Adam ergueu o olhos azuis cercados de rugas finas das grossas páginas de um herbarium do século XVIII para encontrar com um conhecido rosto jovial espiando pela porta entreaberta.
"Calum, entre." O homem mais velho sorriu e apoiou o pesado volume na mesinha de centro, erguendo-se da poltrona de couro marrom com a postura ereta de um nobre. O cheiro adocicado do fumo que queimava em seu cachimbo havia tomado conta da biblioteca e a fumaça fazia a luz amarelada da luminária ainda menos eficiente, mas era um hábito antigo e por mais que sua visão já não fosse mais a mesma, não era a mesma coisa se deixasse o tabaco de lado. "Eu não sabia que você estava na cidade."
"Estou de férias." Calum respondeu sorrindo. Entrou e fechou a porta atrás de si, mesmo que não houvesse necessidade. Estavam sozinhos naquele sobrado enorme que não mudara quase nada em dez anos. A secretária estava de saída para o mercado quando Calum chegara e pareceu feliz ao revê-lo. "A temporada acabou e eu pedi para tirar uma semana."
Adam sorriu e fingiu que não sabia o real motivo, abrindo os largos braços para que o seu sobrinho favorito lhe desse um abraço apertado e não foi decepcionado. Calum o apertou contra si e mesmo tendo a mesma altura o rapaz de cabelos ruivos revoltos escondeu o rosto na curva de seu pescoço como fazia antigamente.
"Está tudo bem?" Adam perguntou, a voz paternal enquanto as mãos largas e calejadas alisavam as costas e a cabeça do outro com movimentos suaves.
"Mais ou menos." A voz abafada respondeu, sem que se afastassem nem por um momento. Quando Calum ergueu o rosto estava com os olhos úmidos, levemente vermelhos. "Já faz um tempo e eu pensei que talvez…"
"Você sabe que não." Adam respirou fundo, um longo suspiro, mas não afastou Calum. Sentiu os dedos do mais novo agarrarem à sua camisa, mas a expressão séria permaneceu. "Conversamos sobre isso na sua última visita e você sabe que minha resposta é não."
"Por favor, tio." A voz que escapou daqueles lábios rosados era trêmula, quase chorosa. "As coisas são diferentes agora."
"Você veio só para isso?"
Adam se desvencilhou do contato, se afastando enquanto ajeitava o colete de novo no lugar. Apanhou o cachimbo e tragou algumas vezes, observando o jovem de aparência derrotada à sua frente. Os olhos verdes, os cabelos de cobre, as sardas que cobriam as faces e os ombros. Estava vestido como os jovens se vestiam naqueles tempos, jeans e moletom, tênis completamente brancos tão limpos que pareciam ter acabado de sair da caixa.
"Como estão as coisas com Diana?"
"Ela sabe. Não sei se sabe, mas desconfia. Diz que eu falo enquanto durmo, que chamo pelo meu tio. Ela sabe que meus pais são filhos únicos." Calum avançou na direção de Adam, segurando-lhe a mão livre contra o próprio rosto. "Eu acordo com minhas roupas molhadas de suor todas as vezes em que eu sonho com você. Eu preciso. Por favor."
Adam alisou o rosto bonito, da curva forte do maxilar até o queixo.
"Eu não faço isso há algum tempo. Você foi meu último sobrinho. O mais bonito de todos." Sorriu de lado, um tanto nostálgico. "E você é um homem casado agora."
"Por favor." Calum murmurou antes de beijar o polegar que lhe alisava o queixo. "Pelos velhos tempos."
"Por que você vem atrás de um velho como eu? Minha barba está quase toda branca. Você é um rapaz famoso, eu tenho certeza que conseguiria alguém para…"
"Não, não pode ser qualquer um. Tem que ser você."
Diante da veemência desesperada de Calum, Adam deixou os ombros largos caírem num longo expirar, balançando a cabeça. Trouxe o rosto do ruivo com as duas mãos para perto do seu e beijou-lhe a testa, demorando-se para sentir o cheiro de Calum.
Calum abriu um sorriso bonito, o rosto corado de antecipação. Esperou, parado no lugar, assistindo sem ousar respirar o mais velho sentar de novo em sua poltrona e colocar os pés, fora dos sapatos, em cima da mesinha de centro. Parecendo desconfortável, empurrou o móvel para longe e se voltou para o ruivo.
"Venha aqui, Calum. O tio teve um dia longo e precisa esticar as pernas em algo macio. Tire as roupas e fique de quatro." Quando o rapaz ia começar a obedecer, acrescentou. "Ah, pegue o chicote de ponta quadrada no armário ao seu lado, está no lugar de sempre. Você está bem branco, precisa de uma cor nessa pele clara."