𝗦𝗨𝗕𝗣𝗟𝗢𝗧: 𝗖𝗢𝗡𝗩𝗢𝗖𝗔𝗖̧𝗔̃𝗢 𝗣𝗔𝗥𝗔 𝗔 𝗚𝗨𝗔𝗥𝗗𝗔 𝗥𝗘𝗔𝗟. — point of view.
taeoh sabia que não ia ganhar. isso era bem óbvio pelo fato de que ele sabia pouco além do básico quando o assunto era taekwondo. ele fizera alguns meses de aulas quando era adolescente, mas foi só isso. seu único objetivo era aprender a se defender, se um dia seus colegas saíssem de comentários maldosos para alguma atitude. pouco provável, taeoh era diabólico desde que se entende por gente. se precisasse usar seu dinheiro e a influência do seu pai para conseguir viver em paz, ele o fazia. queria apenas chegar no top 10. não precisava nem ficar entre os cinco ou três primeiros, o décimo lugar lhe cairia perfeitamente. ele estava começando a odiar aquela vida e qualquer oportunidade de ganhar dinheiro e notoriedade o atraía.
quando seu dobok chegou, taeoh sentiu a primeira onda de medo. tocou seu protetor vermelho, lembrando da última vez que usou um. hong. lembrou-se de como desferiu ótimos chutes naquela luta. seus chutes sempre foram bons, tendo pernas definidas pelos anos de tênis, patinação, trainee, escolha qual preferir. taeoh tinha alguma chance de atingir o top 10 mesmo perdendo a luta, ou pelo menos achava. as coisas nesse mundo não acontecem como devem. se vestiu, ajustando tudo com um pouco de firmeza demais. esperou numa fila, brincando com seu protetor de antebraço e antes que pudesse perceber, arrancara um pedaço do plástico.
ele escutou a voz irritante de mushu e percebeu que era sua vez. se levantou com rapidez, sentindo em sua cabeça uma leveza típica do nervosismo, como se não estivesse realmente ali. apresentou-se e disse qual a sua habilidade. já estava dentro do espaço designado para a luta quando viu seu adversário. era quase duas vezes maior do que ele, para todos os lados. taeoh não era baixo, com um pouco mais do que 1,80, mas aquela coisa era muito mais alta. sirenes de alerta começaram a soar na cabeça de taeoh. taekwondo, como todas as lutas, era dividida por peso e ele estava acostumado a enfrentar pessoas da sua faixa de peso, mas aquilo já era algo que ele descartara. sabia que iriam lhe botar numa situação de batalha, talvez com muitos alvos, mas não achou que fosse ser tão diferente. seu alvo não estava vestido como ele, não estava usando o protetor azul e taeoh começou a se perguntar se o seu protetor não iria atrapalhar ele. não pode encontrar uma resposta, pois a luta começou.
sobreviver rapidamente se tornou o seu único objetivo. ele era novo demais para morrer, bonito demais para ter sua rinoplastia jogada no lixo por um monstro daqueles. começou a bloquear os ataques do seu alvo freneticamente, pensando em como poderia atingi-lo. o que normalmente seria um chute no tórax, na altura daquele homem, seria um chute na cabeça em uma pessoa normal. nunca conseguiria derrotá-lo, mas ele também não conseguiria criar coragem suficiente para se render. tentou buscar lugares para agarrar o outro e conseguir impulso para se afastar, mas logo percebeu que não seria possível. num mero segundo, a força do outro contra si fez com que ele fosse empurrado, quase chegando na beirada dos oito metros quadrados. taeoh entra em desespero ao perceber que não estava mais lutando taekwondo.
antes que seu corpo tocasse o chão, taeoh tentou gritar, mas o movimento rápido do homem sobre si fez com que o ar saísse dos seus pulmões. violação! numa luta normal, aquilo seria uma falta. duas, na verdade. foi empurrado e estava sendo atacado no chão. aquilo era qualquer coisa, menos a luta que se voluntariou a fazer. outra verdade o atacou: iria perder a consciência. com o ar tendo sido tirado dos seus pulmões ao cair, taeoh teve menos tempo para tentar fazer algo, tentar pedir ajuda ou impedir que a luta continuasse. ele sabia que iria perder antes mesmo da luta começar, mas ele nunca tinha sido asfixiado daquela maneira. ele tentou dizer algo, mas apenas tossiu, perdendo o último ar que tinha nos pulmões. tentou respirar, desesperado, mas a força exercida pelo gigante sobre si era demais e ele sabia que seu peito não estava se movendo. taeoh sentiu seus olhos começando a fechar e depois abrindo de novo. isso se repetiu várias vezes. uma dor absurda tomou conta dele, do seu tórax e da sua cabeça. seus protetores já não adiantavam de nada. onde aquele homem estava se agarrando para se manter com tamanha força em cima dele? taeoh tentou virar o rosto e enxergar onde ele estava se agarrando, mas os pontos pretos apenas se aumentavam e sua vida se esvaia. ele sabia que se o homem não saísse de cima dele, a sua respiração iria parar. as pessoas daquele lugar sabiam fazer RCP? por mais idiota que fosse e aquele era taeoh, esse foi seu último pensamento antes de desmaiar.
depois de ter sido carregado para fora do tatame, vomitado e quase se afogado ao perceber que o idiota que o carregava não o havia colocado na posição certa, taeoh só queria se olhar no espelho. o que viu fez com que ele soltasse um longo suspiro de desgosto. como ele conseguia se enfiar nessas situações? seus lábios, tórax e costas estavam roxos por conta da asfixia e ele se perguntou se não chegou perto de quebrar uma costela ou outro osso com a força que havia sido exercida sobre seu corpo, a ponto de desmaio. sua fala era outro ponto, pois taeoh não estava conseguindo falar normalmente. dizia uma ou duas palavras com muita dificuldade e um tom extremamente rouco antes de começar a tossir loucamente.
“eu provavelmente vou ter que gastar com médico depois disso!” reclamou consigo mesmo, percebendo que seu plano para ganhar um pouco de dinheiro extra havia tido o efeito contrário.
O castelo era enorme, cheio de quartos e passagens nada convidativas, e possuía uma atmosfera horrorosa. Não no sentido de feia — amantes de coisas excêntricas provavelmente adorariam a decoração macabra do ambiente, talvez até julgassem charmosos os vidros em suportes de ouro que guardavam cabeças decapitadas — mas sim porque parecia sair de um filme de terror como tudo naquela dimensão. A passagem pelo labirinto tinha sido suficiente para que Jiho roesse todas as unhas, e ainda assim, a situação parecia estar cada vez mais perto de piorar. Embora fosse difícil para ela acreditar que existisse algo pior do que o labirinto, tinha certeza de que encontrar a Rainha para decapitá-la seria um trauma que jamais esqueceria. Seu único conforto naquela hora era ter Sungmin ao seu lado e poder dar-lhe apoio para que caminhasse. O time acabara por se separar para descansar e evitar serem pegos pelos guardas, e como Jiho se encontrava grudada no amigo desde que se ferira, eles ficaram juntos. Preocupava-se com Aquiles e Peach, todavia seu interior tinha ciência de que os dois eram fortes e ficariam bem — ora, tinham aguentado a tudo aquilo junto à ela — e que logo eles se encontrariam novamente. Às três da manhã, conforme o horário combinado.
Enquanto isso, num corredor escuro, a dupla procurava algum lugar para se esconder dos horripilantes e sanguinários guardas-reais que perambulavam por aí. Já tinham passado por diversas portas, mas Jiho tinha medo de abrir uma e dar de cara com um monstro, ou até com a própria Rainha prestes a cortar-lhe a cabeça, e por isso optou por continuar arrastando Zero até que não tivessem mais nenhuma alternativa senão adentrar um quarto.
Isso aconteceu mais cedo do que esperava. Antes de chegarem a um novo corredor, ela pode ouvir à distância os passos dos guardas-reais, indicando que era uma questão de tempo até que os alcançassem naquele saguão. — Vamos ter que entrar num dos quartos e nos esconder — sussurrou para Sungmin, segurando na mão dele. Aproximou-se da porta, incerta, girando a maçaneta com cautela enquanto rezava silenciosamente para que não houvesse nada de ruim dentro do cômodo. Se ao menos ela tivesse trazido os óculos scanner consigo... Uma sensação de alívio percorreu seu corpo quando mais da metade da porta fora aberta e nada além de um quarto de hóspedes comum se mostrou ativo no ambiente. Jiho, então, puxou Sungmin para dentro, fechando a porta com muito cuidado para não produzir qualquer barulho. Suspirou quando conseguiu, e vibrou internamente quando percebeu que a porta havia uma tranca. — Estamos seguros aqui por enquanto. Descanse, porque depois vamos precisar ir atrás dos outros. Tenho certeza que o Aquiles-ssi deve ter encontrado alguma proteção para ele e Peach-ssi. Estamos acostumados a nos esconder em hotéis e casas durante missões — falou, o tom de voz fazendo o pedido para que descansasse soar como uma ordem. Passou os olhos pelo cômodo cuja única iluminação provinha da lua, pela janela, e percebeu que, além de cama e todo o resto necessário para um quarto, também dispunham de um banheiro. — Vou tomar banho, ok? Não faça barulho e não acenda nenhuma luz. Só... Descanse.
Jiho aproveitou seu tempo naquela banheira morna para relaxar e chorar. Não se sentia tão fraca quando as lágrimas se misturavam com a água e não tinha ninguém para ver seu choro. Perguntava-se como estariam as coisas na KRSA. Se seus amigos estariam bem... Se Prometeus estaria bem naquele inferno... Perguntava-se como os outros membros do Time A reagiriam ao saber de Adonis. Se, por acaso, culpariam-na por não ter sido capaz de ajudá-lo. Eram tantas as dúvidas e pensamentos que a garota precisou pular fora do seu "relaxamento" antes que começasse uma crise de pânico. Secou-se com uma das toalhas que roubou do quarto — tinha que admitir, apesar de bizarra, a Rainha parecia ser uma ótima hospedeira — e assim que se vestiu com as mesmas roupas que eles pegaram na Vila, parou para encarar o reflexo da menina assustada no espelho, cerrando os punhos e segurando mais uma crise de choro. Sentia-se mal, inútil, tola. Odiava a própria imagem. Precisava... Mudar. A decisão de fazer aquilo foi repentina. Sem pensar duas vezes, Jiho pegou a adaga que escondia por baixo das vestes e cortou o cabelo enquanto soluçava. Quando terminou, com as mãos trêmulas, guardou a arma de volta no punhal e se olhou, mais uma vez, no vidro. Seu choro então cessou e seus olhos ficaram vidrados no próprio reflexo. Por mais que tivesse raiva de quem era, ela se sentiu aliviada por estar diferente. Parecia mais madura, mais forte. Ainda mais intimidadora. E aquilo era bom; era bom porque lhe deu motivação para sobreviver àquele inferno não só pelos amigos, mas por si mesma. Era bom porque ela poderia recomeçar, ser uma pessoa, realmente, diferente. Sorriu para imagem, finalmente apagando a pequena luz do banheiro e saindo porta afora ao encontro de Sungmin novamente. — Oi — cumprimentou-o, caminhando até a cama e sentando na beirada ao lado do amigo. Queria tanto abraçá-lo naquele instante.
Assim que voltou à consciência, a primeira coisa que seus olhos identificaram com clareza foi os corpos de Adonis e Persefone. Mas mal teve tempo de sentir luto por eles: algo maior chamou sua atenção. Especificamente, um coelho gigante que dizia que os esperava e que tinham uma missão ali. Só isso já apresentava duas coisas erradas. Primeiro, aonde era ali? Só soube distinguir que o lugar era fechado e tinha uma atmosfera muito, mas muito estranha. E segunda: um coelho-gigante-falante?! Só podia estar pirando.
A presença de outros agentes foi o que impediu Azula de começar a aceitar um estado de sanidade, afinal, todos ali estavam tão perdidos quanto ela. Sua mente ficara entorpecida, o que sempre acontecia quando a situação saía de seu controle. Isso fez com que parasse de questionar-se e apenas prestasse atenção no animal bizarro que dava instruções e que teve o cuidado até mesmo de separá-los em grupos. Acabara com Dylan, Lion, Lupa e Prometeus. Um time ótimo, era evidente, mas isso não fora suficiente para tirar uma certa aflição que crescia no peito de Han. “Cara... Que porra está acontecendo?” Falou para ninguém em específico enquanto se deixava guiar pelo coelho, mas o fato de usar uma palavra de baixo calão demonstrava que de fato, havia algo muito errado acontecendo por ali.
Assim que as luzes se apagaram e Azula viu a cena que acontecia no telão, tudo o que conseguiu fazer foi congelar no sofá em que estava sentada. O que diabos estava acontecendo? Quem fizera aquilo? A festa era só um pretexto para o ataque? O que aconteceria com Boss? Mas então suas preocupações pararam de ser externas e passaram a ser internas. O que seria de si mesma, que não sabia lutar? A irmã e as pessoas que amava, será que estavam bem? Pensou em partir em uma busca por elas, mas no escuro e desarmada, essa se tornava uma tarefa dificílima. Era uma especialista em tecnologia e poderia ser útil de outras maneiras, mas a situação fora tão imprevisível que Sara mal conseguia achar uma saída. Olhou para o seu lado e encontrou Irene, felizmente um rosto conhecido e amigo, conseguindo dizer apenas o seguinte: “O que a gente faz agora?”
"não foi uma boa ideia colocar a rainha branca e o coelho como narradores, não consigo prestar atenção em nada que saí da boca deles. ou talvez seja só o desmaio de ontem..."
Era difícil de respirar; à cada passo que dava naquele solo desconhecido, seus pulmões ficavam mais pesados. Não era por conta da situação terrena, apesar do clima daquele lugar ser nojento; úmido e escuro — Jiho não conseguia respirar porque sentia medo. Suas mãos tremiam, os olhos insistiam em marejar, e a angústia do que tinha acontecido irritava seu peito com uma dor física — um aperto no coração. Logo que acordara no que poderia chamar de inferno, pensou estar em algum tipo de simulação da agência: tudo parecia tão grotesco que Ártemis jamais acreditaria ser verdade. Só tomou conhecimento de que aquilo era, de fato, real, quando encontrou o companheiro de time sem vida ao seu lado. E frente a visão de Adonis morto, ela entrou em pânico. Não fazia nem um dia completo desde o falecimento de Nike... Nada mais fazia sentido para ela. Ela só queria poder se retirar, apagar todas as suas memórias sobre aquela agência de merda e nunca mais voltar àquela vida perturbada. Se fosse honesta, tinha nojo da KRSA. Mas Song Jiho era forte — se havia uma coisa que sabia sobre si mesma, era da sua força. Sua capacidade de continuar firme mesmo nos piores momentos. Mesmo quando um amigo querido havia morrido.
E era por isso que, embora enojada com a missão que teriam, ela tinha decidido seguir as ordens do coelho bizarro e se juntar no time para ajudar seus colegas de agência a saírem dali. — Se você morrer eu te mato — ela disse com a voz chorosa para o melhor amigo, Prometeus, quando os dois se separaram, cada qual em uma equipe, abraçando-o por não saber o que esperar. Seu único conforto naquela hora era de que, pelo menos, poderia manter um olho em Zero — e faria de tudo para protegê-lo se necessário — e que Aquiles e Peach estariam com ela.
Agora ela andava sem rumo, juntamente aos seus companheiros, no meio de uma floresta cuja única iluminação vinha de seus KRSA Watches. As árvores ao seu redor pareciam observá-los, tendo um ar quase infernal, e ela tinha certeza de que alguém—ou melhor, algo estava os seguindo desde que entraram naquele pesadelo. A umidade fazia com que ela sentisse calor, suando muito com poucos minutos de caminhada. Por sorte, ela tinha decidido combinar por baixo do casaco grosso e o suéter um vestido florido, rodado e de alcinhas que fizera na última semana. Então despiu as peças de roupa pesadas — porque ao contrário daquela dimensão maluca, Seul era fria — e as atirou em qualquer lugar na mata, em seguida começando a tirar as botas de salto e a meia-calça à medida que caminhavam (estava mais que acostumada a ter que se trocar em meio às missões, não era necessário que parassem só para que Jiho pudesse tirar a roupa). Depois que terminou, precisando apoiar-se numa árvore por alguns instantes para colocar de volta o sapato, ela apressou o passo e alcançou o grupo de novo, aproximando-se de Aquiles. — Isso pode ser paranoia minha, mas eu tenho quase certeza de que estamos sendo seguidos — comentou, arrumando nas costas o equipamento de arco-e-flecha que pegara na Toca do Coelho.