Talles Lopes -GO

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Talles Lopes -GO
Folha de São Paulo
9 de setembro de 2019.
"Construção Brasileira: Arquitetura Moderna e Antiga" na 12ª Bienal de Arquitetura de São Paulo.
Publicação original.
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Não foi um acidente!
porTALLES LOPES
Não foi um acidente!
Ao ser abordado por jornalistas sobre a queda do viaduto que matou duas pessoas ontem em Belo Horizonte, o prefeito Márcio Lacerda respondeu: “Acidentes como esse acontecem”.
Não Senhor Prefeito, acidentes como esse não acontecem naturalmente. A queda do Viaduto matando duas pessoas e deixando dezenas de feridos não pode ser entendido apenas como mais um acidente. Ele representa muito mais do que isso e é, na verdade, uma peça-síntese da tragédia pública que caracteriza a Política Brasileira. Peça que talvez tenha o senhor como o personagem mais caricato: um empresário que entra pra politica e que acredita que pode governar uma cidade como gerencia suas empresas.
O viaduto caiu, mas o que deveria cair por terra definitivamente era essa forma de fazer política. Que articula os interesses privados de grandes empresas com interesses eleitorais de partidos e políticos, que busca apenas perpetuar seu poder e seus negócios.
Talvez poucas pessoas representem tão bem este tipo de política como o senhor Márcio Lacerda, que virou prefeito de BH numa articulação que na época envolveu uma aliança inédita entre PT e PSDB. Talvez poucas alianças representem tão bem o nebuloso contexto político brasileiro, onde cada vez fica mais complexo identificar diferenças de postura entre partidos, o que nos coloca diante do grande desafio de valorizar quem ousa fazer diferença.
Os viadutos da cidade de BH tem feito história. Enquanto no Santa Tereza o espaço - que se tornou ponto de encontro de diversos movimentos sociais, sempre ocupado com atividades de cultura arte - foi fechado para uma reforma pouco transparente, outros foram construídos em processos muito questionáveis. Vimos jovens caindo e morrendo depois de serem perseguidos pela PM durante os protestos de junho de 2013.
É desses mesmos viadutos que saem os recursos que alimentam as campanhas eleitorais.
Enquanto as pessoas que lutam por fazer cultura e ocupar democraticamente estes espaços são perseguidos pela Polícia, os moradores de rua que utilizam desse local pra se proteger e viver são presos e retirados da cidade. Os políticos e empresários que assinam os contratos licitatórios que depois alimentam as campanhas eleitorais seguem protegidos e impunes.
Mas desta vez não tem desculpa. O viaduto caiu e todo mundo viu. Mais do que isso, todos nós sabemos de quem é a culpa. Todo mundo sabe que milhões de reais foram utilizados erroneamente e que este recurso público, fruto do imposto pago pelos cidadãos, foi parar na mão de empresários e campanhas eleitorais. Isso levou a morte de duas pessoas inocentes.
O que aconteceu ontem em Belo Horizonte é fruto de um modelo de gestão pública que deve ser combatida, investigada, punida e banida da sociedade brasileira. Mais do que nunca, é importante lutarmos por uma reforma política que acabe definitivamente com esta relação promíscua entre empresas, campanhas eleitorais e gestão pública.
Toda força e solidariedade às famílias dos mortos e feridos. Que os responsáveis não saiam mais uma vez impunes. Ao final das contas, o que aconteceu ontem não foi um "acidente".