A Raposa e os Ovos
As galinhas despertaram com a empolgação de quem não tem planos ou esperanças futuras. Assim que o galo deu seus primeiros berros anunciando o fim da escuridão, o galinheiro se encheu com o som de cacarejos e fofocas, todas querendo saber quantos ovos cada uma havia botado e quais delas seriam motivo de chacota por não ter cumprido com sua missão divina.
Babs, a galinha de crista meio azulada, havia botado dois ovos e algo similar a uma chave. Tinha muito orgulho da própria cloaca e seu potencial para ovos grandes. Assim que ouviu os passos do granjeiro se aproximando, Babs sabia que havia chegado o melhor momento do dia: a primeira refeição. O segundo melhor momento do dia de Babs era sempre a segunda refeição. Quando havia a terceira refeição, esse era o terceiro melhor momento do dia. Quando não, Babs saía à caça de minhocas pelo terreiro e esse era um bom momento, mas não um ótimo momento, devido ao esforço e sujeira empregados na missão.
Como de costume, a refeição estava ótima e Babs comeu até se peidar e sentir seu pequeno coração bater com dificuldade, anunciando a efemeridade de sua existência – coisa que a galinha de crista meio azulava ignorava com prazer. Se ela se importasse em emitir alguma opinião a respeito, Babs provavelmente diria “Não ligo para isso”, mas ela não se importava e preferia comer mais. Tudo era o momento, depois passava.
Após uma breve sesta e alguns minutos de conversa com suas amigas sobre os últimos acontecimentos do galinheiro – Tracy, a galinha robusta, foi promovida a ensopado e Margot, a parideira, teve quatro pintinhos, mas havia sentado em um deles, que não sobreviveu –, Babs saiu para caminhar, ciscando às vezes para poder dizer que havia feito seus exercícios matinais, caso perguntassem. Chegando próximo à lagoa, uma pequena porção de água parada numa área acidentada do terreno que dividia a área de convivência do galinheiro do restante do universo, a galinha fixou seu olhar num brilho vindo direto de uma moita, um ponto de luz que se movia, ora desaparecendo, ora refletindo os raios de sol direto em seus olhos. A luz parecia ter percebido a presença de Babs, pois se tornou mais intensa e a moita, mais agitada do que antes. Algo dizia a ela para se afastar dali e se juntar ao restante das galinhas, contudo ela foi ensinada a não se dar ouvidos, então seguiu em direção à luz, se aproximando a passos pequenos.
A moita se tremia toda de excitação à medida que a distância entre ela e a galinha de crista meio azulada diminuía. Babs parou à beira da lagoa, encarando a moita que balançava. A galinha nunca havia visto uma moita dançar, por isso observou aquilo com curiosidade.
“Ei, colega, chegue mais perto.”, disse a moita.
Babs já tinha conversado com muitas árvores, pedras, vassouras, montes de esterco e até outras moitas, mas elas não tinham o costume de responder. Essa foi a primeira a se comunicar. Por isso, a princípio, ela não soube muito bem como responder, até que disse:
“Eu não gosto quando chove.”
“O quê?! Eu não enten... O que isso tem a ver?”, disse a moita, com a intenção clara de coçar a cabeça por incredulidade, mas sem de fato o fazer. “Escute, eu tenho algo aqui para você.”, continuou a moita ao mesmo tempo em que o brilho de luz voltava a aparecer.
Por um instante, Babs lembrou de como ela gostava do cheiro do gramado quando chovia, então pensou em reformular a frase sobre não gostar de dias chuvosos, mas não o fez e deu mais alguns passos em direção à luz brilhante. À beira da lagoa, bateu suas pequenas asas, enquanto tropeçava nas próprias patas, algo semelhante a um voo torto por sobre a lagoa, pousando do outro lado com a mesma elegância de um pelicano bêbado que nasceu com encurtamento em uma das pernas.
O Sr. Raposo soltou o pedaço de espelho quebrado que segurava e avançou sobre a galinha assim que ela pisou na outra margem, esticando o braço e fechando seus punhos em volta do colar de pérolas rosas que Babs trazia em seu pescoço – presente do galo em seu primeiro coito.
“Ei, colega, nós não queremos que alguém se machuque aqui. Então fique calma e sem berros.”, preveniu o Sr. Raposo, finalizando a frase com um assovio e uma piscadela. “Agora eu preciso saber onde estão escondidos todos os ovos.”.
Babs estava tão tensa que nem um ovo de codorna ela conseguiria botar.
“Você vai me dizer onde estão os ovos ou eu terei de comer uma de suas asas?”, vociferou o Raposo, já sem paciência.
A galinha permaneceu calada.
“E então?”
“Estou decidindo.”, respondeu a galinha.
O sangue do Sr. Raposo ferveu e ele precisou se segurar para não arrancar o topo azulado da cabeça da galinha. Contudo, os anos de prática de ioga o tornaram um ser mais comedido e ponderado, então ele se acalmou e tentou novamente:
“Se eu entrar por aquela cisterna, ao lado direito do celeiro, cairei direto na estufa de morangos. Depois, eu passo por baixo da cerca de nogueira velha, pulo a janela lateral e entro na estufa de pintinhos. Se eu sair pela fenda no teto, consigo passar para dentro da casa do granjeiro, por baixo do telhado, e pegar mantimentos da despensa. Entendeu?”
“Legal.”, disse a galinha, seguido por um sorriso nervoso.
“Legal?! Ora, não diga só legal. É um ótimo plano!”, disse o Raposo, com o pelo, antes alaranjado, já avermelhado de nervosismo. Mais uma vez ele respirou, ajeitou o nó da gravata e encarou a galinha.
“Eu só preciso saber onde estão os ovos, pra decidir se eu vou pra lá antes de entrar na estufa de pintinhos ou se depois da despensa de mantimentos.”
Uma raposa sem educação já teria quebrado o pescoço da galinha e invadido o terreiro em busca das demais. Já o Sr. Raposo tinha um nome a zelar e não gostava nem de pensar no que os vizinhos diriam se o vissem correndo aleatoriamente pelo terreno irregular, tentando abocanhar galinhas desesperadas. Era uma questão de estilo. Não à toa, duas matérias já foram publicadas no periódico da província sobre o asseio e polidez nos modos do Sr. e da Sra. Raposo, dando especial destaque às festas promovidas pelo casal e às ideias de decoração que a Sra. Raposo teve ao trocar a mobília da sala de jantar – projeto que uniu elementos minimalistas e orientais mas sem perder as características rústicas de uma toca num freixo. No entanto, para um animal selvagem, a paciência termina no exato momento em que a fome aparece.
“E então, galinha?”
“Os ovos somem dos nossos ninhos todos os dias de manhã, é só isso que eu sei.”
“Uma pena, colega. Nesse caso, eu terei de quebrar o seu pescoço e correr para casa com a sua carcaça afim de preparar um assado de sua tenra carne, servido com algumas batatas ao murro e molho de ervas!”, exclamou o Sr. Raposo entredentes.
“Parece gostoso.”
“ARRRGHHARSSHHHGRRRRRGRRRWOOFWOOF!”, regougou o Sr. Raposo, bufando e espumando de raiva, sem se importar em respigar saliva por todo seu blazer de alfaiataria.
Para uma galinha, Babs tinha o coeficiente de inteligência de um pombo, o que era suficiente para compreender a gravidade da situação na qual ela estava, mas não o bastante para planejar uma boa estratégia de fuga. Mas numa sinapse rápida, os minúsculos neurônios da galinha se uniram para enviar uma mensagem uníssona ao cérebro: minta. Mas qual dentre a inúmeras possibilidades de mentiras dizer à raposa? Que os ovos se reuniam todas à tardes sob a amoreira para lanchar ou que talvez eles estivessem em viagem e retornassem somente na próxima semana?
As presas do Sr. Raposo já se fechavam em torno do pescoço curto e gordo de Babs e ela podia sentir o hálito fresco, recém escovado com creme dental de hortelã, tomando conta do ar ao redor.
“Eu gostei muito do seu último trabalho.”
“O q-q-quê?!”, gaguejou o Sr. Raposo, desviando a atenção do pescoço da galinha.
“Eu gostei muito do seu último trabalho.”
“Meu trabalho? É muito gratificante ouvir isso. Ora, que situação constrangedora. Eu aqui, quase comendo uma admiradora do meu trabalho. Não que já não tenha feito isso antes.”, riu a raposa. Mas Babs não entendeu, pois estava concentrada em mentir:
“Eu gostei muito do seu último trabalho.”
“Claro. Você gosta. Eu fico lisonjeado. Perdoe-me o modo como nos conhecemos. Eu adoro ter esse contato com fã, ouvir os elogios, as críticas. Faz o trabalho crescer, sabe?”, justificou um Sr. Raposo cada vez mais ruborizado.
“Eu gostei muito do seu último trabalho.”
“É muito bom ter esse feedback. Eu com certeza vou levar isso para o meu próximo trabalho. O mercado livreiro está tão mal das pernas e eu aqui quase comendo tão nobres admiradoras dos meus romances. Perdoe-me mais uma vez, senhora.”, despediu-se a raposa, assoviando e dando uma piscadela em seguida, para, então, se embrenhar por entre as moitas, até sumir de vista.
Texto de Dimis Jean Sores e ilustração de Fagner Soares.
Babs foi dublada por Jane Horrocks em A Fuga das Galinhas (Chicken Run), filme escrito por Karey Kirkpatrick, Mark Burton e John O'Farrell, baseado em uma história original de Peter Lord e Nick Park, que dirigiram o filme em 2000. Sr. Raposo foi dublado por George Clooney em O Fantástico Sr. Raposo (Fantastic Mr. Fox), filme escrito por Wes Anderson e Noah Baumbach, inspirados pelo livro homônimo de Roald Dahl, e dirigido por Wes Anderson em 2009.
Sobre Cafés e Cigarros é uma série de breves viagens literárias promovidas por Atomic Tangerine.














