Quando o vi entrar pela porta principal do salão soube que ele trazia problemas. Usava uma camisa branca e uma gravata feia no estilo anos 80 que lhe ficava estupidamente bem. Os cabelos compridos e os olhos negros eram dois abismos de mistério. Ele riu de um jeito sugestivo e disse-me que eu tinha o bâton borratado. Ofereceu-me uma taça de champanhe quando o garçon passou por nós e um cigarro. Eu disse que não fumava. Ele elogiou o meu vestido e perguntou o meu nome. "Eu não acredito no amor", respondi. Ele riu daquele jeito. "Esse é o teu nome?" Sem me deixar responder guiou-me até ao exterior e fumou o seu cigarro. Jogou os cabelos compridos para trás e soprou fumo cinza pela boca cor de cereja. As calças do fato assentavam-lhe bem nas pernas longas e quando ele ria exibia os caninos pontiagudos. Ele destoava da multidão e eu não sabia dizer porquê — ou talvez soubesse. "Tudo bem não acreditar no amor. Ele não serve para nada, mesmo", disse, pisando o filtro com a sola do sapato social. O meu coração acelerou e senti-me traída pelas minhas próprias palavras, ainda que soubesse que aquilo estava longe de ser amor. Ele pareceu notar e riu mais uma vez. "Mas por esta noite podemos fingir que sim", rematou. Deixei que ele se aproxima-se e me tocasse com os dedos gelados no rosto. Ele cheirava a perfume e cigarro e beijou-me com gosto de champanhe caro. Naquela noite fingi ser amor e está tudo bem fingir de vez em quando. Eu nem sei o nome dele, afinal de contas.
— marta em "Sobre (des)encantos". (2022)









