ele ria exibia os caninos pontiagudos. Ele destoava da multidão e eu não sabia dizer porquê — ou talvez soubesse. "Tudo bem não acreditar no amor. Ele não serve para nada, mesmo", disse, pisando o filtro com a sola do sapato social. O meu coração acelerou e senti-me traída pelas minhas próprias palavras, ainda que soubesse que aquilo estava longe de ser amor. Ele pareceu notar e riu mais uma vez. "Mas por esta noite podemos fingir que sim", rematou. Deixei que ele se aproxima-se e me tocasse com os dedos gelados no rosto. Ele cheirava a perfume e cigarro e beijou-me com gosto de champanhe caro. Naquela noite fingi ser amor e está tudo bem fingir de vez em quando. Eu nem sei o nome dele, afinal de contas.
— marta em "Sobre (des)encantos". (2022)
Chove uma chuva que molha mas não lava a alma.
Quase chove no alpendre, onde o fumo espirolado de um cigarro sobe e desaparece no ar. Dissipa, não existe mais.
A noite engole o barulho das ruas mas agita corações. Traz ansiedade com tremores de dedos, palpitações e suores frios. Traz noites mal dormidas com medo do escuro e das sombras que se geram — não só nos cómodos mas também no seu interior oco e sombrio. Vazio, vazio, vazio.
Ele discutiu com a mãe mais cedo e até chorou um pouco. O vazio ainda tem espaço para sentimentos...ou talvez ele não esteja assim tão vazio quanto julga. Talvez esteja cheio. Cheio de tristezas, cheio de arrependimentos, cheio de mentiras, cheio de fracassos. Estar vazio e estar cheio, de repente, parecem-lhe a mesma coisa.
No trabalho foi despedido (lá se vai o sonho de sair da casa dos pais) e ele tem aspeto de quem não dorme há três noites seguidas. Solidão só é boa quando sabemos que existe alguém do nosso lado. Solidão solitária é assustadora e angustiante.
(Se ao menos a chuva que chove lavasse a alma...)
— marta em "Chuva em Osaka". (2021)
Arranco as pétalas de um malmequer e ele diz-me que Hayato bem-me-quer.
— marta em "Cherry Blossom". (2021)
“Tu fazes o que tu quiseres “, disse Johnny enquanto se baloiçava descuidadamente sobre o parapeito da janela, vendo Yuta deitado sobre a cama desfeita do quarto partilhado.
“Pois, mas isso só funciona assim na teoria.”
— marta, 2020